Merdas acontecem

Meu blog nunca foi um blog materno, sempre um diário pessoal, mas quando a Carol era menor eu não escapei de escrever sobre ela e, consequentemente, de participar de alguns programas/eventos para “mamães blogueiras”.

Na verdade fui até convidada uma vez para falar sobre isso em um programa de TV. Carol até foi comigo — não, não guardei nenhum vídeo deste momento terrível.

A ideia do programa era falar sobre segurança infantil e tudo estava bem até a Silvia Popovic me perguntar sobre um acidente que a Carol havia sofrido na escola.

Ela caiu enquanto corria, bateu a cabeça em um degrau e acabou no hospital levando 5 pontos. A experiência aparentemente não foi nada traumática porque ela quis voltar para escola para poder mostrar a todos sua radiografia do “cebrero”.

Mal eu havia terminado minha história e Silvia se revoltou “como pode isso acontecer com uma criança na escola?”, “ não tinha ninguém olhando para ela?”, “por que a deixaram correr perto de uma escada?”.

Minha reação natural, uma demonstração clara de que eu não sirvo para isso mesmo, foi dizer simplesmente: eles são muitos, eu nem faço ideia de como elas conseguem sobreviver todos os dias.

Porque eu não sei vocês, mas com uma só eu já tive dias de duvidar que anjos da guarda não existem. Carol ainda não andava, na verdade nem engatinhava, apenas se arrastava com o bumbum pela casa, e ela conseguiu deixar seu “tapete multisensorial”, abrir a gaveta da estante da sala e estava escalando a TV — de tubo, graças a Deus — quando eu a peguei no pulo e eu só tinha ido até a cozinha colocar a sopa para esquentar.

Imagine um grupo deles, correndo, gritando, extremamente curiosos?

Corta para uma Carol de 10/11 anos, as coisas ficam mais seguras, certo? Hum, talvez não.

Num chuvoso feriado de finados, como era de se esperar, estávamos na casa de meus pais no litoral norte. Carol entra na sala e chega perto de mim rindo loucamente e contando que ela havia caído enquanto corria.

Eu ri também, até ver a quantidade de sangue que descia pela sua perna, subir sua saia e dar de cara com a mais assustadora cena de minha vida de mãe: um corte que cobria quase que sua coxa toda. Profundo.

Corremos ao pronto socorro e Carol aguentou como uma heroína 15 pontos em sua coxa enquanto segurava forte em minhas mãos.

Abre parenteses: Nada de cara de mãe calma nesta hora, pelo contrário fiquei bem assustada e ela viu isso. Quando, na semana seguinte, contei este episódio para minha psicanalista me sentia culpada, afinal mães devem se manter poços de conforto e calma o tempo todo. Fui inocentada, segundo esta, é importante quando a coisa é grave demonstrarmos isso para a criança, não somente para que ela percebe nossa preocupação com ela, mas que o susto faça com que ela aceite melhor o necessário, que no caso da Carol foram 15 pontos na coxa, os dois últimos já sem anestesia. Fecha parenteses.

De volta para casa fomos entender o ocorrido: ela e seus dois primos resolveram correr na casa do vizinho — condomínio fechado, nada de portões ou muros — e ela escorregou em uma pedra justamente onde outra estava quebrada e acabou por cortá-la.

Pela filosofia atual da internet imagino que eu devesse ter feito uma inspeção geral do condomínio eliminando todo e qualquer chance dela se machucar. Ou me manter de olhos abertos o tempo todo, a seguindo enquanto ela corria por aí. Ou, ainda, não deixá-la correr.

A verdade é que, para filhos, mães, pais, avós, pessoas solteiras: Merdas acontecem! Sim, devemos ter cuidados básicos, devemos usar cinto de segurança, quem sabe evitar as tais Crocs nas escadas rolantes, mas, lembrem-se: acidentes acontecem.

Uma resposta minha a este ótimo artigo aqui https://medium.com/@honeystaysuper/hey-america-do-accidents-happen-anymore-especially-when-a-kid-is-involved-70b0971e5656#.79m6d6fji é essa: sim, acidentes acontecem.

E, se eles acontecem e sofremos com ele, também é preciso lembrar que eles não são culpa de ninguém.

Relações acabam sem que nenhum dos dois no casal seja um vilão traidor malvado. Amizades deixam de ser o que eram. Empregos são perdidos e isso não significa que você seja um péssimo profissional. Corações são partidos, pessoas falam coisas que não queriam dizer de verdade.

A imagem deste texto é do episódio Trigger Happy de Grey’s Anatomy e ela acontece quase ao final, quando Amelia tenta dar algum conforto a um menino que sem querer atirou em seu melhor amigo, que não poderá andar novamente.

Os pais donos da arma, pais do menino que acaba paraplégico, dizem que a arma estava em um quarto, em um armário fechado. Amelia responde a eles que crianças observam, crianças aprendem.

Maggie, outra personagem, quase leva a babá a loucura perguntando como ela poderia ter deixado os meninos sozinhos e a babá encontra uma sanidade que eu não sei se eu teria para responder que eles tem 8 anos, não são mais tão pequenos, que eles ficam sim sozinhos as vezes e que o acidente não é culpa dela. E não é.

E, ainda que meu lado totalmente anti-armas fique tentado, nem ao menos é culpa dos pais que, pelo que vimos, tomaram várias medidas de segurança para evitar que a arma caísse nas mãos dos filhos — não sei se poderiam ter deixada travada, não sei se a trava é fácil de ser retirada, se poderiam ter deixado sem balas, se é fácil carregá-la, no caso de armas eu prefiro me manter a distância e tenho interesse zero no assunto.

Não foi culpa de ninguém e aquele menino já vai ter sua própria dose de infelicidade quando olhar para trás e lembrar que atirou em seu melhor amigo — vejam que eu falo como se ele não fosse somente um personagem, tenho essa tendência, sorry — mesmo que ele lembre-se de repetir o que Amelia pediu que ele repetisse.

Ainda assim, vou fazer um apelo a todos: lembrem-se dessa frase, lembrem-se de falar para si mesmos que não foi culpa de ninguém ou que você não teve a intenção quando um acidente acontecer em sua vida, seja ele de qualquer natureza.

Já nos cobramos bastante sem ajuda dos sabidos da internet, com eles então, precisamos mais ainda disso.

Na verdade, fale isso sempre que ver alguém que já teve uma experiência horrível e talvez tenha esquecido que acidentes acontecem. O mundo ficará um pouco melhor quando você o fizer.