(Parte 3) Desenvolvimento, pobreza, beleza, vitória: as várias nuances de um Pará que precisa ser explorado

A apenas três horas de carro de Belém, a capital do Estado do Pará, a professora Edna Ponzi, 51 anos, saía de manhã cedo para caminhar ou pedalar com uma bicicleta alugada. O hábito fortalecia a sua saúde. Na primeira semana em que praticou o exercício, foi surpreendida por mulheres desconhecidas que batiam à sua porta querendo acompanha-la. E quando já estava em seu percurso, ouvia homens gritarem: vai trabalhar!, vai pegar enxada!. Surgiu um boato de que ela estava “mexendo com a cabeça das mulheres”.

Após a confusão, ela descobriu: as mulheres que praticam exercícios físicos na comunidade São Pedro, na zona rural de Ipixuna, são as “mulheres da vida” que querem cuidar da beleza. “Mulher de verdade” pode no máximo jogar futebol, mas toma banho de igarapé de roupas, vai à igreja, não usa short curto. A situação foi apenas uma das inúmeras diferenças culturais que Edna Ponzi vivenciou dentro do seu próprio Estado, como professora do sistema de ensino modular (SOME), em que educadores da rede estadual moram em várias localidades (entenda como este sistema funciona).

Além de Ipixuna, ela já esteve em comunidades dos municípios de Placas, Rurópolis, Novo Progresso, Altamira, Itaituba, Tomé-Açu e Aurora do Pará. Conheceu ribeirinhos, quilombolas, indígenas, nordestinos, sulistas e gente de outros países da América do Sul. Em cada lugar, escolhe passar seu tempo entre os moradores para conhecer seus hábitos — atitude que, segundo ela, não é tomada por todos os professores, que muitas vezes permanecem isolados nas casas oferecidas pelo Estado.

(Continuação)

Sonhos

A sua postura acolhedora a faz trabalhar além da conta, muitas vezes acarretando de ela perder exames e outros compromissos em Belém porque deseja estar presente no primeiro dia de aula do ano letivo, por exemplo. Mas tamanho esforço lhe dá satisfação: a tribo Maracaxi, mencionada no início do texto, era em sua maioria analfabeta quando ela chegou. Conseguiu incentivar idosos e crianças a estudarem em um sistema que originalmente só cobre o ensino médio. E intrigada com eles não gostarem de responder suas perguntas, de serem tão isolados a ponto de nem saírem da aldeia para conferências e festas e de só manterem relações com pessoas da tribo, descobriu graças à sua postura que o motivo era que eles não tinham uma porção de dentes.Apesar de haver posto de saúde nas proximidades, os dentistas só adentravam na tribo uma vez por ano. Mas os índios não aguentavam esperar tanto assim para se livrarem das dores: decidiam arrancar os dentes e aliviar seu sofrimento. “A gente vê a necessidade deles. Aqui a gente tem uma ‘cáriezinha’ e vai no dentista, coloca a restauração. Mas lá não tem isso”.Quando ela entendeu o que acontecia, escreveu relatórios para a Funai: foi quando diversas próteses e dentaduras começaram a chegar, junto com alguns dentistas. E o rendimento escolar saltou. “Eu acho até que não procriar, não sair para namorar, era por vergonha de não ter um ou dois dentes na frente”. E como curiosidade, ela ainda me disse que o índio que mais saía da aldeia era um surdo-mudo, filho mais velho da família de cinco homens que a hospedou. “Ele que saía e vendia a farinha dele. Era o maior líder da família”.O apoio moral também ajudou um jovem ribeirinho que lhe disse: “professora, eu não quero estudar porque quero ser que nem o meu pai”. E ela: “o que o teu pai é?”. A resposta dele: “meu pai é pescador. Quero ser pescador”. Então Edna falou: “mas eu não estou dizendo para você não ser um pescador. Só que se você estudar, pode ser o melhor pescador da região. Pode ganhar muito mais e saber lidar com peixe melhor do que os outros”. Ela me disse que depois disso ele viu que é possível estudar e ficar na comunidade ao mesmo tempo, sem precisar se mudar.

um jovem ribeirinho me disse: professora, eu não quero estudar porque quero ser que nem o meu pai. E eu: o que o teu pai é?. A resposta dele: meu pai é pescador. Quero ser pescador. Então falei: mas eu não estou dizendo para você não ser um pescador. Só que se você estudar, pode ser o melhor pescador da região.

Com a política de cotas instituída pelo governo federal, Edna viu uma parte desta sociedade, tão excluída, sentir um aumento na sua confiança em conquistar suas metas. Para ela, os jovens da zona rural têm sonhos mais maduros, que vão além de querer ter carro ou moto (alguns têm esses desejos, também): eles querem tirar os pais da vida sofrida do campo, de plantar e lidar com chuvas fortes e sol quente, de ver suas plantações minguarem. “Os quilombolas ficam muito divididos, uns acham que não são coitados (em receberem cotas), outros acham que é certo. Mas é um projeto importantíssimo para os negros, os indígenas e para essa parte da sociedade. Filhos de carvoeiros, de agricultores, que antes tinham sonhos e achavam que seria impossível e hoje, trabalhando com eles em sala, a gente vê que eles estão em busca de realiza-los.”

Ela lembra de um rapaz em Altamira que lhe foi marcante porque queria ser médico. Naquela época, antes da construção da barragem de Belo Monte, o curso de Medicina era só um devaneio na UFPA do município. Por isso, ele pretendia ir para Goiânia-GO, pois achava que não teria chances de crescimento aqui no Pará. Todos riam dele. Anos depois, Edna soube que ele realmente foi para Goiânia e passou em Medicina. “Normalmente os alunos da zona rural são maravilhosos, aproveitam ao máximo quando o professor chega”, indicando ainda que de todas as populações, são os indígenas os que mais absorvem e cobram o conteúdo ainda não passado. “Eles são mais ariscos, mas também os mais interessados”.

se você for em Marabá, os índios Gaviões são altamente desenvolvidos: têm médico, advogado. Eles voltam pra aldeia e praticam ali. E são os mais ricos que têm no Pará, porque eles fazem curso superior, já tem até gente com doutorado. Tem dois na UFPA com doutorado. A UFPA de Altamira tem um curso superior só pra índio, sobre educação. Eles fazem faculdade e já entram também na pós para se tornarem professores.

Imigrantes

Infelizmente um grande número das pessoas que Edna conheceu em suas viagens não se sentem pertencentes ao Pará. É um fato conhecido que dentro do Estado o que menos se encontra é paraense. Além dos imigrantes já mencionados na matéria, ela também viu muitos paraguaios e chilenos donos de fazendas em Novo Progresso, Rurópolis, Fordlândia e Belterra: “eles dizem que aqui, embora perigoso e com muitos assassinatos por conta de terras, é um meio de evoluir economicamente porque a terra é barata”.

Quando abria a boca para falar, ouvia comentários sobre o seu sotaque (“eles gostam”). E nos lugares dominados por sulistas, ouviu muitas reclamações sobre sermos “índios”, “mas eles esquecem que estão na nossa terra, não têm a humildade de dizer que estão ali sobrevivendo das terras do Pará”. O que ela acha curioso é que quem fala mal do Pará acaba falando mal também de todo um conjunto de estados, já que aqui é cheio de imigrantes em busca de oportunidades.

“Eles não têm interesse em saber da capital do Estado. São mais ligados às raízes deles. Por isso há a luta pela divisão do Pará, porque querem um pedaço de terra para eles. E nós que pertencemos ao Estado somos minoria, mas eles realmente precisam ser valorizados”. Quem mora no sudoeste e precisa de uma infraestrutura melhor (como para fazer cirurgias complexas) viaja até o Mato Grosso por ele ser mais próximo.

Se em parte há pouco interesse dessas populações devido à distância e por elas não serem paraenses, esse descaso também existe do lado dos belenenses: há pouca ou nenhuma cobertura dos meios de comunicação da capital por aquelas bandas, fazendo com que eles nem saibam o que acontece por aqui — e nós não sabermos sobre eles. Em 2010, quando Edna esteve em Altamira, ela lia notícias de uma semana antes, e me disse que somente por antena parabólica se podia assistir os jornais de Belém. “Em Itaituba é que não vai jornal, mesmo”, acrescenta. “O Pará é tão grande que nosso governantes não conseguem prestar atenção em tudo, então eles estão realmente esquecidos”, lamenta.

Nas suas andanças, descobriu muitas coisas que não são valorizadas pelos paraenses. Por exemplo, “Itaituba e Altamira são riquíssimos em grutas, cachoeiras e cavernas, até mais em Itaituba, já que tem muito minério. São lugares lindos que a gente não conhece porque não temos incentivo ao turismo no Pará, o que é triste”.

Tanto é verdade que quando está em Belém, ouve que é louca, que seu trabalho é ruim por estar o tempo todo se mudando, e até que ela deve gostar muito do que faz para se submeter a tantos perrengues. Sua mãe, por exemplo, só deixou de se preocupar quando fez um almoço em sua casa para conhecer pessoalmente o cacique de uma das tribos e sua família. Quanto aos seus dois filhos, estão acostumados a viverem sozinhos, já que o pai também viaja muito. Eles fazem parte do grupo que chama a mãe de louca quando ouve suas histórias — e ironicamente, os dois estudaram em escolas elitistas, são de classe média e formados em Medicina e Engenharia de Produção, realidades completamente diferentes das dos alunos de sua mãe.

Mas as belezas que Edna viu, as vitórias que teve na educação de jovens, adultos e crianças e o enorme aprendizado convivendo com gente tão diferente uma das outras são o que motivam a professora a continuar percorrendo o Pará apesar de todas as sabotagens, dificuldades de infraestrutura e a distância da própria família. “A gente aprende mais do que ensina. Eu saio, eu exploro o lugar, eu tenho essa coisa. Faço amizade, pois aluno meu é amigo” e conclui: “É lindo demais o Pará.”

Caverna Paraíso (Foto: Edna Ponzi) — Entre os km 74 a 87 da Transamazônica, entre Rurópolis e Itaituba, está a maior caverna calcária da Amazônia: são estalactites, estalagmites, colunas, flores, cortinas e travestinos dsitribuídas em salões e condutos. Além da Paraíso, há outras no entorno da rodovia: Caverna das Mãos (SBE-329), Caverna Caximbão (SBE-326), Caverna das Damas (SBE-466) e Caverna Fernanda Caroline (SBE-336). Acredita-se que elas tenham sido povoadas pelos índios Tapajó entre 1000 e 1200 anos atrás. Isto porque a Caverna das Mãos tem a marca de mãos e outros desenhos rupestres. Estas inscrições estão 300 metros para dentro da Caverna das Mãos, em total escuridão. Somente cavernas francesas têm as mesmas características!
Rio Tapajós (Foto: Edna Ponzi) — Na altura de Itaituba.

Originally published at revistainterage.com on August 11, 2016. 31 people liked this post.

About Nayra Wladimila

Inventei de ser jornalista porque me divertia fazendo revistas na infância e hoje insisto na profissão por teimosia e amor bandido. Sou dona da Interage e acho estranho falar “do Interage” para concordar com a palavra “site”. Mais estranha ainda só eu mesma, pois vou ao bar para comer o tira-gosto e conversar ao invés de beber, prefiro esperar um filme passar na televisão do que abrir o Netflix e lavo a louça ouvindo rock psicodélico. Email: wladimila@gmail.com