Peso 65

Pode não parecer muito, mas eu tenho apenas 1,54 — segundo meu pai tenho horário e não altura — então o peso 65 significa que eu tenho sobrepeso, IMC Acima do Peso.

Eu já fui magra, nunca por muito tempo, duas ou três vezes. Fui um bebê de dobras na coxa, uma adolescente em Obesidade 1. Minha mãe assustou e me levou a um endocrinologista de sotaque espanhol — não lembro, mas era de algum outro país da América Latina — e de lá sai com uma receita de um remédio natural.

Três semanas depois minha mãe assistia ao Fantástico e descobriu que meu remédio natural tinha muito mais que ervas, tinha anfetaminas.

O peso perdido naquelas três semanas, bastante por sinal, foi plenamente recuperado no período seguinte depois que minha mãe jogou o que restava da fórmula privada abaixo.

Arrumei um namorado e emagreci de novo. Muito. Acho que foi a fase em que fui mais magra em minha vida, todos, inclusive eu, atribuíram a perda à felicidade. Na verdade eu estava em um relacionamento abusivo.

Não do tipo em que se apanha, mas daquele em que você se molda naquilo que o outro quer, faz tudo por aquela pessoa, se anula, deixa de viver. Deixar de comer foi um detalhe.

O namoro acabou e pouco tempo depois eu voltei a engordar.

O engraçado é que em minha mente aquele emagrecimento do namoro ainda era por felicidade, demorei mais de 15 anos para olhar para trás e realmente entender o que tinha acontecido. Como eu não entendia, achei que o fato de eu engordar de novo se devia a infelicidade.

Emagreceria anos depois, ao começar a frequentar uma psicanalista. Não emagreci tanto quanto antes, mas emagreci. Aprendi que muitas vezes descontava minhas frustrações e ansiedades na comida.

Casei, tive uma filha, deixei o emprego em tempo integral no escritório, aprendi a costura, arrumei uma cachorra. Em maio faço 40 anos.

Sou saudável, faço quase tudo a pé, passeio duas vezes por dia com a cachorra. Me alimento saudavelmente. Gosto de cozinhar e comer. Gosto de pães, queijos, chocolates e vinhos. Não gosto de comida pronta nem de comidas pesadas, dificilmente como algo frito.

Há algum tempo passei a encarar o ponteiro insistente nos 65 de minha balança como um problema, não importava o que eu fizesse a impressão era de que colocaram um prego que não o deixava sair daquela marca — dois pregos, um de cada lado.

E por que me incomodava com aquilo? Não sei ao certo, ou melhor, não sabia porque, afinal eu sempre fui aquela que defendeu que existem milhões de tipos de diferentes belezas, que usava os cabelos cacheados muito antes da onda do cabelo natural, que assumiu os cabelos brancos aos 33 anos.

Com certeza eu não me sentia incomodada com o fato de olhar para revistas, filmes e novelas e ver apenas garotas magras, muito magras. Eu não era mais uma menina influenciável que achasse ser necessário caber em um modelo para ser aceita — foram anos de terapia, depois de uma infância e adolescência bastante complicada no aspecto “aceitação”, confesso.

Porque, vejam vocês, eu só fui magra ou quando estava infeliz, ainda que sem saber, ou de regime.

Hoje estou bem, me gostando muito, aproveitando as pequenas felicidades, os pequenos prazeres. Por que então o fato de eu estar acima do peso deveria me incomodar tanto? Continuo cabendo nas roupas de que gosto tanto, me sinto bem em minhas saias rodadas e meus vestidos estilo anos 50 que mais gosto.

Me acho bonita.

Pois, vejam vocês, até mesmo alguém que acredita se aceitar pode sim ser influenciado pelo entorno, ainda que isso não aconteça de forma consciente, ainda que seja de forma sútil — fiquei um tanto mais aterrorizada do efeito do “modelo” em garotas mais novas que eu.

Provavelmente porque o tempo todo olhamos em volta e o padrão lhe diz que o certo é ser magra, de preferência muito magra.

Se 65 quilos é o peso que eu mantenho sem ter de sacrificar coisas que gosto e me mantendo em movimento sem me matar em uma academia que odeio, então 65 quilos é o meu peso ideal, falem os outros o que quiserem.

Mas foi preciso ouvir outra pessoa dizer isso para eu perceber que aquele meu pequeno incomodo ao me pesar ocasionalmente era desnecessário.

Foi preciso pensar tudo isso para eu descobrir que, então, essa sou eu e ao mesmo tempo não sou: sou baixinha, sou morena, sou risonha, tenho um insuportável bom humor matinal, adoro livros, sou viciada em TV, tenho três gatos e uma cachorra, escrevo dois blogs, costuro minhas roupas, cozinho muito bem e sou chata com organização, metódica, sistemática, falo alto, sou impaciente.

Prazer, Simone, 65 quilos.