A garota que voava

Gostava de vê-la naquele balanço. Seus cabelos vermelhos balançavam ao sabor do vento de tal forma que se assemelhavam às chamas bruxuleantes de uma vela. Para compor a imagem, seu vestido de tecido fino e esvoaçante dançava a sinfonia da natureza tal qual um sopro de fumaça alva.

Seu corpo se postava conforme leis da física que ela sequer sabia existir, de forma a criar a aerodinâmica perfeita que iria afugentar suas dores. Porque afinal era esse o motivo de tal balançar. Ela queria expulsar tudo que a fazia sentir vontade de chorar.

E ela não gostava de chorar. Odiava sentir-se tão vulnerável e sensível diante dos outros. Odiava os olhares pesados de pena e os sorrisos forçados. Odiava aquela expressão de desorientação que certas pessoas sentem ao ver alguém chorando. E não gostava nem um pouco das palavras prontas e vazias de consolo. Mas ela não culpava as pessoas que assim agiam, pois entendia que essa era a reação normal de um ser humano.

Por isso, quando sentia os olhos marejarem, quando ela sentia aquela inquietação no peito, aquele aperto na garganta ou qualquer sensação que pudesse despontar em lágrimas, corria para o seu balanço, longe de tudo e de todos, onde podia sentir-se livre para por pra fora o que a afligia.

Raramente ela chorava, mesmo estando lá, pois ao sentar-se no balanço imprimia tanta força e afinco no balançar que às vezes eu tinha impressão de que ela sairia voando. Ela se entregava ao vento e não se preocupava com uma possível queda, pois tudo, até o medo, lhe fugia naqueles míseros segundos no ar e, de repente, toda a tristeza e raiva a abandonavam como se tivessem sido levadas pelo vento.

Mas eu temia por ela, temia que o destino lhe roubasse aquele balanço, temia que um dia a corda se arrebentasse e ela caísse naquele chão duro e impiedoso e, principalmente, temia o momento em que não pudesse usar mais o balanço, simplesmente porque já estava grande demais para tal ato. Sei que esse dia chegaria, mesmo que de mansinho. Sei que, de uma hora pra outra, todos ao seu redor lhe diriam, de uma forma ou de outra, que aquele lugar não lhe pertencia mais e que ela deveria aprender a lidar com suas lágrimas sem poder voar.

Não sei ao certo quando isso aconteceria, nem sei se a recusa ao balanço partiria de fato dos outros, ou dela mesma. Mas sabia que era inevitável. Sempre era. Para todo mundo, sem distinção. Um dia você acorda e sabe que não pode mais fugir, sabe que não há mais balanços, sabe que não pode e nunca pôde voar. Então o balanço continua lá, mas passa a ser apenas um refúgio, um elemento, do que fomos um dia.


Originally published at revistainterage.com on October 21, 2016. 39 people liked this post.

About Livea Colares

Sou jornalista por formação e Mestre em Comunicação. Escolhi essa profissão porque amo ler, ouvir e contar histórias, principalmente aquelas que alimentam nossa fé na humanidade e nos fazem sonhar. Tenho uma lista de lugares no mundo que quero conhecer, amo escrever, e sempre que posso, ponho um nariz vermelho e tento plantar sorrisos com a Trupe Palhaços Curativos. Email: livea.colares@gmail.com