Dois jornalismos, um mesmo Código de Ética

Esse texto é na verdade um exercício para a cadeira de Ética e Deontologia. Gostei muito dele, haha, mas não sei se o professor aceitará. O contexto é o Código de Ética dos Jornalistas. Segue:

Entrevista entre dois jornalistas, ambos com anos de profissão, mas com trabalhos diferentes. Um baseado no Código, que chamarei de Livre e o outro, Condicionada, como se o mesmo fosse facultativo. É bom lembrar que ambos não acreditam numa mídia imparcial e que essa entrevista é altamente tendenciosa.

Condicionada: Já no início do nosso código de ética nos é dito que a informação é um direito fundamental e não deve ser impedido. Como ser uma mídia de sucesso sem ir contra isso?

Livre: Acredito que dependa do viés do próprio jornalista, não necessariamente do veículo, porque sim, eles vão de encontro ao lucro e não dá ética.

Livre: Dentro do nosso código de ética há um artigo que diz o seguinte “ O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação.”. Levando isso em consideração, como você defenderia o fato da mídia brasileira ser altamente parcial e influenciada por aqueles que a mantém?

Condicionada: A resposta reside um pouco na pergunta. Infelizmente o fator financeiro é muito forte, até por que sem ele não é possível haver jornalismo. Não sejamos utópicos, ainda. Sabemos que não é possível. O dinheiro é um argumento muito forte sim, até por que nenhum de nós, formados, queremos passar tanto tempo numa graduação para depois receber um salário mínimo. Claro que não devemos nos vender, mas precisamos de certo modo e isso vai de cada um, afinal, qual o preço? Sim, há aqueles que nem precisam se vender pois já tem como regra aquilo que é imposto pela sua empresa, é algo que vai de acordo com a moral do jornalista.

Livre: Então acreditas que o fato meramente econômico, importante claro, é o bastante para ir contra o código de ética, ludibriando a população?

Condicionada: Essa pergunta é tendenciosa (risos). Você enquanto comunicador, ainda que de uma mídia alternativa, sabe muito bem que não é tão simples se desvencilhar disso. Disso que eu digo é o fazer com Ética sua função sem passar fome. Tendenciosa também por que a mídia dita livre não é completamente distante de uma mídia consolidada nesse sentido, sem generalizar. Digo isso usando como exemplo a Mídia Ninja. Não quero me prolongar nesse ponto, mas sabemos que toda e qualquer mídia é financiada por alguém. Se ao seu ver, sendo altamente pessoal, quem financia é positivo, você acaba achando aquela mídia válida.

Condicionada: É nosso dever resguardar o sigilo da fonte. Como você agiria se soubesse de algo muito grande e que oferecesse riscos a população se em segredo?

Livre: Isso é um ponto complicado. Como você, acredito que o jornalismo está diretamente ligado, obviamente, ao ver do jornalista. Primeiro, como julgar o que é certo ou errado? Estamos falando de algo de comoção e opinião pública ou ligado ao pessoal? Dentro do nosso código a informação é essa, mas sabemos o quão ambígua as coisas são em se tratando de fazer jornalismo. Para não deixar isso sem resposta, diria que se for algo de perigoso, humana e diretamente, acho válido que seja exposto.

Condicionada: Como colocar em prática os deveres do jornalista, como não controlar a informação e colocar a corrupção em pauta se grande parte dos donos das concessões são políticos ligados à corrupção?

Livre: Criar um pseudônimo? (risos).

Condicionada: Dentro do “não poder” do jornalista há diversos pontos que não são colocados em prática principalmente na televisão. A audiência é mais importante que a dignidade da população?

Livre: A briga por audiência é medíocre e isso que se faz, sensacionalismo, não é jornalismo e nem deve ser tratado como. É puro entretenimento carniceiro e desumano. Me revira o estômago e me entristece. Primeiro porque temos sim uma população ignorante e segundo por que se aproveitam disso pra naturalizar violências e disseminar discursos de ódio. Esse tipo de trabalho mais me lembra uma novela de muito mau gosto.

Livre: Uma parte do código é bem pontual e sempre levanta polêmica: “permitir o exercício da profissão por pessoas não habilitadas” o que você pensa sobre?

Condicionada: Eu discordo, em primeiro olhar, mas vamos lá. Quando se diz permitir o exercício da profissão é a ideia puramente do informar, que eu acredito que pode sim ser feita por qualquer um, ou ser jornalista? Porquê a segunda só deve ser feita por jornalistas formados. (palavrão) pensemos: um cidadão qualquer consegue identificar o peso de uma informação igual uma pessoa que estudou anos e tem propriedade? Não. Me entristece esse ponto. Dou um exemplo do por que de minha opinião: feed do Facebook, que é cheio de informações falsas que não são checadas e sensacionalismo. Imagina um deles sendo o William Bonner? (risos). Apesar que…

Condicionada: Dentro do jornalismo que é feito hoje no brasil, é correto afirmar que o jornalismo é publicidade, mas publicidade não é jornalismo?

Livre: Essa frase é ótima e está correta. Jornal é anúncio, é investimento, financiamento e tendências, tristemente. Nossos colegas publicitários que nos perdoem, mas tem muito de nós neles, mas não o contrário.

Livre: Concluindo. O artigo 14 diz: O jornalista não deve: I — acumular funções jornalísticas ou obrigar outro profissional a fazê-lo, quando isso implicar substituição ou supressão de cargos na mesma empresa. Quando, por razões justificadas, vier a exercer mais de uma função na mesma empresa, o jornalista deve receber a remuneração correspondente ao trabalho extra. Levando em consideração o “novo jornalismo”, em que chegamos a ser de jornalista, social media, produtor e até designer, como se colocar dentro dos seus direitos mantendo o emprego, ainda mais com o “plus” da crise?

Condicionada: Deixaram o mais difícil pro final (risos). Nem entramos dentro da questão da crise jornalística, até agora, mas ela está aí e todos sabemos e sentimos. Afora isso ainda temos a crise brasileira, e então “boom”! Milhares de nós na rua e você acaba se condicionando a coisas para não perder seu emprego, seu sustento. Sabemos também que nenhum código se faz lei e cajado, logo cada um toma pra si aquilo que acha que deve, nisso voltamos ao que foi dito antes, que cada jornalista tem seu norte e o certo ou errado. É isso.

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