Retrovisores

- Tenha um bom dia, meu filho! - desejou a mãe com o coração partido na manhã de sexta-feira.

Lá ia o jovem de 32 anos para mais um dia de batalha. Vias congestionadas com poluição e falta de respeito, da Zona Sul ao Centro. Do Valo Velho para entregar sua disposição pela cidade.

Cachorro louco conhecido como Jhonny, mora com a mãe e com os irmãos mais novos e gosta de rir com amigos. Corajoso e acelerado, sai costurando tudo e todos. Chega a ser bonito de se ver.

As ruas suturadas pela moto e a quantidade imensa de veículos milimetricamente ultrapassados só fazem a preocupação da mãe aumentar. Pensando no bom dia da manhã, dado à beira da porta de casa, ela lembra de “No dia em que eu saí de casa”, de Zezé Di Camargo e Luciano. E chora copiosamente pensando na maldade das fechadas que seu filho pode encontrar.

Já do outro lado da cidade, Jhonny acelera. Ele, com entrega pra fazer, está feliz. Sabe que a recepcionista do prédio comercial de destino é da sua vila. Uma loira muito simpática que abriu um sorriso quando ele fez a primeira entrega no prédio da Rua Peixoto Gomide e lembrou de já tê-lo visto parado na pizzaria da esquina de sua rua. Ela ainda trabalha no lugar. Jhonny passou na quarta-feira por lá. Ele vinha de Higienópolis e passou diferente em frente ao prédio para ver se ela estava lá. Ele estava lento, devagar, parecia que não tinha mais cachorro louco. Foi recompensado. Lá estava ela.

Jogou um perfume, passou na bomboniere e comprou uma caixa amarela de bombons. Sem propaganda, mas ele sabe que as minas da quebrada se importam com quantidade, mesmo que ele não seja mais um Garoto™. Parou a moto, adentrou à recepção e levantou o olhar. Para sua tristeza ela não estava sentada atrás do balcão, como ele já visualizara desde que acordou. Com a entrega numa mão e a caixa de bombons na outra, não resta muito o que fazer a não ser cumprir seu trabalho. Pede para subir até o 506, o rapaz que ocupa o lugar da garota interfona e ele mesmo recebe a encomenda.

A loira tem 25 anos, um pouco mais baixa que Jhonny e tem um sorriso cativante. Ele sabe que ela tem o olhar que o deixa hipnotizado e conseguir isso não é qualquer pessoa. Ela não estava lá, o dia parecia não ser mais tão bom quanto sua mãe desejara e agora ele tinha que seguir para o Ipiranga.

O sol começou a apertar e os bombons derreteriam se ficasse com eles. Resolveu ter atitude diferente do que sempre teria. Entrou na recepção novamente e olhou pro jovem, mais bonito que ele mesmo, sentado e atendendo outra pessoa que subiria pelo elevador. Terminado o atendimento, com aquele gosto de gol contra, Jhonny entregou a caixa pro rapaz e disse que queria ter entregado para a garota mas que o jovem poderia ficar com a caixa.

- Pra Joyce? - perguntou o jovem.

- Uma loira do sorrisão. - disse Jhonny.

- Sim, é a Joyce. Mas ela te conhece de onde? - questionou o rapaz, já com um tom mais acelerado que a moto de Jhonny.

O rapaz devia sair com ela, deve ter ficado irritado com tamanha cara de madeira do cachorro louco que adentrou a recepção pra entregar bombons.

- Então, primo, eu moro duas ruas pra cima da casa dela e vejo ela sempre que venho entregar encomenda aqui. Desculpe se…- Jhonny não teve tempo pra desculpas e foi interrompido pelo rapaz.

Deixasse os bombons derreterem, seria melhor, ele pensou. Suou frio. Teve uma atitude diferente e agora pagaria pelo que fez. Pagou.

O jovem cortou a história é disse: - Ô, pai, sou da quebrada também. A Joyce é minha prima. Perguntei só por isso. Deixa a caixa aqui com seu telefone e eu entrego pra ela.

Foi recompensado. Já é a segunda recompensa que essa garota traz pra ele. Sem saber como falar, agradeceu o jovem que se despediu pedindo o nome pra ela saber quem é na hora de ligar.

Ligar? Qual é a chance? Receber uma ligação da conquista. Seguiu o trabalho, achando que o dia estava bom até demais. Correu menos, abriu o sorriso e até agradeceu pela fechada que tomou do Corolla branco na Ricardo Jafet.

Terminando seu dia na região da Paulista, 17h13, a Alameda Joaquim Eugênio de Lima foi palco da sua terceira recompensa. Parado em frente ao prédio, penúltima rota de trabalho da sexta-feira, o aplicativo de mensagens faz barulho. Um número desconhecido, uma foto esperada.

Joyce manda 7 linhas de agradecimento pelos bombons e escreve que faltou o Serenata de Amor na caixa. Com sorriso aberto, ele parece não acreditar mas pergunta se ele pode fazer a serenata no sábado para ela. O “Vamos ver. Tenho que ver se tem batom suficiente na caixa pra ter certeza que você merece. rs” bastava pra ele ficar feliz.

Eles vão se encontrar no final de semana e Jhonny nunca mais verá uma caixa de bombons da mesma maneira. Agora, sempre que ele agir de forma diferente vai esperar ser recompensado, como os Serenata de Amor que a Joyce esperou lá de dentro.

Na Alameda Itu, 9 minutos mais tarde, Jhonny já está flutuando em sua moto rumo à Rebouças. Um casal se encontra em um beijo efusivo, saudoso e nostálgico na calçada. Jhonny parece pensar nos mesmos irmãos Camargo que sua mãe pensava mais cedo. Mas a música é outra, o clima é outro. E ele não hesita ao gritar o refrão mais conhecido de Mirosmar e Welson: “Éééé o amooooooor!”.

Hoje não tem retrovisores chutado sem São Paulo!