Eu preciso te ter, mozão.

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Jan 18, 2017 · 2 min read

No mundo de aparências, de tanta liquidez (Bauman que o diga), me deparo com uma verdade crua e feia: é uma empreitada atribulada achar pessoas verdadeiras.

Talvez eu esteja sendo dramática demais, ou até mesmo hipócrita. Talvez o meu conceito de verdadeiro não se encaixe muito bem nos dias de hoje. É um conceito que de nenhuma forma tem conexão com as curtidas das fotos do Instagram, ou com o número de amigos do Facebook. Por sinal, não é um parâmetro que me agrada em nenhum sentido. Já presenciei amizades, de longa data, esfriarem devido a minha falta de empenho em manter meu marketing pessoal assíduo nas redes sociais (ironia ou não, coincidentemente, sou formada em Marketing), um must have inegável nos dias de hoje, especialmente para a minha geração.

O âmago do sentido da palavra “verdadeiro” que tento expressar nesse texto está manifesto na capacidade que determinado indivíduo tem de despertar algum tipo de interesse pelas suas opiniões, e não pelas belas imagens que constituem o seu Instagram, a última citação da Clarice Lispector postada em seu Facebook ou o meme engraçado do momento compartilhado no Twitter.

É uma incansável busca por atenção, que a Paula Sibilia de uma forma genialmente obvia cunhou de “o show do eu” (busque na livraria, vale a leitura). De fato, o mundo nunca produziu tantos “shows do eu” como agora, mas poucos que genuinamente despertem, e mereçam, o nosso interesse.

Não pense que sou ingênua (a esse ponto). Como mencionei anteriormente, sou formada em Marketing e tive alguma experiência profissional no mundo digital, mais especificamente, nas mídias digitais. Tenho uma tímida noção de como a tecnologia está transformando o mundo e a maneira como enxergamos, seja para o bem ou para o mal, todas as esferas que nos atingem: econômica, politica, social e principalmente, cultural.

Por falar em cultura, a indústria cultural nunca esteve produzindo tanto como está agora. É uma avalanche de conteúdo fugaz sendo produzido por segundo, impulsionado por diversas plataformas que permitem a criação e o compartilhamento desses conteúdos, que deixaria Adorno de cabelo em pé. Mas quando nos deparamos com efemeridades como McMelody, canais de youtube como ViihTube e músicas que tem como título “meu pau te ama”, é impossível de não se questionar se o nosso filtro se tornou inversamente proporcional a evolução da tecnologia. Qual é a porcentagem de conteúdo que de fato tem relevância? O que pode ser considerado como relevante? Quais são os valores que estão sendo moldados e transmitidos para essa geração e as próximas que estão por vir? E, afinal de contas, somos causa ou consequência daquilo que produzimos como sociedade?

Enquanto não acharmos um parâmetro (talvez uma forma mais delicada de dizer “bom senso”) para nos ajudar a catalogar e selecionar do turbilhão de conteúdo que a tecnologia está nos entregando, aquilo que de fato consideramos legível como cultura, e que, automaticamente, representará o nosso legado como geração, continuaremos, ao som de MC G15, a declarar em alto e bom tom a necessidade de afirmar que o nosso fechamento, é você, mozão.