Crise do bem: a alta do brechó como alternativa para quem quer se vestir bem e gastar pouco

Você já imaginou comprar aquela peça de roupa “desejo”, bem baratinha? Já imaginou ter um guarda-roupa inteiro novinho gastando pouco? E se você pudesse se desfazer de uma peça que já cansou de usar e ainda ganhar dinheiro com isso? Sabemos que a crise econômica que o Brasil está passando dificulta a vida de todos — empresários, lojistas e consumidores.

Nos últimos dois anos, a indústria têxtil vem passando por uma queda desenfreada nos lucros com a matéria prima. Isso porque o, já alto, valor dos impostos cobrados para entrar material no Brasil está subindo cada vez mais. Para completar, os empresários do ramo sofrem com a entrada de produtos chineses no território nacional, que acabam conquistando o público por serem mais baratos.

Ainda em consequência da crise em nosso país, as lojas de fast fashion (Riachuelo, C&A, Renner) estão fechando algumas de suas unidades por não alcançarem o mínimo de desempenho desejado com as vendas. A verdade é que, em momentos de crise financeira, a primeira coisa que as pessoas tendem a reduzir ou até mesmo a cortar são gastos supérfluos. Aquilo que está além das prioridades básicas de sobrevivência, como roupas, sapatos e acessórios definitivamente não está nesta lista de prioridades.

Porém, como foi citado pelo antropólogo Roberto DaMatta, sempre existe o “jeitinho brasileiro” . E os brasileiros estão se saindo muito bem no quesito manter o vestuário na moda e o guarda roupa atualizado sem gastar muito. No final de 2012 e início de 2013, um conceito muito utilizado entrou em alta, o de sustentabilidade, que nada mais é do que a capacidade do ser humano de interagir com o mundo preservando o meio ambiente para as gerações futuras.

Na moda, a sustentabilidade aparece de várias formas. Uma delas é o cuidado com o processo de produção da mercadoria, prezando por matéria prima reciclável, baixo consumo de água e de energia elétrica, além de propor uma produção mais humanizada, sem a exploração da mão de obra e com a remuneração mais justa. O problema dessa forma de sustentabilidade é que o preço final do produto acaba sendo maior do que os de processos de fabricação usuais.

Outra forma de moda sustentável, muito utilizada há três ou quatro anos, foi a customização. As pessoas inseriam adornos e acessórios como botões, rendas, tachinhas e pinturas nas suas roupas usadas, criando um diferencial nas peças e tornando-as exclusivas. Uma das vantagens da customização é que cada um podia transformar sua roupa garantindo um estilo próprio. Junto à customização, veio o conceito de Do It Yourself (DIY) ou ‘Faça você mesmo’ , que incentiva as pessoas a fazerem suas próprias intervenções, gastando pouco e sem precisar de mão de obra paga para isto.

Atualmente a sustentabilidade na moda é aplicada com a abertura dos brechós. Apesar de já serem muito frequentados nos EUA, tem pouco tempo essa prática passou a ser apreciada no Brasil. Após o “boom” do consumismo brasileiro causado pela melhoria financeira das classes médias do país, essa mesma parcela da população encontra-se um tanto “deslumbrada”. Isso aconteceu porque enquanto o desenvolvimento econômico no Brasil estava cada vez mais crescente, a classe média se tornou um mais estável financeiramente e passou a adquirir mais bens de consumo de boa qualidade. Com a crise econômica, os impostos aumentaram e os preços dos produtos cresceram significativamente, mas o fetichismo de comprar continua latente na classe média trabalhadora, acostumada com o consumismo em excesso.

Os brechós apareceram como uma solução do pós consumo vivido no Brasil, onde a prática da compra continua, porém com preços reduzidos e causando menos impacto ao meio ambiente. Três fatores, entretanto, são fundamentais influenciadores de compras em brechó: necessidade, curiosidade e ideologia. Há pessoas que optam por esse tipo de compra pelo valor financeiro que as peças apresentam, há as que são atraídas pelas novidades em adquirir peças que já não são encontradas nas lojas, e há quem opta pelos brechós por seguir um estilo de vida conectado com questões sociais e ambientais.

Comprar em brechó significa comprar peças de segunda mão, de boa qualidade e com preços mais baixos que o das lojas. Além de existirem os brechós físicos, onde se pode ir pessoalmente, experimentar as roupas e, eventualmente, até mesmo conhecer o ex dono da peça, há também os brechós online, onde as roupas são exibidas e negociadas através de uma plataforma virtual, como sites próprios, facebook e Instagram. Um dos brechós mais conhecidos no Brasil é o do site enjoei.com, porém as peças não costumam ser tão em conta devido ao fato de haver muitos famosos vendendo no website.

A febre dos brechós é tão grande no país que já existem alguns marcados com edições de eventos, acontecendo periodicamente. Em Belém, as programações que abrigam cultura e arte como o Projeto Circular e o Boulevarte, por exemplo, sempre comportam um espaço para expositores de brechós com vendas nos dias de evento. É o caso da blogueira e publicitária Luly Mendonça, que leva o seu brechó itinerante ‘Cadê Meu Closet’ , para venda nesses eventos. Na última edição do Boulevarte, em junho deste ano, ela destinou o lucro de suas vendas ao abrigo de animais Au Family.

A atriz e blogueira Valéria Lima do blog Tipo Assim é não só compradora como influenciadora de compras em brechós, postando com frequência sobre indicações e referências de moda adquiridas nesses lugares. Em entrevista ao Interage a blogueira falou sobre a sua relação com os brechós, onde já compra roupas há mais de três anos e sempre citando os seus “achadinhos” inusitados, “nesses brechós as vezes tu ainda encontras peças com etiqueta”. Em uma era onde os atendimentos, produtos e serviços personalizados fazem toda a diferença na hora da compra, obter essas regalias a preços baixos são de grande vantagem para o consumidor, especialmente se tratando de brechós, “a maior vantagem de comprar em brechó eu acredito que além do preço é a exclusividade”, conta Valéria.

Foto: Blog Tipo Assim — Valéria Lima: “Faça Você Mesmo” na região Norte
Foto: Blog Tipo Assim — Valéria Lima: “Faça Você Mesmo” na região Norte

O consumo consciente está em voga em todas as instâncias, moda, alimentação, exercício físico e práticas de vida. E esse talvez seja o maior legado de aprendizado que podemos deixar para as gerações futuras. Após um grande período de desperdício e apoiando, mesmo que inconsciente, as práticas de produção que geravam impactos ambientais, parece que estamos começando a tomar o caminho de volta, nos preocupando não somente com a nossa qualidade de vida, mas reorganizando e preparando o meio ambiente para que, no futuro, não sejamos tão prejudicados por milhares de anos de danos ambientais.

Na moda, o consumo consciente está diretamente ligado à economia criativa. E ao que parece, a moda criativa juntamente com a multiplicidade de informações obtidas na internet vem ajudando o brasileiro a superar esta etapa de crise econômica. A maior vantagem do brechó talvez seja essa, lucrar com o que já se tem e gastar pouco nas compras, já que a moda é tão passageira e acaba se tornando um processo cíclico de reciclagem. “Eu acho que talvez seja a história da moda criativa que está muito em discussão no meio da moda mesmo, e acho que as pessoas perceberam que é um mercado lucrativo, que dá pra ganharem com o que tem em casa”, explicou Valéria Lima.

Originally published at revistainterage.com on August 26, 2016. 15 people liked this post.

About Tais Morena

Olá! Sou a Tais Morena, mais conhecida como Morena. Sou jornalista especialista em moda, e pesquisadora em moda também! Trabalhei como assessora de comunicação em um órgão cultural e apesar de ser apaixonada por esse meio e já transitar por ele há muito tempo, meu objeto de estudo mesmo é a moda, principalmente quando relacionada ao comportamento humano e às relações sociais. Acredito que moda é comunicação e um portal que e partir dela podemos entender sobre economia, política, meio ambiente, dentre muitos outros assuntos que fazem parte do ser humano. Email: taismorenap@gmail.com Blog: bordott.wordpress.com