Ritos de passagem — amigdalite

Amigdalite não é uma infecção, é um rito de passagem. Lembro da minha irmã mais velha em sua adolescência contraindo amigdalites com uma frequência proporcional às noites passadas fora de casa. Era quase que uma confirmação de uma boa festa se no dia seguinte aparecessem pelo menos três com a doença. E eu, sempre boba, ansiava por esse momento.

Lembro da quase-primeira vez que tive. Era um dia de verão e eu estava com meus 16 anos. A dor na garganta e o sentimento de missão cumprida me inundava. Mas só era sapinho ou sei lá que nome minha mãe deu na época, desqualificando minha condição. Ainda não foi dessa vez, eu pensava.

Para quê essa angústia? Acho que em 2015 totalizei 10 amigdalites sendo uma delas provocadora de um abcesso que me levou a quase uma internação. Mas eu já estava longe de querer essa iniciação do mundo juvenil de festinhas, o mundo adulto já esboçava seu cínico sorriso para mim e eu precisava trabalhar. O médico me liberou da internação porque eu provei que minha garganta não estava totalmente fechada conseguindo engolir o remédio. Quero aproveitar esse momento para falar com a indústria farmacêutica que parece ter inventado esse remédio de propósito. Nunca vi um comprimido tão grande como aquele. Porque vocês fazem isso? Levei uns 20 minutos para conseguir engolir, e não ser internada, e saí de lá correndo para o escritório. Quem vive de freelancer sabe que você consegue ter tempo de trabalhar 30 horas por dia em 6 jobs simultaneamente mas ficar doente não é uma possibilidade.

Com o tempo, desenvolvi uma técnica de prever quando uma amigdalite se aproximava. Eu sentia o cheiro no ar antes mesmo da dor na garganta e as placas de pus se formarem. É um instinto selvagem e primordial. Meu corpo mudava, eram ciclos que se repetiam. Era só entender os sinais, ou checar o calendário: menstruação ou amigdalite? Complicava quando as duas vinham juntas.

Tive que começar a me tratar também, porque depois de tomar 7 vezes o mesmo antibiótico no ano, ele deixa de fazer efeito. E eu já coloco muita droga pra dentro do meu corpo com fins festivos, basta. Aprendi que alho cru é ótimo para imunidade e comendo um por dia, no terceiro você já está curado de qualquer male. Além daqueles conselhos de vó: se agasalhar, se manter hidratado etc.

Tive alguns amigos que fizeram a cirurgia para retirar as amígdalas, mas hoje a medicina não gosta tanto desse recurso. Parece que foi moda nos anos 70, porque existe toda uma geração de pessoas sem as queridas glândulas, que tiravam por precaução, antes mesmo da doença bater. Era entendido que amígdalas não serviam para nada. Hoje - ou pelo menos meu otorrinolaringologista - acredita que sim, elas sobreviveram até o momento na evolução humana por um propósito: impedir que as infecções entrem no seu corpo. E mantê-las é sagrado.

O truque é só não expô-las muito porque por mais inúmeras vezes que você tenha, a amigdalite não deixa de ser chata com o tempo. Na verdade, só se torna pior, ou o seu corpo vai envelhecendo mesmo e não combate tão bem. Já faz 1 ano que não fico doente graças ao alho cru e a diminuída em noitadas malucas. Que continue assim, não tenho mais idade para esse ritual.

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