E agora, Maria?

Entre mitos e verdades, mulheres são reféns do dilema: métodos contraceptivos, liberdade ou prisão?

“As mulheres estão sempre tendo que fazer escolhas difíceis”. Essa frase parece comum a qualquer aspecto da vida de uma mulher: carreira, família, moda ou relacionamentos. Mas, nesse caso, a fala é da terapeuta sexual e sexóloga Gabriela Pavani Daltro, sobre a escolha do melhor método contraceptivo.

Na década de 70, auge dos movimentos feministas, as mulheres foram para as ruas lutar por seus direitos. Reivindicaram novas formas de controle sobre o seu próprio corpo, a escolha de engravidar ou não, direito ao trabalho e à salários igualitários. Os ideais feministas, junto com a evolução tecnológica, possibilitaram toda a gama de métodos contraceptivos que existem atualmente. Um deles foi a pílula anticoncepcional.

Sua aceitação não foi imediata. Segundo Gabriela, ações de conscientização contribuíram para melhorar esse cenário. “O desenvolvimento da sociedade como um todo, implantação de políticas públicas que levaram em consideração a pílula, seu o fornecimento pelo SUS e campanhas em relação à gravidez, fizeram com que a relação [entre pílula e mulher] fosse mudando”, explica a sexóloga.

Todas essas revoluções colaboraram para a emancipação da mulher. “Essa evolução traz uma independência para a mulher, ela pode controlar se quer engravidar, ela tem esse poder”, reforça a ginecologista Carolina Ambrogini, que coordena o projeto Afrodite, responsável por orientar mulheres sobre sexualidade.

Nos dias de hoje, os métodos contraceptivos estão tão populares que se tornaram banalizados: muitos usam, mas poucos sabem como funcionam, ou como escolher o melhor. “Isso também não quer dizer que as pessoas se protejam mais. Saber não é fazer”, afirma a sexóloga Gabriela.

Segundo Carolina, o primeiro passo para quando a mulher decidir iniciar a sua vida sexual, é procurar um especialista. “A escolha do método contraceptivo é feita de forma conjunta, do médico com a paciente, de acordo com os objetivos e também com os fatores de risco que ela possa ter ou não”, diz a ginecologista. Durante a consulta os médicos explicam as possibilidades, falam sobre os fatores de risco e sugerem os métodos mais adequados.

A quantidade de fatores a se considerar, colocam as mulheres em um dilema. “Muitas mulheres se sentem divididas entre as escolhas de contraceptivo ou o não uso de contraceptivo”, conta a sexóloga.

No mercado, não faltam opções. Só entre os mais conhecidos, pode-se citar a camisinha tanto a feminina quanto a masculina, o DIU e o SIU, implantes, adesivos e injeções. Dentre as mais utilizadas, destaca-se a pílula anticoncepcional que, de acordo com a doutora Carolina, é a vencedora. Isso se confirma pela pesquisa realizada por nossa equipe de reportagem: das 323 mulheres entrevistadas, 56% utilizam a pílula anticoncepcional.

As mulheres que utilizam a pílula tem entre 20 e 30 anos e a escolhem por sua praticidade, segurança, confiança ou por indicação médica. “As mulheres, em geral, começam a tomar a pílula muito jovens, por volta dos 15, 16 anos e tomam bastante tempo, mais de 10 anos”, declara a ginecologista.

Por conta do medo de desenvolver doenças, e por causa dos efeitos colaterais graves 37,8% das entrevistadas pensaram e decidiram, nos últimos seis meses ou menos, parar com o uso da pílula.

Os efeitos colaterais mais relatados pelas entrevistadas são, oscilações de humor, redução da libido e dores de cabeça.

“Tive sensações de bem estar que eu nem lembrava mais, [me senti] bem leve”, conta a educadora e estudante de psicologia Thainara de Lima Silva, 25 anos, logo após parar de tomar as pílulas. Elas fizeram parte da sua vida desde os 9 anos. “Menstruei com esta idade e tive um problema. Fiquei 3 meses menstruando direto”, completa.

Thainara acabou não se acostumando com os medicamentos, e mesmo diminuindo as doses se sentia mal. “Sempre senti muita ânsia, náuseas, dores de cabeça”. Quando tinha 18 anos, seu ginecologista recomendou uma fórmula manipulada como alternativa, o que encareceu o tratamento e fez com que a estudante, que já estava insatisfeita, desistisse das pílulas. Faz dois anos que ela parou e atualmente utiliza a camisinha como forma de prevenção.

Diferente de Thainara, a estudante de jornalismo Marina da Rocha Felix, 20 anos, começou a tomar pílulas anticoncepcionais só em 2013, para evitar uma gravidez indesejada. A princípio não sentiu nada anormal. “Me sentia normal, me disseram que eu poderia me sentir um pouco mais inchada e perceber um aumento dos seios, realmente aconteceu, mas não achei nada demais essas mudanças”, declarou a estudante.

As pílulas proporcionaram a Marina não só a prevenção, mas também efeitos extra-contraceptivos, como a diminuição das espinhas e de oleosidade da pele. Depois de quase três anos de uso, ela começou a sentir os efeitos colaterais como dores e desconfortos e, com os relatos recentes de mulheres com trombose, ela decidiu parar. Marina diz que não sente falta das pílulas e consegue tratar os problemas de pele com produtos dermatológicos. Atualmente, ela prioriza o uso de preservativos, como forma de contracepção.

De acordo com a ginecologista Carolina, os riscos realmente existem, mas são raros. A pílula “aumenta o risco para trombose, mas ele é um risco que é de 7 em cada 10.000 mulheres”. Além disso, a pílula pode potencializar danos à pessoas hipertensas, com problemas cardíacos e de má circulação. “Por isso ela tem que ser prescrita por um médico, que vai analisar os fatores de risco da mulher”, lembra a ginecologista.

Carolina Ambrogini adverte que “não há o porque ter medo de tomar a pílula, é um método seguro”. As redes sociais aumentam problemas que podem ser muito específicos, é preciso fazer um acompanhamento médico para não cair nos mitos mais comuns (veja aqui mitos e verdades). A doutora reforçou que os casos são raros e que é melhor não se deixar levar por casos de conhecidos. “Não há motivos para deixar a pílula por causa disso”, afirmou.

Fora os prós e contras do uso da pílula, ainda há outra questão controversa: a pílula liberta ou aprisiona? Marina, Thainara e Gabriela acreditam que há fatores que podem aprisionar, como assumir toda a responsabilidade da prevenção, as mudanças no corpo e os efeitos colaterais, mas não obstante tudo isso, as três acreditam e reforçam a libertação possibilitada às mulheres através da pílula. “É inegável a libertação das mulheres, inclusive a emancipação econômica que a pílula permite”, expressa Gabriela.

O assunto sexo, é considerado um tabu, o que dificulta ainda mais falar sobre métodos contraceptivos. “Eu não falo [sobre sexo], eu não pergunto, eu não questiono, não posso tocar no assunto”, conta a psicóloga e terapeuta comportamental, Solange Ronconi sobre como evitamos o assunto. Gabriela recorda que ao longo dos tempos o sexo foi ganhando um caráter privado e como instrumento de controle, adquirindo cunho proibido e subversivo, gerando prejuízos e inseguranças. “O sexo ser tabu simplesmente prejudica enormemente a vida intimossexual, os relacionementos e também a vida da comunidade como um todo”, completa a sexóloga.

A cultura ocidental sempre estimulou o homem à prática sexual e reprimia a mulher. Essa questão cultural não ficou só no passado, e muitas situações de hoje são reflexos disso.

“As meninas são privadas de informação, não podem falar nada. Só que olha o tamanho da responsabilidade que atribuem a ela: ‘Você é responsável, se engravidar a responsabilidade é sua, você quem vai cuidar!’”, comenta a psicóloga Solange. O encargo da prevenção cai como fardo às mulheres, deixando, muitos vezes, os homens imunes ao compromisso.

Carolina atribui parte da culpa aos métodos, já que a maioria são femininos, com exceção da camisinha e da vasectomia (método realizado apenas em homens com filhos). “Acaba que a mulher é quem escolhe porque vai ter impacto direto no corpo dela”, explica a ginecologista.


A pílula anticoncepcional

Todos os dias, mulheres se questionam se a pílula é um veneno ou um remédio, e se ela aprisiona ou liberta as mulheres

As mulheres que utilizam a pílula, segundo a pesquisa, têm entre 20 e 30 anos e a escolhem por sua praticidade, segurança, confiança ou por indicação médica. “As mulheres, em geral, começam a tomar a pílula muito jovens, por volta dos 15, 16 anos e tomam bastante tempo, mais de 10 anos”, declara a ginecologista.

Por conta do medo de desenvolver doenças, e por causa dos efeitos colaterais graves 37,8% das entrevistadas pensaram e decidiram, nos últimos seis meses ou menos, parar com o uso da pílula. Isso sem contar as que desistiram do uso antes disso, por decisão própria, antes mesmo da polêmica da pílula.

Os efeitos colaterais mais relatados pelas entrevistadas são, principalmente, oscilações de humor, redução da libido e dores de cabeça.“Tive sensações de bem estar que eu nem lembrava mais, [me senti] bem leve”, conta a educadora e estudante de psicologia Thainara de Lima Silva, 25 anos, logo após parar de tomar as pílulas. Elas fizeram parte da sua vida desde os 9 anos. “Menstruei com esta idade e tive um problema. Fiquei 3 meses menstruando direto”, completa.

Thainara acabou não se acostumando com os medicamentos, e mesmo diminuindo as doses se sentia mal. “Sempre senti muita ânsia, náuseas, dores de cabeça”. Quando tinha 18 anos, seu ginecologista recomendou uma fórmula manipulada como alternativa, o que encareceu o tratamento e fez com que a estudante, que já estava insatisfeita, desistisse das pílulas. Faz dois anos que ela parou e atualmente utiliza a camisinha como forma de prevenção.

Diferente de Thainara, a estudante de jornalismo Marina da Rocha Felix, 20 anos, começou a tomar pílulas anticoncepcionais só em 2013, para evitar uma gravidez indesejada. A princípio não sentiu nada anormal. “Me sentia normal, me disseram que eu poderia me sentir um pouco mais inchada e perceber um aumento dos seios, realmente aconteceu, mas não achei nada demais essas mudanças”, declarou a estudante.

As pílulas proporcionaram a Marina não só a prevenção, mas também efeitos extra-contraceptivos, como a diminuição das espinhas e de oleosidade da pele. Depois de quase três anos de uso, ela começou a sentir os efeitos colaterais como dores e desconfortos e, com os relatos recentes de mulheres com trombose, ela decidiu parar. Marina diz que não sente falta das pílulas e consegue tratar os problemas de pele com produtos dermatológicos. Atualmente, ela prioriza o uso de preservativos, como forma de contracepção.

De acordo com a ginecologista Carolina, os riscos realmente existem, mas são raros. A pílula “aumenta o risco para trombose, mas ele é um risco que é de 7 em cada 10.000 mulheres”. Além disso, a pílula pode potencializar danos à pessoas hipertensas, com problemas cardíacos e de má circulação. “Por isso ela tem que ser prescrita por um médico, que vai analisar os fatores de risco da mulher”, lembra a ginecologista.

Carolina Ambrogini adverte que “não há o porque ter medo de tomar a pílula, é um método seguro”. As redes sociais aumentam problemas que podem ser muito específicos, é preciso fazer um acompanhamento médico para não cair nos mitos mais comuns (veja aqui mitos e verdades). A doutora reforçou que os casos são raros e que é melhor não se deixar levar por casos de conhecidos. “Não há motivos para deixar a pílula por causa disso”, afirmou.

Fora os prós e contras do uso da pílula, ainda há outra questão controversa: a pílula liberta ou aprisiona? Marina, Thainara e Gabriela acreditam que há fatores que podem aprisionar, como assumir toda a responsabilidade da prevenção, as mudanças no corpo e os efeitos colaterais, mas não obstante tudo isso, as três acreditam e reforçam a libertação possibilitada às mulheres através da pílula. “É inegável a libertação das mulheres, inclusive a emancipação econômica que a pílula permite”, expressa Gabriela.

O assunto sexo, é considerado um tabu, o que dificulta ainda mais falar sobre métodos contraceptivos. “Eu não falo [sobre sexo], eu não pergunto, eu não questiono, não posso tocar no assunto”, conta a psicóloga e terapeuta comportamental, Solange Ronconi sobre como evitamos o assunto. Gabriela recorda que ao longo dos tempos o sexo foi ganhando um caráter privado e como instrumento de controle, adquirindo cunho proibido e subversivo, gerando prejuízos e inseguranças. “O sexo ser tabu simplesmente prejudica enormemente a vida intimossexual, os relacionamentos e também a vida da comunidade como um todo”, completa a sexóloga.

A cultura ocidental sempre estimulou o homem à prática sexual e reprimia a mulher. Essa questão cultural não ficou só no passado, e muitas situações de hoje são reflexos disso.

“As meninas são privadas de informação, não podem falar nada. Só que olha o tamanho da responsabilidade que atribuem a ela: ‘Você é responsável, se engravidar a responsabilidade é sua, você quem vai cuidar!’”, comenta a psicóloga Solange. O encargo da prevenção cai como fardo às mulheres, deixando, muitos vezes, os homens imunes ao compromisso.

Carolina atribui parte da culpa aos métodos, já que a maioria são femininos, com exceção da camisinha e da vasectomia (método realizado apenas em homens com filhos). “Acaba que a mulher é quem escolhe porque vai ter impacto direto no corpo dela”, explica a ginecologista.

Durante a pesquisa, a equipe avaliou também se o fenômeno reportado na internet de mulheres desistirem da pílula por conta dos seus efeitos colaterais era verdadeiro.

A pesquisa mostrou que 70,6% das entrevistadas já pensaram ou pararam a pílula, recentemente ou alguma vez na vida — com 37,8% tendo interrompido o uso.

Também foi possível mostrar que o que mais assusta as mulheres são os efeitos colaterais(44,2%) e o medo de desenvolver doenças (31,4%).

Confira os resultados na íntegra:

Texto por: Júlia Firmino, Lana Nunes, Lianna Antunes, Ludmila Vilaverde e Peterson Prates