Lambada: saudosa ou atual? Como a dança sobrevive ao tempo e ainda lota bailes em todo o Brasil

Coqueiros balançando e águas límpidas de um litoral paradisíaco são o cenário perfeito para dois corpos que se juntam… O cambrê feminino, cabelos ao vento ao som do 3…1, 2, 3… 1, 2, 3… Caminhadas longas e sensualmente conduzidas finalizam com um giro da cabeça, que retorna e se encontra perante a face suada do par. Imaginou? Então, você é um adepto do zouk, como eu. Talvez não dancemos sempre com toda esta fantasia descrita, mas que chega bem próximo… Ah, isso chega!

É por isso que há um bom tempo me interesso por esta dança, tão sensual quanto latina, tão alegre quanto brasileira! Desde a faculdade, quando me foi solicitado um artigo científico com o tema “A Cara do Brasil”, e da minha primeira entrevista pingue-pongue. O tema de ambas foi a Lambada! Sim, esta é a origem do intrigante zouk. Ou melhor, zouk brasileiro, que é a nomenclatura mais adequada. Vamos ver o porquê.

Lambada: A cara do Brasil
Ascendente da Lambada, o Carimbó tem raiz indígena e africana. O ritmo que sobrevive com força na Pará também tem uma pitada da cultura caribenha.
Das pistas às telinhas do cinema, a Lambada viveu diversas alterações ao longo dos anos. Salvo por dois franceses, mentores do grupo Kaoma,o ritmo mostra seu poder de adaptação e sobrevivência. Leia o artigo em que eu conto esta história clicando aqui.

No artigo, eu defendi que a cara do Brasil é a Lambada, inspirada totalmente em um workshop de dança que havia feito com um casal de professores cariocas muito simpáticos. Eles eram mais do que professores de dança, eram difusores da nossa cultura no exterior. E traziam alguns prospectos sobre a história do samba, do forró e dela… Da lambada! Foi aí que tudo começou. Mais tarde, tive a honra e o prazer de conhecer e entrevistar Loalwa Braz, ex-vocalista do Kaoma. Acredite: o grupo já foi montado para ser um sucesso garantido, ela me contou! O Kaoma foi um grande difusor da Lambada internacionalmente. Em 2015, Loalwa Braz retornou à TV, completando 40 anos de carreira; e 26 anos de Kaoma (que é de 1989).

A voz do zouk
Dividindo o tempo entre França e Brasil, a ex-vocalista da Kaoma, Loalwa Braz, repaginou sua carreira musical:
“A Lambada tem força sim. O zouk é a lambada. E a lambada teve essa mistura com o zouk porque a lambada começou ali no Norte, do lado do Caribe”.
Confira a entrevista completa da cantora comigo clicando aqui.

Várias paixões me levam a ela

Claro que, além de curiosa e praticante, me interessei pela dança por um quê a mais. O contato profissional com o mestre da dança de salão no Brasil, Jaime Arôxa, aconteceu em 2015, quando passei a integrar sua equipe na Escola de Dança Jaime Arôxa e Maria Rosa, em Iguaba Grande, perto de onde moro (Araruama-RJ). Eu não só estava de frente para um professor experiente e gênio respeitável, mas de quem introduziu a lambada no Rio de Janeiro (ainda em 89!). Qual não foi minha surpresa ao pesquisar um pouquinho e descobrir que ele também coreografou a abertura da novela Rainha da Sucata e os shows do Beto Barbosa?!

Ah, as paixões! Se a dança me levou ao mestre Jaime, a idolatria por Roberto Bolaños e principalmente o incondicional amor à série Chaves me fizeram conhecer a Thays Menezes, de Belém do Pará. Apesar de ainda não nos conhecermos pessoalmente, temos contato diário com a administração do maior fã clube de Chaves do Brasil (Chaves e Sua Turma). E outra coisa nos une: o amor ao remelexo! Ela também é dançarina de salão em sua cidade. E eu quis logo saber se a lambada é exercida no local!

Lembrança viva

Thays disse que o ritmo ainda é tocado em bailes da saudade e outras festas, mas me decepcionei ao saber que, segundo ela “são bem poucos os praticantes de lambada.” Apesar disso, afirma exercer um efeito viral nas pessoas, ao dizer: “Mas quando toca nas festas o pessoal dança mesmo. Sabendo ou não, o pessoal mete a cara e dança”. Ufa! Menos mal!

Mesmo sendo amante da dança, Thays não está praticando porque tem um lindo e super fofo bebê. Quando dançava, ela era da companhia do Rollon Ho, ex integrante do grupo Calypso. Com ele, tirei algumas dúvidas com relação ao trabalho, sua iniciação na dança e a lambada no Estado. Histórias bem interessantes!

O seu contato com a lambada começou cedo. Com apenas 10 anos, já ganhava os concursos de dança entre os familiares. Isso fez com que o ritmo marcasse sua infância. E logo aos 15 anos entrou para uma escola de dança de salão como bolsista e nunca mais saiu — ou a dança não saiu mais dele?. Rollon Ho tem nesta expressão um escape, uma formação e um apoio.

“A dança de salão me ajudou bastante no meu convívio social, com a minha família… Eu estava passando por uma fase complicada. E isso fez com que eu abraçasse a dança de uma forma como se fosse aquela pessoa que te ajuda nos momentos difíceis”, conta Rollon Ho, ex integrante do grupo Calypso e dono da Cia de Dança Cabanos, em Belém.

Hoje com 32 anos, Rollon tem sua própria companhia de dança desde 2005, tendo conquistado seu espaço em 2008. Apesar do foco das aulas serem as danças de salão, perguntei sobre os ritmos típicos paraenses. Ele me disse serem quatro, mas que apenas dois são bastante tocados e dançados em festas e bailes: o merengue paraense e o brega.

(Tenho que contar que me encantei com o merengue paraense! Dá só uma olhada neste vídeo, com uma apresentação desta dança)

Sobre a lambada, contou que é geralmente encontrada em festas conhecidas como guitarradas, e deu uma dica: toca todas as quintas na casa de shows Templários, em Belém.

“Mas por que temos tão pouco de lambada no Pará?”, indaguei. E logo tive a resposta: Porque ela se transformou e o Estado em que nasceu também acompanhou. Dentre as danças de salão citadas por Rollon, bastante praticadas em aulas e bailes, está o zouk. E é deste mocinho jovem que vamos falar agora. Foi bem legal ver que o Rollon está mesmo antenado na cultura e transformação da dança. Ele contou:

“A lambada foi inserida numa das danças de salão, no zouk. Tinha uma mesma levada da lambada. Diminuíram a velocidade da lambada para se encaixar no ritmo zouk. Então, hoje é vendida no Brasil como zouk e fora do Brasil como zouk brasileiro, que tem as características da lambada, influências do hip hop e de diversas danças”.

Viajando para o Rio de Janeiro

Se no Pará a coisa ainda acontece, como será que as grandes metrópoles como o Rio de Janeiro reagem? Bom, o que tenho para contar é que aqui (em todo o Estado) há diferenças com relação ao que é dançado no Norte, mas as duas formas são caracterizadas como o mesmo zouk brasileiro. E como ainda estou devendo para você, leitor, a explicação deste termo, vamos recorrer a um especialista!

Lembra-se de quando contei que tive contato com um professor de dança que me inspirou a escrever um artigo da faculdade? Então, foi com ele que conversei para esclarecer pontos complexos sobre a lambada e o zouk.

O professor e pesquisador de danças brasileiras Luís Florião é o maior responsável pela dança ser chamada hoje de zouk brasileiro. Para ele não há nenhuma dúvida de que a dança conhecida como zouk no Brasil, atualmente, teria vindo da lambada. As mudanças foram, principalmente, essas: no ritmo, o zouk carioca passou a ter o uso do passo básico do samba e aumentou a preferência por músicas mais lentas; desta forma, na dança, diminuíram os rebolados tão característicos da lambada e os movimentos ficaram mais deslocados para preencher os tempos.

Luis Florião é também o responsável pela realização do Congresso Internacional de Danças Brasileiras, que já teve quatro edições.

Florião atenta que é fundamental separar as origens da música e do nome. Além disso, a nomenclatura é considerada por ele um produto das experiências brasileiras e um reflexo do que se espera da dança e do ritmo. Deixa isso claro quando explica a chegada da lambada no Rio de Janeiro e sua transformação até chegar à forma mais conhecida, o zouk.

“Em relação à música, começamos com as lambadas vindas do Pará. Daí, passamos a usar também as rumbas flamencas, gipsy kings, que as pessoas chamavam de lambadas espanholas. Depois, começamos a usar a música zouk, que chamávamos a princípio de lambadas francesas. Segue a fase de uso prioritário da música zouk nos bailes. E o nome da dança muda de novo para lambazouk. Neste momento, a música lambada começa a ser tratada como flashback. Por fim, por causa dessa música ter ficado predominante nos bailes, o nome da dança passa a ser somente zouk.” Luís Florião, professor e pesquisador de danças brasileiras.

Outro esclarecimento é sobre a relação com o Caribe. Devido à existência (lá) de uma dança de igual nome, muita gente pensa que nosso zouk veio do Caribe, mas não. O zouk caribenho não tem relação com o zouk brasileiro. Este é só nosso.

Por sinal, olha só a diferença entre o zouk do Caribe e o zouk do Brasil: neste vídeo, a cantora francesa de zouk, Perle Lama, ensina a dançar o zouk caribenho:

Aqui, Luís Florião dança zouk brasileiro com sua parceira, Adriana D’Acri, em uma coreografia para palco:


Originally published at revistainterage.com on August 19, 2016. 32 people liked this post.

About Kary Subieta

Acredito que a beleza da vida está em fazer todos os dias somente o que nos realiza! Por isso, sou jornalista, profissional de marketing e conteúdo digital, “chavesmaníaca” declarada, apaixonada por dança, culinária e televisão! Também adoro me aventurar em novas culturas, com pesquisas, leituras e, claro, passeios enriquecedores! Email: karysubieta@gmail.com