A arte indígena não é coisa do passado

Muitas cidades brasileiras contam com um “museu do índio”, geralmente apresentando os povos indígenas como um elemento quase lendário da história brasileira. O contato com o homem branco, a escravidão e as guerras mataram todos. Ficaram para trás. A única maneira de lembrá-los é através dos registros dos museus, como acontece com civilizações que fazem parte de um passado distante.

A versão do “extermínio” não condiz com a realidade. Apesar de todo o histórico de exploração, existem mais de 300 etnias indígenas no Brasil atualmente, espalhadas por todas as regiões. E talvez porque a internet nos abriu a possibilidade de novas vozes ou de questionar versões únicas, de alguns anos pra cá existe uma crescente movimentação em torno da cultura dos povos tradicionais.

A estética indígena se tornou febre entre artistas e designers não-indígenas, mas na busca por essa valorização da origens do povo brasileiro, comumente estes são vistos apenas como objetos para estudo.

Esses povos estão vivos, e sua arte pertence à mais do que paredes de museus. Eles também são sujeitos de produção cultural, e estão registrando e expondo a sua realidade e seus universos. Se a visão estereotipada é a do indígena isolado, as iniciativas listadas aqui mostram como eles podem conhecer e se beneficiar do diálogo com o mundo através das mídias digitais.

1 — Rádio Yandê

Rádio Yandê/Divulgação

A primeira rádio web indígena brasileira foi criada por Anápuáka Tupinambá, Renata Tupinambá e Denilson Baniwa, com o objetivo de difundir a cultura de seus povos e desfazer preconceitos. Na programação da rádio, é possível ouvir artistas indígenas latinoamericanos de diversas etnias, e que abrangem vários estilos, como rap, forró e rock. De maneira autônoma, a rádio também transmite notícias, com correspondentes no Mato Grosso do Sul e Brasília, além de colaboradores espalhados pelo país.

2 — Cine Kurumin

Wordpress/Cine Kurumin

O Cine Kurumin realiza exibições de filmes sobre e feito por indígenas. Atualmente, está na sua 5ª edição, e conta também com oficinas de audiovisual e mídias digitais em aldeias. O projeto já realizou sessões nas aldeias Tupinambá, Pataxó, Pataxó hãhãhãe, Tumbalalá e Yawalapiti; também faz parte da rede do Espalha a Semente, cujas ações de formação multimídia e comunicação digital são feitas há dez anos com povos de 12 etnias.

3 — Loja Tucum

As artistas Karla e Yawapá Kamayurá na loja da Tucum em Santa Tereza (Foto: Helena Cooper)

A loja Tucum quer divulgar a arte indígena através de biojóias feitas por diversos povos, como Kayapós, Waimiri Atroaris, Tikuna, Guaranis e Huni Kuins. Mais do que isso, exerce o compromisso de resgatar cosmologias e conhecimentos através dos grafismos e do artesanato, revertendo a renda para os povos produtores e sendo composta por indígenas e não-indígenas. A loja é física há dois anos e virtual há apenas alguns meses, mas já passou por uma reestruturação para abarcar ainda mais produto e reúne trabalhos amazônidas, nordestino e do cerrado.

4 — Feira do Livro Indígena do Mato Grosso

A FLIMT já contou com três edições, sendo a mais recente em outubro de 2015. A primeira aconteceu em 2009; a segunda, em 2011. Em ambas, houve a presença de representantes de 32 etnias indígenas do pais (na sua maioria da Amazônia brasileira) e o público foi superior a duas mil pessoas por dia.

Em 2015, o evento durou três dias e aconteceu na Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá, com o tema “A sabedoria das Matas ecoando na cidade”.

A Feira tem a participação de indígenas e não-indígenas, exposições de livros, pinturas corporais, adornos tradicionais, entre outras manifestações da cultura indígena, além de debates sobre diferentes temáticas da realidade dos povos originários, e com o objetivo de promover o respeito entre os olhares étnicos e culturais.

A Flimt foi um dos dez eventos selecionados no Brasil pelo Edital de Apoio ao Circuito Nacional de Feiras de Livros e Eventos Literários 2014, promovido pelo Ministério da Cultura (MinC).

5 — Encontro de Escritores e Artistas Indígenas

Manoel Tukano, Marcos Terena, Ailton Krenak e Daniel Munduruku no EEAI de 2011, com o tema “Literatura É Resistência”

O EEAI é promovido pelo Instituto Uk’a — Casa de Saberes Ancestrais, pela Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual e pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). O Encontro acontece no Rio de Janeiro, durante o Salão FNLIJ do Livro, e já chegou à sua 13ª edição em 2016.

Já passaram pelo EEAI escritores como Eliane Potiguara, Marcelo Munduruku, Ailton Krenak, Cristino Wapichana, lançando seus livros, mediando debates e entregando o prêmio do concurso “Curumim e Tamaios”.

6 — Vídeo nas Aldeias

O projeto Vídeo nas Aldeias teve seu início ainda na época do VHS: partiu da iniciativa do indigenista Vincent Carelli, em 1986. Na época, era uma atividade da ONG Centro de Trabalho Indigenista, mais focada no registro de um povo do que na sua participação como agentes por trás da câmera.

O primeiro povo a participar foram os Nambiquara (MT/RO), e depois de 10 anos, começaram as oficinas para que os próprios indígenas aprendessem as técnicas e os usos de equipamentos. Em 2000, o Vídeo nas Aldeias se tornou uma ONG, que antes recebia recursos com patrocínios internacionais, e que hoje conta com a ajuda de editais do Ministério da Cultura para se manter.

Hoje, ela é comandada por indígenas e não-indígenas, e atua na formação, produção e divulgação de materiais audiovisuais feitos pelos seus próprios povos. A VNA também atua de maneira a integrar os povos entre si, com encontros e exibições itinerantes; e além disso, verifica do que os produtores e atores indígenas precisam para produzir novos vídeos ou para assistir o material de outros indígenas.

Entre as etnias, estão Waimiri Atroaris, Guaranis-Mbya, Xavantes, Kaxinawás, Kisêdjês, Paranás e Kuikuros. No site do VNA, é possível acessar e assistir o catálogo de filmes.

7 — Mostra MUTUM

A Mostra de Música Instrumental e Cultura Popular MUTUM leva o nome de um pássaro que aparece em várias cosmologias indígenas, principalmente para os Timbira, narrado como o pássaro do fogo e da toca da onça. Por isso, o destaque da programação de 2015 foram os povos originários.

A primeira edição aconteceu em Taquaraçu (TO), com mais de 100 horas de programação cultural. A mostra promoveu diversos artistas locais e ritmos variados, como jazz, blues, forró, samba e cantos indígenas. Diversas etnias também expuseram suas artes, estiveram numa feira de sementes e debateram sobre sabedoria indígena.

Dentro do evento, aconteceu o 1º Encontro de Cantadores Indígenas do Tocantins, que reuniu cantadores e cantadoras dos povos Apinajé, Krahô, Karajá, Xerente, Javaé, Krahô Kanela e Karajá Xambioá.

Além disso, o MUTUM realizou oficinas de benzimento, construção e confecção de violas e tambores, laboratórios de comunicação e workshops de aprimoramento para músicos.