o apartamento do meu avô.

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hoje estive no prédio que passei a maior parte da minha infância, levei uma surra da nostalgia.
logo ao entrar na rua lembro que na minha esquerda havia uma loja de doces, o “ponto doce”. eu comprava suspiros e doces de leite lá quase todos os dias, o vendedor dizia que eu ia virar uma moça muito bonita e que se estivesse vivo até lá, pediria pra casar comigo. descia essa mesma rua sempre de carro com meu avô para irmos à escola, à padaria, ao mc donalds e na “cachoeira” que só fui descobrir mais tarde que era apenas uma parte da CSN que tinha barulho de cachoeira.

eu nunca conheci uma cachoeira de verdade.

depois de subir a rua, vi a janela. eu morava no segundo andar e não gostava porque o primeiro andar parecia ser muito mais legal. nas janelas dos quartos haviam mini-jardins e eu adorava despedaçar as plantinhas, a minha avó quase me matava por isso mas eu nunca deixei de fazer, acho que sempre fui meio mimada por ela.
nessa mesma janela lembro de um dia estar conversando com a minha avó, não faço ideia de que idade eu tinha mas lembro disso como se fosse ontem: estávamos no quarto sentadas e conversando (ela incrivelmente tem uma paciência infinita com crianças) e eu disse, sem gaguejar — vó, quando eu crescer quero ser fotógrafa. já pensou como ficaria bonita uma foto daqui da janela? olha o sol, os prédios e as árvores! — ela me apoiou. e ainda apoia.

antes de apertar o interfone para subir na casa de uma amiga da minha avó que agora mora lá, fiquei observando a rua. na verdade é uma vila. 
tinha uma subida naquela rua e eu adorava descer aquilo de velotrol, e mais tarde, de bicicleta. achava a coisa mais alta e apavorante do mundo e ao mesmo tempo me sentia a menina mais corajosa do mundo por descer aquilo.
hoje vi que ela nem é tão grande assim. 
em frente ao meu antigo quarto tinha uma casa, que ainda permanece lá. se não me engano a moça que mora ou morava lá se chama pollyana e ela sempre dormia com uma vela na janela fechada e no escuro, isso me aterrorizava todo-santo-dia.
hoje eu faço a mesma coisa algumas vezes. descobri que acalma.

ao entrar, vi a garagem do prédio. lá era o meu playground. eu andava de bicicleta religiosamente naquela garagem. rodava, rodava, rodava, mas não me cansava e contava as horas pra rodar naquela garagem no outro dia. julio, o porteiro, adorava conversar e brincar comigo, ele me ensinava a desenhar e a recortar papéis em formato de coração. julio agora é porteiro dos céus.

a entrada estava um pouco diferente. muitas luzes, flores e um elevador que eu não consegui lembrar se existia quando morei lá. deve ter existido. 
ao entrar, dei de cara com um espelho que fazia parte de toda a parede do elevador, foi absurdamente estranho olhar a luísa-maior visitando aquele prédio agora, depois das dez da noite e tendo responsabilidades de uma pessoa adulta. ajeitei meu cabelo e subi.

a casa da amiga da minha avó foi a mesma que morei. não entrei mas não resisti em dar uma espiada ao redor enquanto ela falava comigo. a decoração é totalmente outra. muitos quadros, um sofá pequeno e uma luz baixa. o que permaneceu foi o chão de madeira e o lustre.
lembrei dos momentos bons e ruins que tive naquela casa. a imagem nítida da minha avó colocando o cabelo no canto da mesa por conta do tratamento de câncer enquanto falava com a sua prima de belo horizonte, a raquel. a primeira vez que mexi num computador, a imagem do meu avô trabalhando no escritório, o dia em que minha mãe e minha avó me encheram de roupas e me fizeram modelar pra várias fotos. a vez que tive catapora. a vez que ouvi minha tia contando pro meu padrinho que estava grávida da minha prima, que agora já tem doze anos. era tudo fresco. como se fosse ontem.

depois de descer para ir embora, passei por uma mesinha que ainda estava lá na portaria. uma mesinha e duas cadeiras. foi lá que eu vi meu pai biológico pela primeira vez. assustador. comecei a pensar nisso e lembrei do dia em que meu avô foi me ver na festinha de dia dos pais da escola, de terno. ele sempre foi um moço elegante mas foi aí que meus pensamentos começaram a me fraquejar: o meu avô.

ele está morrendo e todo mundo sabe disso. eu sei disso e minha avó também. 
depois que ele ficou doente eu me afastei e acho que esse foi o mecanismo que meu cérebro achou de evitar dores maiores, mas eu não gosto desse tipo de autodefesa, queria que parasse. no meio dessas lembranças, comecei a lembrar do meu avô me levando à escola todos os dias e sempre que me buscava, sintonizava na 96.1 FM para ouvirmos os beatles. ele quem me ensinou a gostar dos beatles e dos stones.
ele foi meu herói por muito tempo mas agora chegou a vez de invertermos os papéis. agora eu sou a heroína dele, a heroína que visitou um lugar lotado de memórias boas apenas para entregar um exame para a amiga da minha avó.
um exame dentre tantos outros que ele precisa fazer. mais um exame que nos deixa apreensivos a cada resultado. um exame que me faz pensar todo dia em uma cura pra tudo o que meu avô tem.

hoje eu sou a heroína dele, mas heróis ainda não conseguem combater a morte e o fardo da velhice.

até lá, estarei cuidando de você, vô.

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