O que os olhos não veem, o nariz sente

Eu tenho passado muito tempo em casa com meu pai e estou tendo certa dificuldade para adaptar minha rotina. Eu sempre fui da rua, raramente estava em casa — tentando aparecer pelo menos ao café da manhã, mesmo que isso signifique chegar em casa junto com o jornal, após uma intensa noite fora. Porém, aqui estou eu, presa enquanto convalesço, com meu velho. Situação esta que irá durar pelo menos mais duas semanas.

Ficamos os dois durante a tarde e noite inteira em casa. O que é muito agradável, porque adoro sua companhia, porém tem certas rotinas que eu preferiria que ele não soubesse.

Meu pai sabe sobre meu gosto por cigarros maliciosos e isso também nunca foi um problema. (Em um jantar de Natal, ele confessou bêbado que amava o tal fumo durante sua juventude e não há hipócritas nessa casa). Mas uma coisa é saber e respeitar, outra é ter uma boca de fumo no lar. Resolvi que precisava diminuir a percepção do meu progenitor— a diminuição do consumo nunca foi levada em conta.

Velas aromáticas? Incensos? Perfumes para ambientes? São lindos porém sempre achei os cheiros deles meio enjoativos. Além do mais, meu pai é muito alérgico a perfumes e eu não quero matar o velho. Resolvi pesquisar mais técnicas enquanto bolava um cigarro malicioso.

Na hora, usei o único recurso que eu tinha à disposição: o tubo de papel. Quem sabe, não usa, quem não sabe, ainda vai tentar. Mas, era o que tinha. Para quem não conhece, é uma técnica milenar usada largamente por jovens adolescentes que acham que estão mandando muito. Você só precisa de um tubo (geralmente o que sobra do rolo de papel alumínio), uma janela e uma fumaça. Depois de inalar o mato, você solta o bafo pela boca, dentro do tubo, apontado para o lado de fora da sua casa, e é só felicidade. Só que quase nunca dá certo e venta ao contrário. Tô nessa vida para viver (e fazer besteira) e embrasei.

Voltei para pesquisa. Me disseram que fumar dentro no box do chuveiro com ele ligado, faz com que a fumaça não se espalhe. ?????????? Desculpa, gente, mas quem estiver lendo aqui e fazer isso, pare. Se for para fumar, fuma direito, conversa com os chapas, eles vão entender. Quer se molhar? Vai para cachoeira e se escabrita lá.

Outra dica que recebi era jogar desodorante sem perfume no ambiente. Parece que ele anula o cheiro. Só que eu não uso desodorante… (Ô LAURA, VOCÊ TAMBÉM COMPLICA NÉ). E não vou comprar um frasco para esse fim.

Parei a pesquisa e fui até a cozinha quando escuto do quarto do coroa:

"E aí? Tá doidona?"

Eu me viro lentamente tentando entender.

"Nossa, mas você é muito chincheira."

Ele sentiu e mais uma vez provamos a ineficácia do tubo de papel. Eu tento parecer confusa mas a gente fuma o fumo por um motivo né? E eu só consegui rir. Muito.

"Chincheira? Eu nem sei como se escreve isso…" (É, Laura, boa saída, negue tudo, diga que não fez nada).

"Eu também não mas isso não te desqualifica como chincheira."

"Chincheira?" (sua sonsa, dá para entender o que é).

"Era como se chamava essas pessoas nos anos 70, não se faça de besta."

"Então, pai, sabe o que é… bateu aquela ansiedade de ficar o tempo todo em casa e eu já ia comer e você sabe que eu tô querendo controlar isso."

"Ah então na larica pode?"

"Na verdade, eu precisava relaxar mesmo e eu fico bem suave e acabo esquecendo de comer. Tipo agora, eu ia buscar uma comida e já tinha esquecido por estar falando com você. Me distrai."

Voltei para meu quarto sorrindo, como se tivesse ganho uma batalha (o importante é acreditar). Continuo querendo saber como esconder o cheiro.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.