- O que você quer ser quando crescer?

Uma despretensiosa pergunta é bem conhecida em muitos lares. Aquele tio (pouco) legal costuma carregar o questionamento em busca do desconforto de muitas crianças durante o almoço da família.

Espera-se que sejam projetados futuros astronautas, corredores de Fórmula 1, comandantes de avião ou artistas da televisão. Talvez inspirados pelas brincadeiras da infância ou por heróis passageiros, bombeiros, médicos, policiais e cantores também aparecem como opções para o futuro da criançada. A bem verdade é que todos querem ser grandes e pouco importa o que vão ser quando crescerem.

Quando se é criança, sonha-se em ser logo mais velho. Na adolescência, o que importa mesmo é sonhar em ter a maioridade sem nem considerar tudo que vem com ela. Não existe hora para sonhar mais perfeita que o agora enquanto jovens. Não há chatice maior que ser adulto e deixar muitos sonhos de lado.

Deve ser finita a quantidade de pessoas que esperam valores como resposta da criançada para a pergunta do tiozão. Não se espera que a criança diga que quer ser compassiva, justa, tolerante ou companheira quando crescer. Unânime deve ser entre nós que a criança portadora desse tipo de resposta nos dias atuais dominará as redes sociais com os milhões de compartilhamentos do vídeo fofinho a ser gravado pelos pais orgulhosos registrando o momento que parece diferenciar essa criança de todas as demais.

Realmente não há como imaginar que, em um país com cognome relacionado à posse do futebol, tivéssemos poucos sonhadores planejando futuro no esporte. O país do futebol possui, mais que pequenos sonhadores, grandes apaixonados. Não sei escrever sobre amor, mas sei sentir. Futebol é paixão, mas também é amor. É um amor que desponta para muitos de nós desde o berço.

Engraçado dizer isso agora, após anos sabendo e sentindo, mas é porque confiei mais na proximidade da definição que vejo em muitas coisas. Hoje sorrio com o amor, sofro e vibro. Choro com ele se for o caso mas relevo bastante. Hoje sou menos efusivo, mais racional. A emoção vem com a paixão e ela existe também, mas o amor torna mais sábio. Sonhar com o futebol e se emocionar com ele é rotineiro em cada canto desse país. Tornar o sonho realidade e mantê-lo vivo quando adulto é um desafio lançado a cada sonhador mirim.

Numa semana das mais tristes, o amor fez chorar. O mundo recebeu um grande choque e se mobilizou em solidariedade aos entes próximos das vítimas do acidente aéreo com o avião LaMia CP-2933. Sonhadores que sonharam mais foram ao alto e pararam povos. Famílias, amigos, a cidade da camisa alviverde, estados e países, todos em uma só corrente.

Um pequeno sonhador com um amor no peito foi herói de outros amantes. Danilo operou milagres e carregou a Chapecoense até o alto. Não era novidade para quem ficava marcado por uma trajetória de vitórias e já era conhecido como “Rei do Acesso”.

O pai de Danilo conta que o filho era são paulino e sonhava em chegar no clube que amava. Sou são paulino também, hei de dizer. Com idade próxima à de Danilo, nossos ídolos na meta tricolor devem ser os mesmos. Alguém aqui arriscaria duvidar que o sonho contado pelo senhor Eunício seria alcançado? Danilo chegaria ao São Paulo Futebol Clube, sim. E ele seria grande, decidiria campeonatos e levantaria taças. Seria capitão e esse é o sonho que vou sonhar por e com ele. Perseverante, esperançoso, guerreiro. São esses os valores de um sonhador.

A dor de uma mãe. Ninguém, nem eu e nem sei como me atrevo a escrever sobre isso, sabe dizer como é. Filhos são únicos e penso no meu, dentro do egoísmo humano nativo. Diferente, dona Alaíde mostra a grandeza da maternidade ao consolar um repórter em meio à própria dor com a perda de seu filho Danilo. Solidária, pacífica e amorosa fazem essa mulher ser mãe de toda uma nação. Todos a amam, como amam Danilo, como amam a Chapecoense.

Ah, Chapecoense! Não te conheci quando pequena, com seus sonhos sem juízo. Não te vi passar pelos momentos de dificuldade e talvez achar que estivesse em caminhos errados. Tomei conhecimento de você quando já adentrava na vida adulta, mesmo que pouco preparada para os desafios que enfrentaria. Gostei de você. Cheia de dignidade, você se aprochegou e ficou. Nunca faltou honra e não há comentários para sua maravilhosa invasão na vida de quem sempre esteve acostumado com a vida adulta no futebol.

Suas façanhas se transformaram em paixão. Não dava para não querer mais. Parecia que você era aquela pessoa que esteve sentada próximo da gente por tanto tempo e só demos a chance de te conhecer recentemente, quando já crescida. Fez pensar no tempo perdido, fez repensar no que investi o tempo. Despertou sentimentos adormecidos em muita gente mas em mim senti o amor.

Dolorido, assim fico com o susto que esse amor causou. Amar é uma grande academia e o amor são músculos. É necessário exercitar todo dia, mesmo que a dor faça parte de alguns momentos. Ser despertado por esse sentimento é relembrar todas as pessoas dos seus sonhos que foram deixados para trás.

Seus bravos guerreiros e você, Chapecoense, deram aula. Sonharam, lutaram e não haverá quem diga que não chegaram. Vocês uniram e foram a criança diferenciada que responderam a pergunta com valores. Humilde, perseverante, respeitosa, honesta, ética, comprometida. Alguns desses adjetivos devem ter feito parte de sua resposta quando criança, lá nos anos 70. E cumpriram. E continuaram sonhando. E vão continuar.

Sonhemos, queridos e queridas. E, acima dos sonhos, carreguemos valores que façam o caminho ser digno dos nossos objetivos. Sejamos amigos, acabemos com lutas e preconceitos, tenhamos fraternidade em meio às diferenças que tanto enriquecem nosso mundo. Não existem idiomas, religiões ou credos. Não existem diferenças sociais aos olhos daqueles que insistem em acreditar que o poder e o dinheiro transformam um em melhor e o outro em pior. Não existem guerras políticas. Não existem diferenças entre homens e mulheres. Não existem cores de pele ou de times. Não existe qualquer característica ou crença que faça nosso lado humano ser deixado para trás.

Não esqueçamos das histórias dos antepassados, mas façamos futuros pacíficos. No meu egoísmo, quero isso para meu filho. Devo ser parte da mudança e quero aprender diariamente em modos de ajudar. Quero um mundo de Chapecoenses sem precisar ficar amargurado porque demorei a te conhecer, sem precisar descobrir que podia ter conhecido antes um grande amor, sem precisar perder para ganhar grandes sentimentos. Vamos conseguir, juntos.

E não vou parar de sonhar. A partir de hoje, quando me perguntarem o que quero ser quando crescer, já tenho a resposta na ponta da língua.

- Quero ser igual à Chapecoense: grande, enorme, gigante.