O Veneno Cristalizado: Os perigos do açúcar em excesso para o cérebro.

A sacarose refinada, popularmente conhecida como açúcar, é uma substância comum na dieta dos brasileiros. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o consumo máximo de açúcar a ser consumido diariamente seria de 50 gramas por dia, sendo 25 gramas o ideal para uma dieta saudável. De acordo com dados da OMS, o brasileiro consome, em média, 75 gramas por dia, o triplo do valor saudável.

O consumo do açúcar muitas vezes se dá de forma oculta, onde a pessoa o ingere em alimentos industrializados sem ter conhecimento disso devido a não sentir o sabor doce. Ele se encontra dentre desde os alimentos mais artificiais, como salgadinhos e condimentos, até os mais inesperados, como pão e salame.

Mas afinal, o que leva o brasileiro a estar ingerindo tanto açúcar? Seria uma espécie de dependência biológica, ou o motivo estaria ligado a razões culturais?

O açúcar e a dependência

O corpo humano é um organismo complexo. Para incentivar os bons hábitos, o próprio corpo incentiva a pessoa a tomar atitudes que assegurem o bom funcionamento do organismo, num processo conhecido como mecanismo de recompensa. Esse processo ocorre devido à liberação de neurotransmissores responsáveis pelo controle do humor e estimulação, como a dopamina e a serotonina.

Dessa forma, atitudes como comer ou ter relações sexuais costumam ser bastante prazerosas, pois é a forma do cérebro dizer ao corpo que aquilo é algo importante para a sua sobrevivência. Seguindo essa linha de pensamento, logo pode-se chegar ao questionamento: Por que alimentos que fazem mal e contém muito açúcar são tão prazerosos de se comer?

Segundo Jordan Gaines Lewis, neurocientista e estudiosa dos efeitos do açúcar no cérebro humano, essa seria uma questão biológica e ancestral. Ela afirma:

“A maioria de nós prefere o doce ao amargo e azedo porque, evolutivamente, nossa via mesolímbica reforça que alimentos doces proveem uma fonte saudável de carboidratos para nossos corpos. Quando nossos ancestrais procuravam por frutas, por exemplo, o sabor azedo significava “não está maduro!”, enquanto o amargo significava “cuidado — veneno!” (LEWIS, 2015)

Com base nisso, é possível entender que a sacarose refinada “engana” o cérebro, fazendo com que o corpo sinta prazer enquanto na verdade está ingerindo algo prejudicial à saúde.

Segundo a neurocirurgiã Nicole Avena em How Sugar Affects the Brain, quando um novo alimento é ingerido, os níveis de dopamina no organismo sobem, pois é uma forma do mecanismo de recompensa incentivar o corpo a comer coisas novas. Esse incentivo se dá para que se aumentem as chances do ser humano de obter todos os nutrientes que necessita para a sua dieta, além de ajudar a prevenir contra alimentos estragados.

Da mesma forma, quando um mesmo alimento é consumido repetidas vezes diariamente, os níveis de dopamina no cérebro vão subir cada vez menos, até eventualmente desaparecerem. Isso faz com que as pessoas pensem que enjoaram do alimento, desestimulando o seu consumo.

Porém, esse efeito não acontece com o consumo do açúcar. Se consumido em doses pequenas, a resposta do organismo é similar à de uma dieta normal, mas, se ingerido em excesso, os níveis de dopamina com o seu consumo não diminuem, fazendo com que o corpo seja estimulado a continuar ingerindo açúcar.

Dessa forma, é possível encontrar uma semelhança entre a sacarose e a droga, causando dependência naqueles que as consomem em excesso, e abstinência em sua ausência. William Dufty, em Sugar Blues (1975), afirmou:

A heroína era nada mais que um produto químico. Eles pegam o suco da papoula e refinam em ópio, depois em morfina e, finalmente, em heroína. O açúcar não é nada mais que um produto químico. Eles pegam o suco da cana ou da beterraba, refinam em melado, depois em açúcar mascavo e finalmente em estranhos cristais brancos.”(DUFTY, 1975)

O açúcar no cotidiano brasileiro

Mesmo com todos os malefícios causados pelo organismo sendo expostos em diversas obras e campanhas sociais, o açúcar continua presente em peso na dieta alimentar do brasileiro.

A alta ingestão do mesmo pode ser relacionada à grande popularidade do fast-food no Brasil. Isso se dá, dentre outros fatores, devido à falta de tempo no cotidiano. Com uma rotina cada vez mais puxada, o trabalhador se vê obrigado a optar pela praticidade em troca do saudável, assim reservando cada vez menos tempo para atividades que melhorem a sua saúde, como a prática de exercícios físicos e o relaxamento.

Essa necessidade de cada vez mais tempo para produzir e menos tempo para si ocorre devido ao Brasil adotar um padrão de vida americano, onde impera a ideologia capitalista. Segundo HARVEY(2005), o principal foco de um capitalista é o lucro, e para maximizar os lucros, o capitalismo promove a exploração da classe operária, enriquecendo empresários e formando assim a desigualdade social.

Conforme foi mostrado previamente, o açúcar causa dependência quando consumido em excesso e faz com que o corpo queira ingerir mais daquele alimento. Com base nisso, pode-se afirmar que a adição de açúcares em alimentos industrializados é uma prática com fins capitalistas, pois fará com que as pessoas queiram consumir mais do produto, gerando lucro às indústrias.

Susana Inez Bleil, em seu artigo O Padrão Alimentar Ocidental, fala da realidade brasileira, em que os alimentos naturalizados brasileiros estão pouco a pouco sendo substituídos por produtos industrializados e pelo fast-food. Ela afirma:

“O hábito de consumir produtos cada vez mais industrializados é uma marca da modernidade. É uma tendência mundial. Faz parte do fenômeno da globalização. Porém, percebe-se que os produtos industrializados têm no Brasil uma facilidade maior para conquistarem espaço. A cultura da quantidade e não do sabor, a ausência de uma tradição ligada à gastronomia, que aqui é vista como um luxo, e não uma arte, como a música ou a pintura, favorecem a introdução de novos produtos que têm status, principalmente junto aos mais jovens.” (BLEIL, 1998)

Com isso, tem-se que o crescente aumento do açúcar na dieta alimentar do brasileiro está também incluso em uma tendência mundial causada pela globalização.

Conclusão

Com esse estudo, pode-se concluir que o motivo pelo qual o brasileiro está ingerindo tanto açúcar está ligado ao capitalismo. A prática das indústrias de adicionar açúcar em seus produtos detém grande parte da responsabilidade sobre o problema, pois fazendo isso torna os consumidores mais propensos a consumirem mais açúcar, devido à ingestão excessiva do mesmo aumentar a tolerância à sacarose.

Os efeitos do açúcar no cérebro são devastadores, e a similaridade do mesmo com as drogas é alta. Para quem o consome em excesso, o risco de se tornar dependente é alto. Devido a isso, é necessário que a população esteja mais informada acerca dos malefícios da sacarose.

É importante também que os pais prestem atenção no que dão de alimento para seus filhos, pois alimentá-los demais com substância que pode ser comparada a uma droga é algo catastrófico, correndo sérios riscos de transformar o jovem num futuro viciado em açúcar. Além disso, não se podem deixar de lado os riscos de obesidade e diabetes.

Por fim, é valido lembrar que o açúcar não é o único vilão. Se consumido com moderação, o açúcar pode, e até deve, fazer parte de uma dieta balanceada natural. Infelizmente, essa é uma regulação difícil de ser feita porque exige que sejam consumidos, em maior parte, alimentos naturais em casa, realidade inviável de ser alcançada para todos num mundo globalizado e capitalista. Com isso em mente, a melhor solução possível é a conscientização: reduzir ao máximo o consumo desse “veneno cristalizado”.

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