TEXTOS SOBRE CINEMAFeb 48 min read
The Hateful Eight


🎥Manuel Halpern, Jornal de Letras:
Talvez por fanatismo cabalístico ou por pura excentricidade, Quentin Tarantino determinou que na sua carreira de realizador só cabem dez filmes. Feitas as contas, depois de Os Oito Odiados (The Hateful Eight), só faltam mais dois. E esta talvez tenha sido uma bala desperdiçada. Não é que Os Oito Odiados não seja bom. Mas é o filme de Tarantino mais parecido com todos os outros. Isto é, o mais redundante. O título remete-nos para uma versão de Os Sete Magníficos do lado do mal. E é mais ou menos o que acontece, neste western maléfico, situado historicamente no pós-Guerra Civil Americana mas cheio anacronismo estilístico, que transporta a ação sobretudo para o limbo cinematográfico onde se situa todo e qualquer filme do realizador.
Tarantino continua a fazer o que esperamos dele, e talvez como choque maior para quem se aventure a visitar esta América fetichista, continua a fazê-lo melhor que qualquer um dos seus discípulos ou mestres vivos. Só por isso, e só para testemunhar o que é cinema autêntico e não política de pacotilha encaixada num formato académico, valeria a pena pagar o preço normal do bilhete. Haveria tanto mais para falar, como a decisão nada aleatória de filmar em 70mm, de como os seus atores continuam a agarrar os seus arquétipos com a mesma ferocidade com que a violência brota do ecrã (Jennifer Jason Leigh, mas não só!). Mas o melhor é mesmo arranjar tempo e uma sala escura, e deixar-se enamorar ou enfurecer com tamanha determinação, como da primeira vez.
🎥Paulo Portugal, Jornal Tornado:
Pois aqui estamos numa terra sem deus, apenas com aqueles que Quentin Tarantino venera e aceita como mestres, aqueles que penetraram com profundidade no género, mas deixando o seu desafio de derrapar nas convenções. É a série B!, grita-nos em cada frame do seu cinema, é o cinema dos malditos, dos desenraizados, tal como ele que passava os dias no cinema com a mãe solteira, marcado com o selo das sessões duplas que combinariam um western e um filme de terror, ou uma fita de gangsters com um título de ficção científica. É como este western arraçado de policial, não à maneira de Hitch, mas quem sabe com uma encenação teatral em que todos podem (e se calhar até são) culpados, à maneira de Shakespeare.
🎥Luís Miguel Oliveira, Público:
Os Oito Odiados é, pelo menos, o filme de Tarantino mais fácil de imaginar enquanto peça teatral. Há basicamente dois décores: a diligência, na sequência preambular, e depois a estalagem (a “retrosaria da Millie”) onde se passa o essencial da duração do filme. Há dois flash-backs (muito menos que nos Cães Danados, ainda assim o modelo mais próximo deste filme), mas um deles, a história da vingança da personagem de Samuel L. Jackson sobre o filho do general sulista (Bruce Dern) pode nem ser bem um flash-back, antes uma alucinação, a reconstituição visual que o general faz a partir do relato de Jackson (sequência, aliás, que o dedo de Tarantino para o tempero dramático apura genialmente, com a personagem que, ao piano, interpreta uma versão mais do que imperfeita de uma canção de Natal, a fazer de banda musical “diegética”). O outroflash-back, mais perto do fim, justifica-se pela narrativa, mas seria mero truque de “construção” se não servisse para relevar alguns detalhes até então omitidos (por exemplo, a cor de pele de Millie, personagem que na narrativa “em directo” é ausente, não vista).
🎥Rui Alves de Sousa, Máquina de Escrever:
A demanda de Tarantino pela película deu aqui os seus frutos: Os Oito Odiados é visualmente belíssimo, com uma montagem impecável e uma perfeita execução de cada sequência e da construção das personagens. O cineasta pop da geração dos noventas é dos poucos que quer preservar as “antiguidades” do cinema, aquelas que nada dizem à malta nova, mas cuja (re)descoberta nunca foi tão urgente como na atualidade. Se falarmos de bom cinema-espectáculo, é inegável que só o realizador parece ser o único que continua a conseguir concretizá-lo, sem cair nas armadilhas das tecnologias modernas. E pela primeira vez, conseguiu ter Ennio Morricone a compor para si (mas a banda sonora não é 100% original, “roubando” algumas peças do filme de Carpenter) e a criar um ambiente sonoro que encaixa perfeitamente — há muito tempo que Tarantino não tinha a música num filme “só porque sim”. Existe, em vez disso, uma ligação exemplar entre o poder das imagens e o das notas de Morricone.
🎥Carlos Natálio, À Pala de Walsh:
O seu pólo de atracção sempre foram, de facto, as histórias contadas pelas personagens, em tom sarcástico e saboreando lentamente cada palavra. “You’re starting to see pictures, aren’t you?”, pergunta Marquis, olhando para a câmara, a meio de mais uma história rocambolesca. Sim, estamos. E essas imagens internas são o resultado da escrita de Tarantino, dividida em capítulos, ministrada de forma precisa sob o confortável calor da lareira (ou da sala de cinema), entre golinhos de cognac e tiros em slow motion.
🎥João Lopes, Diário de Notícias:
De facto, The Hateful Eight não são Os Oito Odiados. O título original era, obviamente, ingrato para qualquer tradução, quanto mais não seja porque não parece possível preservar a rima sonora do inglês. Em qualquer caso, as oito personagens de Tarantino são seres “odiosos” e “detestáveis” — não há sequer quem os possa odiar porque, em boa verdade, quase não existem outras personagens.
🎥Eurico de Barros, Observador:
O filme é Quentin Tarantino em modo “been there, done that”, um mix menor, fatigado e cada vez mais boçal e menos convincente de todo o repertório formal, narrativo, visual, malabarista e de cinefilia “cool” que fez a fama do realizador. Até os diálogos, que em Tarantino são também acção e fazem parte dela, surgem repetitivos, redundantes, prolixos e salpicados de anacronismos contemporâneos — há momentos em que a personagem de Samuel L. Jackson se expressa como se estivesse num “gangsta movie ” e não num western –, coexistindo de maneira desconcertante com clichés verbais dos filmes do género. Basicamente, estamos numa situação de um livro de Agatha Christie aplicada à ideia central de “Cães Danados” (alguém não é quem diz ser), com ambientes, roupa e armas de western, violência exibicionista ao nível do cinema de terror splatter e “mensagem” bombástica e primária. (A banda sonora é de Ennio Morricone, mas não sobrevive nos ouvidos).
“The Hateful Eight” is a giddy abyss of mise en scène, not only in the cinematic sense of staging (the placement of actors and action in the frame) but, even more, in the societal, real-world sense of staging — the faking of an event, an action or self-representation that’s merely for show, a setup or a put-on. The movie offers the careful (even overly careful) presentation of dramatic action. It also offers the narrative trickery of revealing that a situation that several characters encounter — the presence, identities, and intentions of other characters, as well as the circumstances that brought them together — was fabricated by those other characters, who are, in effect, actors portraying still other characters. (When Tarantino ultimately tips his hand and shows viewers how we have been fooled exactly as other characters have been fooled, he also shows the moment when they put their deceptive plan into action and, like actors behind the curtain just before it rises, they hug and send one another out to do their parts and play their roles.)
🎥Michael Atkinson, Sight and Sound:
In formal terms, Lars von Trier’s fiercely ironic Dogville (2003) might come to mind, but the comparison only backlights The Hateful Eight’s deficit of ideas. The means by which Tarantino’s stagebound drama-onion is peeled are limited almost entirely to expository dialogue — which, in the man’s late fashion, is self-reverently repetitious, over-articulate and methodical. (“Let’s slow it way down,” Jackson says late in the game, as he plays detective in what feels like a Murder by Death riff.) Characters pair off for private discussions, as in a stage drama. Entire scenes of chitchat and eating serve as distended slow burns to sudden splashes of bloodshed. Characters explain things we already understand two or more times, while the almost obligatory doubling flashbacks rewrite what we’ve seen but do so in mostly unsurprising ways.
Like the characters on screen, I found my convictions shaken by each new plot development. I thrill to the robust strains of Ennio Morricone’s first original Western score in over three decades (which also samples his themes from The Thing and Exorcist II: The Heretic). I’m in awe of Tarantino and cinematographer Robert Richardson for reviving the Ultra Panavision 70 process used on Ben-Hur in 1959 and defunct since Khartoum in 1966 — curiously dispatched in service of what is essentially a filmed play, most of which takes place indoors. I marvel at what is likely the most formidable cast the director has assembled since the Nineties, though some members are distinctly underutilized. And as much as anyone, I enjoy his dialogue, even as it exists strictly to ratchet up tension between bursts of apocalyptic violence.
🎥Matt Zoller Seltz, rogerevert.com:
The in-depth conversations about the Civil War and capitalism and justice vs. frontier justice are superficially interesting, until you suspect they’re not there to tie the film’s characters to the American Character, but to set the stage for killings. The context of a nasty, brutish time gives the artist permission to be nasty and brutish.
Twenty years after Pulp Fiction (1994) won plaudits for its supposed deviance from Hollywood business as usual, Tarantino stands as perhaps the most powerful — and, in a heavily qualified way, the most free — studio-backed filmmaker in Hollywood. He’s the new Spielberg (or at least his lantern-jawed, Gen-X doppelgänger), and ever since his counterfactual Holocaust corrective Inglourious Basterds (2009), he’s made a comparable bid for “seriousness.” If The Hateful Eight is in many ways the exact opposite of the sort of film Steven Spielberg would make, it is, paradoxically, precisely the sort of movie that only a Spielberg-sized titan could ever get made in the first place. The money men behind it clearly trust QT’s track record — which might be foolish, since, leaving the question of the film’s overall quality aside (and perhaps open forever, like an uncauterized wound), this is Tarantino’s most audience-alienating film to date. A line from The Thing springs to mind: “I don’t know what the hell’s in there… but it’s weird and pissed off, whatever it is.
🎥Ignatiy Vishnevetsky, A.V. Club:
All this talk of rhetoric and counterpoints may give the impression that The Hateful Eight is three hours of dialectics, but if Tarantino were making movies only for the political points, this one wouldn’t be a third as long. The Hateful Eight is an exercise in the art of the protracted scene, which has been part of his personal signature since Reservoir Dogs — the exchange, initiated in an off-hand way, that gets tenser and funnier because it keeps going on and on and on in unpredictable turns. Whether it’s the 15-minute basement bar game in Inglourious Basterds or the dinner at Candyland in Django Unchained, the best recent examples have had overtones of theater, either because they play with theatrical themes (e.g., performance, with characters play-acting) or because they use exits, entrances, and props in ways that are pretty damn theatrical. (Django’s dinner prominently features a skull, the most famous prop in English theater.)