sobre o fim do mundo do feminismo ir parar na rede globo: não acho.

existem algumas coisinhas aqui nesse embrolho, é verdade. mas vamos então nos deslocar, e dar um olhar mais atento.

vocês já leram um livro chamado crise e insurreição? pois é. é bem massa, de um pessoal q não se identifica, difíceis d capturar, são espécies de hackers da vida política, chamados d comitê invisível.

lá eu li um trem q foi uma espécie de epifania da coisa política. esse pessoal faz um scanner da tramoia política do grande poder: basicamente se observar que quando movimentos, ideias, grupos, potências explodem, o movimento para suas consequentes implosões é o da captura, ou seja, lançam os holofotes, e isso pode fazer com que, se eles mesmos grupos, movimentos, sujeitos… não sacarem do jogo, sejam capturados, e assim se estanca uma insurreição.

junto com esse pessoal eu vou trazer uma coisa que é o que giorgio agambem chama de profanação. basicamente ele antropofagia foucault, traz dele a ideia d dispositivo e segue mais.

sobre dispositivo rapidamente: aquilo que procuro individualizar com este nome é, antes de tudo, um conjunto absolutamente heterogêneo que implica discursos, instituições, estruturas arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais e filantrópicas, em resumo: tanto o dito como o não dito, eis os elementos do dispositivo. o dispositivo é a rede que se estabelece entre esses elementos. […] Assim, o dispositivo é um conjunto de estratégias de relações de força que condicionam certos tipos de saber e por eles são condicionados” (Foucault apud Agamben).

bom, dispositivo é então essa trama de mecanismos forjados para o controle, a supervisão, a captura de condutas e opiniões, de subjetividade, enfim. a globo, esse tentáculo da informação q formata, opera assim, por ex. pronto. grandes coisa.

tá, então seguimos pro programa amor e sexo que foi ao ar na última quinta (foi quinta? ou quarta…?). só que a coisa não é tão boba assim. existe uma coisa chamada profanação. profanar os dispositivos seria como o estado d alerta que o crise e insurreição inspira, seria o que a gente poderia chamar de estrategia em certa altura. e em agamben, a profanação significa devolver ao livre uso das pessoas a trama do dispositivo….

aqui eu dei uma copiadela da Marcia Tiburi pra ilustrar mais: o gesto da profanação envolve a posição democrática do “uso”… profanar é falar do lixo, do resto, do banal, do que se tem como menor, do que dá vergonha e, todavia, mostrar seus profundos veios metafísicos e políticos, cujo conhecimento é o tom exato do seu significado. profanar é romper com o mero gosto em cuja vigência a sociedade impede a expressão. é a profanação da linguagem que cria a literatura, a profanação da forma que cria a arte, a profanação da moral que cria a ética. a profanação dos conceitos cria a filosofia.

então, sobre a polêmica do feminismo aparecer na rede globo, eu sinceramente me pergunto se estamos sendo sagazes minhas queridas, por que olha…. se tem uma coisa grave no miolo dessa corrosão fascista que avança sobre todos nós, é a dificuldade do deslocamento — e aqui eu tô falando pra quem se aventura mais à esquerda porque é a potência que importa se ressignificar.

uma emissora de tv pauta questões que lhe cabem, e outras que nem tanto. por motivos muitos diferentes, mas quase todos atravessados pela mesma intenção — o capital. o ibope. ok. agora, uma coisa legal: a emissora é uma concessão pública, coisa da res-publica, e voltamos ao dispositivo. precisamos profanar. ser fogo de insurreição, e pra isso vai ser preciso também sair da sarjeta da nossa própria alienação vestida de purismo ideológico, esse dualismo ainda vai nos danar. tá tudo bem o feminismo dar ibope na rede globo. e isso não significa não estarmos atentas, e insurretas, no tabuleiro.

é preciso perder essa coisa tacanha do binarismo utópico que nos separa, divide e formata em dois lados, dois grupinhos, dois times, dois duas blablabla… acho esse jogo de retro revanche perverso, e não vai nos levar nunca pra fora desse grande medo de viver junto, sendo tantos e tão diferentes. é quase contra-discurso de tudo que a gente deseja no mundo. as discussões precisam sair dessa coisa rasteira. a gente precisa, é urgente, desafogar as ideias e o peito, ou as coisas vão ficar muito ruins, e vamos nos atrapalhar mais que libertar.

enquanto assistia o programa eu pensava mil coisas, como todo mundo, não faz mal…porque isso, porque aquilo… e pensava dentro da minha bolha. q só foi furada quando do meu lado uma outra mulher na sala — q vem de outras vivências e estava até muito assustada com a coisa de piranha e pula abre fecha dança — disse o óbvio pra me arrancar do estado de sublimação: isso é importante né, pra essas coisas q acontecem aí — mais cedo a gente tinha visto no jornal sobre os casos de estupro em montes claros, minas gerais, uma pacata cidade no coração do conservadorismo mineiro.

se eu entendi? na hora.

tá tudo bem, vamos só respirar. ou tamo podendo nos dar ao luxo de ficar na bolha? temos mais é que nos excitar, nos inflamar e morrer d tesão pelas que estão furando, quebrando cortando e atravessando como podem, com o que podem, as estruturas de formatação.

ontem escrevi uma coisa com a beleza q é na minha vida a Camila Mota, foi um texto sobre a força política da antropofagia contra o ódio fascista…eu acho q vou colar aqui. viva Djamila Ribeiro…. viva Elza Soares, viva aquela moça q estava do lado da Djamila e também falava coisas ótimas e eu gostaria muito de saber também o nome porque eu perdi…viva todas. (e isso não tem nada a ver com a rede globo).

por favor meu ego não dê força ao prego….

“com o fascismo crescente hoje na direita e na esquerda — no desejo de aniquilação das diferenças, é justamente a perspectiva antropófaga que deveria entrar em cena como filosofia política, como experiência de contracenação, como prática de remoção dos antolhos para ver o antagonista com olhos livres. o matriarcado de pindorama, presente no manifesto antropófago, abre caminhos como a potência da diferença em contracenação com o messianismo, patriarcal. a crise da filosofia messiânica (de Oswald) é o presságio ágil, movimento, que se conecta na contramão do tempo ao pós-estruturalismo e à força de imanência das coisas encarnadas. expõe o abcesso fechado da ideia de representação, revela a crise do platonismo e a falência das estruturas centradas na insustentável leveza da verdade, atada à dinâmica simplista de bem ou mal. antropofagia é deslocamento. havemos de saber mais dela, é nossa contribuição milionária aos saberes do mundo.”