Moleque: um curta inspirado no Chaves

Foto: Divulgação

Precisamente no dia 08 de agosto de 2016 estreou o curta-metragem “Moleque”, escrito e dirigido por Marcos Pena, com inspiração na série mexicana El Chavo del Ocho, reprisada no Brasil há mais de 40 anos pelo SBT. O núcleo da história é um menino de rua cativante, que faz amizade com Soneca, um vendedor de churros que mora em uma vila com sua filha, Fran.

O filme começa retratando, de forma sensível, a dura realidade do Moleque como um menino de rua que vive sozinho. Mostra ainda o quanto é travesso ao implicar com outro garoto que está em um restaurante com sua (possivelmente) mãe. O que indica que o Moleque, antes de qualquer coisa, tem comportamento de criança.

A partir daí, a trama se desenrola…

Atenção: contém spoilers!

Moleque e Chaves: O filme e a série

Veja o cartaz do curta-metragem protagonizado por Leônidas José

Moleque encontra Soneca, um vendedor de churros que trabalha na rua. O menino lhe pede um churros, que é negado a princípio. A seguir, Soneca mostra ser generoso e finge que “dá mole” com um dos churros, que Moleque logo pega e sai correndo.

Acho que Seu Madruga não poderia ser melhor representado do que como um vendedor de churros. Apesar de sua fama de não trabalhar, em vários episódios de Chaves, teve diferentes ocupações. Uma delas, vendedor de churros.

No caminho, Moleque encontra dois meninos. Um deles oferece a ele um sanduíche de presunto e, logo que aceita, é retrucado: “então vai comprar”. O outro menino é chamado de “Gordo” e também implica com o menino de rua.

Quico e Nhonho também são próximos na série. Nela, de todas as crianças da Vila, eles são retratados como quem vive em famílias com melhores condições econômicas.

Moleque resolve voltar até o vendedor de churros e segui-lo pelas ruas. Ao notar os pés descalços, Soneca o convida para ir até sua casa para dar-lhe uma “bota velha”. Ele revela que seu nome é, na verdade, “Ramón”, sendo Soneca seu apelido.

Aqui, é retratada em cena a vez em que Chaves chegou à Vila, no episódio “Álbum de fotografias”. Na série, Don Ramón o presenteou com uma bota velha e grande, que por anos é usada pelo menino.

Logo quando Soneca e Moleque chegam ao local em que o vendedor de churros mora, que se assemelha a uma comunidade ou cortiço, aparece uma moça pela qual seu coração bate mais forte. Junto a ela, está uma menina que rouba os olhares do Moleque.

A aparição da senhorita e da menina, que apenas passam por Soneca e Moleque, referenciam claramente à Glória e Paty, que são a moça “formosa”, o “Paraíso”, e a menina bonita.

Para tirá-los de seus sonhos românticos, aparece em cena uma senhora mal humorada, vestida com avental e bobs na cabeça, cobrando o dinheiro das vendas. Seu nome, Flora. Para visitá-la, chega um senhor alto, com bigode e um ramalhete. Após dar-lhe as flores, os dois seguem, se olhando de forma apaixonada, para (provavelmente) a casa dela.

O negócio dos churros entre Dona Florinda e Seu Madruga estão no episódio “A sociedade”, em que ela faz os churros e ele os vende. E não poderia deixar de estar presente o “Kilômetro Parado”, digo, o “Tobogã de Salto Alto”, quer dizer… “O Cano de Encanamento”, aquele a quem chamam de “Professor Linguiça”. Ou o querido Professor Girafales. =)

Para compensar o mau humor desta vizinha e patroa (ou sócia), o vendedor tem o apoio em sua casa de outra vizinha, que sai da casa dele, de número 72. Lá, ela estava ajudando-o a cuidar da sua filha, Fran, que está doente. Ao conversar com Moleque, a senhora, vestida de azul até a cabeça, se irrita com ele pela forma informal de sua conversa, e tenta ensiná-lo “boas maneiras de cumprimento aos mais velhos”. Irritada com a falta de educação do menino, ela vai em direção à sua residência, de número 71.

No relacionamento entre Soneca e a bruxa, digo, a senhora (ou senhorita) do 71, não é demonstrado que ela cai de amores por ele como na série. Ela é apenas uma vizinha generosa que o ajuda quando precisa. Forte defensora da educação formal e militante da causa do respeito aos mais velhos, a conversa entre a vizinha do 71 e Moleque é bastante interessante e mostra o mesmo conflito que existe entre eles na série.

Em continuidade, Soneca entra em sua casa e conversa com Fran sobre a necessidade de tomar os remédios para se curar, mostrando o quão cuidadoso o Ramón é com sua filha.

Os fãs não podem deixar de notar a inspiração no episódio “Remédio difícil de engolir”, em que Chiquinha está doente e é cuidada por Dona Clotilde. Igualmente na série, a menina se recusa a tomar os remédios, apesar do esforço do pai.

Ao ver Moleque espiando pela janela, Soneca lembra que está lhe devendo o par de botas que havia prometido. Após dar-lhe, o menino se mostra destrambelhado e derruba alguns itens da casa ao pegar a bota. Ao desculpar-se, diz: “Foi sem querer”.

Completando a alusão ao presente do Seu Madruga ao Chaves quando chegou à Vila, esta cena ainda menciona indiretamente o bordão mais famoso do Chaves: “Foi sem querer querendo…”

Moleque está no pátio colocando as botas quando aparece um carteiro com um chaveiro de uma bicicleta. Ao conversar com o menino, mostra-se sonhador e encantado com o “grande mundo afora”. Moleque lhe pede o chaveiro de presente; o carteiro não o dá, mas se mostra gentil e simpático com o menino.

Quem não vai se lembrar do Jaiminho nesta cena? Ao contrário da série, o carteiro é jovem, e não aparece carregando uma bicicleta. Mas essa é referenciada; igualmente, aparece a característica sonhadora de Jaiminho (a que podemos ainda classificá-lo como um perfeito “renunciador” segundo as características deste perfil social apontadas pelo antropólogo Roberto DaMatta… Mas isso já é história para uma próxima matéria, em que apresentarei as características sociais de outras personagens). Além disso, falou do seu encantamento pelo mundo, o que poderíamos considerar uma alusão a Tangamandápio, que não foi diretamente mencionado. Acho que o diretor quis “evitar a fadiga”. =p

A cena retorna à Soneca que, ao avistar pela janela o cobrador de aluguéis, logo lembra de que tem que ir à farmácia comprar os remédios de sua filha, e sai da casa pelos fundos, com a desculpa de “cortar caminho”. É interessante notar características físicas do cobrador de aluguel que possam querer fazer uma ligação com “Gordo”, que implicara com Moleque na rua anteriormente.

A malandragem do Seu Madruga e o hábito de fugir para não pagar o aluguel… Claro! Não poderia faltar… Aparece aqui também uma referência a Nhonho e Sr. Barriga enquanto filho e pai.

Ainda antes de sair, Soneca dá instruções à sua filha, de que não pode sair de casa doente porque pode ser pega pelo “zoiúdo”.

“Chapéééu, sapaato ou roupa usaaada: quem temmm?” No episódio “O velho do saco”, as crianças temem um ser inventado pelos pais para amedrontá-los a não desobedecê-los. Velho do saco, zoiúdo…. O que é que eles têm em comum?

As crianças ficam, então, sozinhas. Elas logo se apresentam. A menina diz que seu nome é Francisca, mas pode ser chamada de Fran. O menino se apresenta como “Moleque” e logo Fran quer inventar um apelido para o menino, que não gosta da ideia. Os dois começam, assim, uma discussão em que um fala “quer sim” e o outro “quer não”, até se embolarem e trocarem as falas.

Duas falas comuns são notadas, além do nome Francisca, o mesmo da Chiquinha. Chaves se apresenta com seu apelido, como Moleque. E discussões do tipo “sim” ou não” com as falas trocadas, que são características de episódios de Chaves e de Chapolin.

Aparece, a seguir, na janela, o menino que implicou com Moleque na rua, junto com o Gordo, iludindo-o ao oferecer um sanduíche de presunto. O menino, que usa aparelho e é vestido com uma roupa preta com um zíper vermelho no meio, diz morar na vila e ser filho da Flora. Essa o enviou para cobrar o dinheiro que faltou das vendas, entregue por Soneca. Fica claro que a menina não simpatiza com o garoto implicante. Em contrapartida, tenta ajudar Moleque quando cai, demonstrando simpatia por ele, que retribui igualmente os cuidados com ela.

Não há nada mais “fofo” no filme do que este carinho entre os personagens Fran e Moleque, pois Chaves e Chiquinha são muito amigos e acho que uma demonstração, ainda que breve e sutil como esta, não poderia mesmo faltar!

Aparece, então, alguém desconhecido, avistado da janela por Moleque. As crianças logo acham que é o “zoiúdo”. Resolvem, assim, enfrentá-lo. Moleque joga um vaso na cabeça do homem, quando este tenta entrar na casa. A seguir, Soneca aparece dizendo que se tratava do chaveiro chamado para consertar a fechadura da porta de entrada da casa.

Na série, quem apanha com um vaso é o Sr. Madruga, por ser o vendedor que carrega um saco, e as crianças acham que ele é o velho do saco.

Soneca reclama por Moleque ter quebrado o vaso dele e pergunta: “Quê mais você tem pra quebrar aqui dentro?”. Moleque pega outro vaso e quebra. Soneca e Fran, consternados, colocam suas mãos na cabeça e dizem lamentando: “Mais um vaso.” Eis que Moleque responde: “Ao contrário, menos um vaso”.

Com estas falas, a referência é ao episódio “Álbum de fotografias”, só que os objetos quebrados por mais de uma vez por Chaves são pratos. Também se refere a uma situação recorrente nos episódios, em que perguntam se Chaves não teria outra coisa pra quebrar, ou como fazer mais escândalo.

Ao ajudar o chaveiro ao levantar do chão, Soneca confunde seu nome, chamando-o de “zoiúdo”, depois de “pezão”. Bravo com o acontecido somado à confusão dos nomes, o chaveiro diz: “Então, é o senhor que vive colocando apelidos em mim? Eu vou te mostrar quem que é zoiúdo!” A cena mostra gritos de dor do Soneca, como quem está apanhando.

Não foi desta vez que o Soneca apanhou da Dona Flora… Mas ele tinha que apanhar, senão não seria como o Seu Madruga, que aguenta firme “as pancadas que a vida lhe dá”. Sobre os apelidos, nota-se alusão ao episódio em que Chaves entrega o bilhete errado na venda da esquina. Ao invés de levar a relação de compras, entrega por engano uma mensagem romântica que seria do Professor à Florinda. Ao desenrolar a confusão, Chaves diz que vai dizer ao vendedor quem fica mandando recadinhos pra ele… Não é a mesma situação, mas a relação é clara.

Furiosa com Moleque, Fran o culpa de o chaveiro estar batendo em seu pai. Ela pega uma vassoura e sai correndo atrás do Moleque. No caminho, passa por Soneca com sinais de quem apanhou. Começam as cenas da perseguição, que percorre grande parte da comunidade em que estão. Em uma das cenas. Moleque consegue despistar Fran. Ele se esconde e aparece saindo de um latão, quase do seu tamanho, onde estava abaixado.

Sem barril, não tem Chaves! Foi lindo ver como foi colocada esta referência no filme, com um objeto que combinava com o local da cena. Eu diria mais… Foi emocionante o momento em que Moleque saiu do latão!

Após sair de lá, ele entra em uma das casas, que está com a porta aberta. Ele senta, então, em cima de papelões que estão no chão e olha para cima, onde estão oito estrelas de enfeite. A seguir, é mostrada uma cena que parece ser uma recordação. Olhando para as mesmas oito estrelas, está um bebê, na frente de seus pais. Eles se despedem do menino e dizem que não querem abandoná-lo, mas é necessário. Ao conversar com a criança, o pai lhe dá uma lição, dizendo: “O primeiro a pedir desculpas é sempre o mais corajoso”.

Seria muito difícil de acontecer de um menino com, possivelmente, oito anos, lembrar o que seus pais lhe falaram quando, provavelmente, nem sabia falar ainda. Mesmo assim, esta parte corta o coração e faz a gente lavar os olhos de dentro pra fora…

A cena volta, então, para o local em que Moleque está. Ele sai da casa, vai até Fran, beija-a no rosto e repete a frase que o pai disse ao bebê. A seguir, corre pelo cortiço, passando pelos moradores. O filme termina com Moleque olhando para a câmera e continuando a correr.

Estas cenas são o sinal de continuidade que fazem com que o filme não seja tão curto, pois deixa a imaginação fluir, faz imaginarmos toda a vida de Moleque e as situações cotidianas e de aventura que ele passaria naquele local.

Nota!

É interessante notar que o filme não pretende ser uma cópia ou reproduzir um episódio específico. A adaptação considerou a atualidade quanto ao contexto, época histórica e local do desenvolvimento da trama. Para os fãs, é realmente muito emocionante porque nos faz ver como os personagens criados na década de 70 por Roberto Bolaños são reais. Se um dos fatores do sucesso de Chaves é exatamente este (o das características “reais” nos personagens e sua aproximação com nosso cotidiano), isso fica ainda mais claro no filme, que adapta a trama para os nossos dias.

Conclusão

Em suma, acho que o menino do barril dos anos 70 não poderia ser melhor representado na época atual! No filme, Moleque é um menino meigo e ingênuo, ao mesmo tempo, esperto e traquinas, como o Chavinho. Aliás, não só ele, mas todas as personagens foram muito bem construídas e interpretadas. Referências sutis a algumas passagens da série são de emocionar qualquer fã. Certamente, o filme honra esta criação do mestre Roberto Goméz Bolaños que, infelizmente, faleceu em 28 de novembro de 2014, e não pôde assistir à homenagem. Apesar disso, o diretor do curta, Marcos Pena, fez questão de apresentá-la ao filho de Chespirito: Roberto Goméz Fernandez, que aprovou o filme, para sua satisfação e a de todos que contribuíram para que Moleque se tornasse, literalmente, uma realidade nos dias atuais.

Ainda tem a melhor notícia…

O filme está disponível online no nosso post original, para você assistir agora e quantas vezes quiser!

Para quem gostar do filme…

Após o sucesso do curta na internet e a repercussão positiva na grande mídia, o diretor e roteirista Marcos Pena resolveu gravar o segundo episódio, que se chamará “A Casa da Bruxa”. Mas, infelizmente, ainda falta recurso financeiro. Por isso, foi aberto um sistema de contribuição para o novo filme. Através do site Kickante, os fãs de Moleque podem ajudar com o sistema de financiamento coletivo. Para contribuir, acesse a página do projeto no Kickante!

Originally published at revistainterage.com on September 26, 2016. 46 people liked this post.

About Kary Subieta

Acredito que a beleza da vida está em fazer todos os dias somente o que nos realiza! Por isso, sou jornalista, profissional de marketing e conteúdo digital, “chavesmaníaca” declarada, apaixonada por dança, culinária e televisão! Também adoro me aventurar em novas culturas, com pesquisas, leituras e, claro, passeios enriquecedores! Email: karysubieta@gmail.com