Relatório de aula: FOUCAULT

25/01/2017 — Aula 1

Pouco antes do início do segundo bloco, o professor Colling citou na sala Frantz Fanon, psiquiatra francês de ascendência africana. Houve uma breve discussão sobre alguns conceitos abordados em sua obra, como a relação do medo por parte da mulher branca para com o homem negro. Segundo Fanon, devido à representação hiperssexualizada do homem negro na sociedade, podendo ser comparado a um “animal no cio”, a mulher branca se entende como uma suposta parceira sexual para ele, e isso incitaria o medo do estupro. Sendo assim, o professor questionou se o mesmo medo sentido por parte do homem branco sobre o negro seria o caso de um suposto homossexual recalcado.

Em seguida, abrindo finalmente o bloco, o professor Colling apresentou características gerais da obra de Foucault, como o seu o estudo das heterotopias, o biopoder e a interdisciplinariedade do autor como filósofo, historiador e cartógrafo. A ideia dos indivíduos como “normal” e “anormal” também foi apresentada. Para isso, o professor levantou a discussão sobre “o que pode um anormal?”. Em um mundo onde o normal sempre julga o anormal, Foucault mostrou interesse no inverso: “O que o anormal tem a dizer sobre o normal?”

Após isso, para se aprofundar na obra, o professor Colling apresentou o conceito de poder em Foucault. O autor explica o poder como uma prática social que é exercida nas relações humanas. Apesar de geralmente associado ao Estado, o mesmo não é o detentor de todo o poder. Foucault acredita que o poder se encontra em formas fragmentadas como a relação familiar ou a relação entre patrão e empregado.

Esse poder é o que define o que consiste a normalidade, pois, através dele, aquele que detém o poder o exercerá para vigiar se aquilo que é considerado “normal” está sendo cumprido. Para representar melhor essa ideia, o professor Colling citou a vigilância em presídios, onde o preso deve tentar seguir a normalidade devido ao medo de sofrer punição, e fez uma comparação com relação a vigilância de crianças “masturbadoras”. O poder exercido pelo Estado, ou pela família, faz com que aquele a quem é submetido tema por um castigo e siga as regras do que é ser “normal”. Assim, apresentando o poder como fragmentado, Foucault mostra que destruir ou controlar o Estado não garantiria a transformação da rede de poderes que impera na sociedade.

Para Foucault, o que interessa no poder é a capacidade de “… gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades.” Sendo assim, o poder disciplinador age como uma forma de “tornar o homem útil e dócil”, controlando o seu tempo e colocando o homem sob vigilância.

Por fim, o professor Colling falou da ideia de confissão em Foucault, e o motivo dele não concordar com a psicanálise. Para ele, o uso da confissão na psicanálise seria uma espécie de resgate da inquisição promovida pela igreja durante a idade média. Foucault acreditava que a confissão era algo que não deveria nem contaminar o padre nem ensinar mais para o confessando.

No fim da aula, o professor Colling apresentou as quatro operações de poder da repressão da sexualidade por Foucault:

1. Dispositivos de vigilância;

2. Criação de identidades ou espécies;

3. Prazer em poder que questiona e investiga e prazer que se abrasa por ter que escapar a esse poder;

4. Dispositivos de saturação sexual.

Foucault acreditava que a separação de gêneros em homossexual e heterossexual era só mais um meio de aplicar o poder com a finalidade de controlar o indivíduo, tornando um como o normal e o outro o anormal.

Considerações pessoais

Essa aula teve como elementos centrais dois pontos importantes em Foucault: A negação da homossexualidade repressiva e a adoção do método da confissão na psicanálise. Eu particularmente achei genial a sacada que Foucault teve ao comparar a psicanálise com a confissão da idade média, foi algo que nunca passou pela minha cabeça em nenhum momento em que eu estudava sobre Freud. A questão da heteronormatividade também é muito relevante para os dias atuais. É possível observar que na nossa sociedade a ideologia de gênero já existe desde às bases, só que de forma errada e arcaica. Crianças são divididas, em casa e nas escolas, em menino e menina, e dessa forma tem o seu brinquedo específico, o seu espaço específico, com conteúdos diferentes para cada um. Esse binarismo não contribui para a igualdade de gênero, e faz com que o “anormal” seja prejudicado e até mal visto pela sociedade.

Por fim, gostei bastante da música que foi passada ao fim da aula. Não Recomendado, por Caio Prado. O autor, que pode ser visto como um anormal na sociedade, é alguém que eu nunca havia visto antes dessa aula. O mero fato dele não ser muito trabalhado pela mídia já prova o ponto da letra da música dele. O anormal é alguém “não recomendado para a sociedade”. Considero importante que os espaços acadêmicos continuem dando visibilidade para artistas assim. É necessário dar o local de fala para o anormal.

01/02/2017 — Aula 2

Não pude comparecer a essa aula.

08/02/2017 — Aula 3

Essa aula teve como tema principal o conceito de biopoder e a necropolítica. Foucault afirma que biopoder é o poder sobre a vida. Através dele, vão formando-se disciplinas sobre o corpo para que ele tenha maior produtividade, como o controle sobre o que o indivíduo deve comer ou como deve dormir para aumentar sua produtividade. Com base nisso, é notável que o biopoder é mais uma forma de controle para favorecer o sistema capitalista.

Foucault afirma que o biopoder foi centrado em dois pólos, sendo o primeiro à partir do século XVII e segundo durante metade do séxulo XVIII. O primeiro consistia na ideia do corpo como máquina: adestramento, ampliação das suas aptidões e extorsão de suas forças. Já o outro aborda as regulações da população: as condições para variar os nascimentos, a duração da vida, a mortalidade, técnicas para obter a sujeição dos corpos e os controles da população.

Ao longo da aula, o professor Colling falou também sobre o uso do poder pelo Estado em prol da saúde pública, e exemplificou falando da campanha da sífilis onde prostitutas foram atacadas, e o homem como um bom “normal” não sofreu nada. Isso só ilustra mais uma vez o quão desigual é a sociedade brasileira, que sempre privilegia o homem hétero cis branco e marginaliza o oposto.

Como colocado pelo professor Colling, Foucault entende que com o biopoder passamos de um período em que o poder soberano “fazia morrer e deixava viver” para um poder de regulamentação que consiste, ao contrário, “em fazer viver e deixar morrer”. Sendo assim, a ritualização da morte, que antes auxiliava na consolidação da normalidade, foi se tornando menos presente na sociedade.

Assim, devido ao biopoder gerar tanto a vida quanto a morte, Foucault observa a intervenção do racismo, com a função de fragmentar e de permitir a relação positiva com a morte do outro, pois o outro de raça “anormal” seria alguém diferente do indivíduo e, portanto, uma morte mais aceitável. Em sua obra, Foucault amplia a visão do racismo, e mostra que os sanatórios seriam racistas, porque estariam retirando da sociedade os anormais e deixando apenas os normais. Essa eugenia foi, segundo ele, a reinvenção do racismo no ocidente, pois traria a ideia de que a morte do anormal melhoraria a espécie.

A prisão de Eike Batista, que ocorreu pela época dessa aula, também foi comentada. O professor Colling fez uma relação entre um preso por roubar uma galinha e o preso Eike. Aquele que rouba uma galinha, possivelmente sob o risco de morrer de fome, será severamente punido pelo Estado e após isso terá dificuldades em ser ressocializado. Já o Eike pode cumprir sua pena e depois ainda continuar sendo rico. Houve uma discussão e alguns alunos até comentaram a possibilidade do Eike receber privilégios na prisão em troca de, ao sair, dar um retorno financeiro a aqueles que o ajudaram. Enquanto isso, a mídia tentava colocar Batista como alguém sofrendo um destino cruel e que precisava ser protegido, pois o presídio onde iria ficar tinha condições subumanas. Esse é um exemplo que mostra que, no Brasil, “dois pesos equivalem a duas medidas”.

A barbárie atual também foi comentada em seguida. O professor Colling comentou sobre discursos que “flertavam” com motivações fascistas para tirar a presidente Dilma durante a época do golpe. Ele afirmou que no passado era comum as pessoas terem vergonha de assumir uma postura homofóbica, e no presente algumas pessoas sentem até orgulho.

O filme A Onda também foi citado, que fala sobre um professor que conseguiu reproduzir em sua turma da sala de aula uma simulação do que seria o fascismo totalitário. Várias outras sugestões de filmes surgiram, o que demonstra a atualidade da questão e a necessidade do debate.

Por fim, após comentar de um post na internet de cunho machista contra a mulher de Temer, o professor Colling retomou falando sobre necropolítica citando Achille Mbembe. A necropolítica para ele seria o uso do poder sobre a morte para fins de controle. Três momentos são cruciais para explicar esse fato, sendo eles a escravidão, o Apartheid e a Palestina.

A escravidão foi a primeira manifestação da experimentação biopolítica e mostrou o uso do controle do corpo. Os escravos eram vistos como mercadoria viva, sendo cortada qualquer relação de humanidade ou empatia para com eles, demonstrando o sucesso do biopoder.

Para falar do Apartheid, o professor Colling fez um relato pessoal sobre uma viagem sua à Cidade do Cabo. Os principais pontos do relato foram: todos os brancos que eram vistos a pé eram turistas; Todos os casais heterossexuais eram compostos por ambos pertencentes à mesma raça; Os taxistas não falavam com gente branca, alegando que eram ensinados assim desde criança para sua própria proteção.

Por fim, para falar da Palestina, foi dado um relato de Berenice Bento que tinha como intenção desconstruir a ideia que Israel tenta passar sobre o conflito com a Palestina. Em seu relato, Berenice contou sobre as dificuldades de se transitar de um local a outro devido à burocracia. Ela teve que mentir sobre suas origens e suas intenções, e esconder qualquer tipo de coisa que fosse considerada suspeita.

A Palestina demonstra a forma mais redonda de necropoder. Violência e soberania fundamentadas em causas religiosas, sendo disciplinar, biopolitico e necropolitico ao mesmo tempo. Apesar disso, ironicamente, a mídia brasileira fala pouco sobre o genocídio cometido lá.

Considerações pessoais

Achei o conteúdo dessa aula muito interessante. Desde pequenos nós estudamos história e podemos ver as atrocidades cometidas ao longo da história da humanidade, e agora ao estudar Foucault é possível resignificar alguns conceitos, como a ideia do poder sobre a vida e a morte do outro como forma de controle. O Brasil sofreu uma amostra disso em um passado não tão distante com a escravidão, e o fato de ter sido um dos últimos países a abolir a escravidão diz muito sobre a sociedade, afinal, o estado escravocrata produz necropolítica.

As discussões e os relatos apresentados em sala foram muito construtivos também. Eu não sabia que a Cidade do Cabo ainda era tão dividida ainda nos tempos atuais, e a forma como preto e branco são diferentes lá é chocante. Além disso, o relato da Berenice sobre a Palestina me fez ter uma visão muito diferente do evento, tendo em mente que não é algo muito comentado aqui no Brasil. Aula muito interessante.

15/02/2017 — Aula 4

A última aula do bloco contou com a presença de um convidado, Ramon Fontes, que fez para a turma um relato da sua história de vida e contou sobre o seu trabalho no mestrado

Antes disso, porém, o professor Colling encerrou as discussões sobre Foucault falando da questão do “cuidado de si”. Existe um conflito entre o “cuidar de si” e o “renunciar a si”. Durante a vida, o indivíduo é obrigado a viver em um ambiente onde muitas vezes não o agrada, como o ambiente familiar. A obrigatoriedade dos laços familiares é uma etapa da vida. Foucault afirma que em um período seguinte, o indivíduo precisa partir do “cuidar de si” e renunciar a si para conseguir agradar a sociedade ou alguém.

Algumas pessoas na busca pelo cuidar de si acabam por recorrer a livros de auto-ajuda, o que não é o ideal, porque essas obras na maioria das vezes tem uma lógica individualista e narcisista, que busca apenas alimentar o sistema capitalista.

Em sequência, o professor Colling afirmou que a pergunta para ir contra a singularidade e formar sua subjetividade não seria “Quem eu sou?”, mas sim “Quem eu posso me tornar amanhã?”

Em dado momento, um grupo de alunos pediu licença para entrar na sala e falar sobre a necessidade de buscar a identidade do BI, coincidentemente no momento em que estava acontecendo em sala uma discussão sobre o conceito de identidade em Foucault.

No dia dessa aula, as redes sociais estavam muito agitadas discutindo sobre o caso da menina com câncer que foi acusada de apropriação cultural sobre usar turbante. O professor Colling trouxe essa discussão para a sala, e os alunos realizaram um debate com pontos de vista diversos. Uma garota inclusive deu um depoimento pessoal, alegando que sempre se considerou negra e usava turbante e cachos desde pequena, mas que desde que veio morar em Salvador se sente impedida de usar o que quer devido à pressão social das pessoas. Esse depoimento enriqueceu o debate e abriu o questionamento: O que pode ditar quem é negro ou não? Apenas a pigmentação de sua pele?

O professor Colling em seguida deu também um depoimento pessoal. Ele afirmou que as pessoas o tratam como um doutor só por ele se vestir todo de branco, e as vezes até perguntam se ele vai jogar golfe ou outra coisa. Nenhuma delas o interpreta como alguém do Candomblé. Porém, quando um negro se veste assim, é taxado como macumbeiro e estigmatizado.

Esse debate sobre aparências levou o professor Colling a citar Bauman e a sociedade do espetáculo. Na modernidade líquida, “você é o que você parece.”

Para encerrar a discussão sobre Foucault, o professor comentou que, em sua opinião, o diferencial de Foucault, o que faz ele ser o que é, é que se trata de um homossexual falando sobre a história da sexualidade, porque até então só heterossexuais haviam falado sobre isso. Isso é o que pode ocorrer quando é dado ao anormal o poder de falar sobre si, em vez de deixar que apenas os normais os julguem.

Após isso, para encerrar a aula, a palavra foi dada à Ramon, orientando do professor Colling em sua tese de mestrado envolvendo psicanálise. Ramon fez um relato sobre o seu passado e as suas experiências de vida como homossexual.

Considerações pessoais

Em minha opinião foi uma das melhores aulas do bloco por ter sido enriquecida com depoimentos pessoais de vivência e discussões sobre temas atuais. O relato do convidado Ramon foi bem forte, e levantou a reflexão sobre o que a vítima que sofreu um abuso tem a dizer sobre aquilo. Talvez o simples fato de escrever sobre si já tenha um papel terapêutico. O relato do professor Colling foi interessante também e leva a pensar sobre como a sociedade é movida com base nas aparências, sendo às vezes mais importante para os outros o que você parece do que o que você realmente é.

Por fim, o bloco sobre Foucault foi muito enriquecedor, e tornou possível uma maior compreensão sobre o poder e as formas de controle do indivíduo pela sociedade.

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