O caderno de Bianca

Bianca abriu o caderno e escreveu: VOCÊ É TÃO AUTOCENTRADO QUE SÓ CONSEGUE VIVER DO SEU MODO E NÃO SE RELACIONA COM NINGUÉM. Jogou o caderno longe e chorou na cama. O caderno, que nada tinha a ver com a raiva dela, ficou caído em meio a livros e roupas amassadas no chão. Ele já estava acostumado com esse tratamento, mesmo sabendo que não merecia.

Suas páginas eram de tom marfim e pautadas com linhas caramelo. Sua capa dura era rosa claro com flores amarelas, rosas e brancas. Bianca e o caderno se uniram num dia de verão, especificamente no aniversário de 11 anos dela. Foi mais um dos presentes cor de rosa que todos insistem em dar para as meninas quando são novas. Ela achou bonito mas tinha pena de gastar suas páginas, assim como a coleção de adesivos brilhantes e as canetas coloridas. Ficavam todos ali no quarto, esperando o momento em que seriam usados. As canetas eventualmente foram gastas e os adesivos se perderam na mudança da família para o bairro do Catete em 2003.

O caderno teve seu uso definido meio que por acaso. Um dia Bianca chegou em casa, como no começo dessa história, chorando e raivosa. Ela sentia tantos sentimentos que nem sabia exatamente o que sentia. Entrou no quarto, pegou o caderno da estante e escreveu: VOCÊ É UM IDIOTA E EU NÃO SEI COMO EU GOSTEI DE VOCÊ. No caso, o "você" era Henrique, um menino muito bobo da turma, que agora todos sabiam que namorava Gabriela. O que não sabiam era a paixão de Bianca por ele.

Ela poderia ter escrito em qualquer outro papel, em seu fichário, na agenda ou até pixado no banheiro da escola. Mas foi o caderno rosa escolhido. A partir de então, só ele sabia dos segredos amorosos de Bianca. Se tornaram confidentes.

Engana-se de achar que o caderno virou um diário. Não, o caderno era apenas para confissões de paixões - que em sua maioria eram confissões de ódio e relatos pós-relacionamentos. Era dedicado aos meninos e homens da vida de Bianca. Uma carta aberta para todos que a tinham machucado, coisas que ela queria dizer e algumas vezes até disse, mas no caderno ela se empenhava.

Ela separava um tempo para escrevê-lo. Até escolhia canetas coloridas, se o rapaz merecesse tal cuidado. Era uma forma de entender o que ela sentia e registrar para não esquecer. O caderno era a prova de seus desgastes amorosos, dos caminhos que ela tomou e dos erros que cometeu. Segundo minha avó, da primeira vez é um erro, na segunda, uma escolha. E Bianca se esforça para que os erros fiquem só entre as flores e o rosa do caderno.

Bianca hoje é uma mulher incrível que tenho sorte de ser minha amiga. E o caderno continua lá, contrastando seu conteúdo cheio de misandria com a capa florida. Eu pessoalmente nunca o vi, só ouço histórias. "Essa vai pro caderno", ela me disse uma vez pós-término de um relacionamento confuso. Tenho certeza que ele é recheado de histórias interessantes, mas pelo bem da minha amiga, espero que ele seja aposentado em breve e vire peça de museu. Assim, todos aprenderemos com ele.

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