passo 1

ontem de manhã eu decidi que me decidiria. sobre tudo.

tinha acordado bem, mas angustiada. acordei cedo e mais uma vez procrastinei a minha caminhada ao parque, já tem umas duas semanas que tento ir, mas não consigo levantar da cama. por vezes, me acho vitoriosa demais por almoçar e tomar um banho. acordei e decidi que ia fazer uma das coisas que mais gosto: cozinhar. apesar de enfrentar o obstáculo que mais odeio, que é lavar a louça, fiz um almoço legal e que estava pronto antes das 11h.

minha avó havia dormido fora e quando chegou me viu sentada no sofá com uma feição mais para lá do que para cá. “ei, tudo bem?” “tudo e com você?” “nossa… tudo mesmo?” não consegui responder mais nada depois disso e ela também não quis perguntar. fui para o meu quarto tentar resolver e matar de vez o que estava me matando. coincidentemente, uma amiga, uma das mulheres mais importantes da minha vida, me ligou exatamente na hora em que eu decidi tomar decisões. acho que ela sentiu, porque nunca me liga.

— oi, como você tá?
 — eu tô bem e você? tá bem mesmo?

sei lá, eu disse. ela me pediu para explicar o que estava acontecendo e eu, em tempo real, fui ditando as mensagens que recebia. cada mensagem fazia minhas mãos tremerem mais, não consegui segurar o choro. enquanto eu ditava, ela ouvia respeitosamente em silêncio. — você quer desligar e me ligar depois? — pedi para que não, pedi para que ficasse comigo. ela ficou enquanto eu recebi umas, sei lá, 20 mensagens recortadas e que cortavam bastante também. parecia que cada vez que o sininho de notificação aparecia, uma lâmina passava por alguma parte do meu corpo. não conseguia ler e nem olhar mais.

minha amiga perguntou o que eu ia responder. eu disse que não fazia ideia enquanto chorava de soluçar, feito criança. ela me aconselhou a não responder mais nada, eu pensei em fazer isso também. enquanto eu chorava, dizia repetidas vezes “eu não sou assim, anna. eu não sou esse monstro. anna, eu não fiz nada de errado, você acredita em mim? eu não estou louca, sei que não fiz nada de errado” e ela dizia que sim, que acreditava em mim. ficamos uns quarenta minutos no telefone, durante meia hora, ela só me ouviu chorar e lamentar pelas mensagens doloridas que apareceram no meu whatsapp. o silêncio da anna é o som mais bonito que eu já ouvi. ela não fica em silêncio porque não tem o que dizer ou porque não se interessa. o silêncio dela soa como um abraço. era hora do almoço e ela queria que eu desligasse para almoçar, mesmo depois d’eu dizer que não sentia fome há dias. “vamos almoçar, eu vou também”. desligamos.

deixei o almoço de lado e resolvi que ia cortar o meu cabelo para me sentir em uma fase diferente. existem até estudos científicos que comprovam que cortar o cabelo durante fases ruins faz um bem danado e que realmente simboliza essa coisa de nova era. desci e fui ao salão que costumo ir. horário de almoço. fui em mais dois e também estavam fechados. me deu uma angústia enorme porque tinha que ser ali, naquela hora, naquele momento. era o que eu precisava, mas não aconteceu.

voltei para casa frustrada e vi uma mensagem da anna “já almoçou?”. olhei a mensagem e passei pela cozinha, resolvi almoçar um pouco. ontem foi o meu primeiro dia na aula de libras e tudo conspirava para eu não ir e ficar em casa lamentando sobre o relacionamento fracassado que eu tive durante anos. eu me sentia usada, me sentia uma idiota por ter esperado por uma pessoa que no fim das contas foi embora, me sentia horrível por ter lido aquelas mensagens que claramente falavam mais sobre qualquer pessoa, principalmente quem escreveu, do que sobre mim. o whatsapp vibrou novamente e meu corpo teve um calafrio de medo de ver o que me esperava, mas era só a minha professora de teclado dizendo que minhas aulas retornariam na quinta-feira. fiquei alegre por um instante.

apesar do rosto inchado, do cabelo totalmente desarrumado e do total desânimo para lidar com qualquer pessoa, eu resolvi sair de casa e ir para a aula de libras. estava um sol quente demais e eu tive que andar por uns vinte minutos até chegar na escola. fui ouvindo o meu álbum preferido do beach house, coloquei meus óculos escuros e fui ouvindo respeitosamente o que eu costumo chamar de obra de arte. quando cheguei, com meia hora de antecedência, conheci uma das alunas que já frequentava tudo há mais tempo, ela me direcionou e ficamos esperando a aula começar. quando o professor apareceu, vi que ele era surdo, achei incrível a representatividade nisso tudo e ele era muito simpático. professor joão paulo. como comecei um pouco atrasada, a minha primeira aula foi sobre algumas profissões. aprendi sobre policiais, bombeiros, enfermeiros, médicos especialistas etc. acho que levei jeito para a coisa e o professor me elogiou, até perguntou se eu já tinha feito algum curso antes.

já tem dois meses que não pego nos meus livros da faculdade. digito isso morrendo de vergonha, mas quero ressaltar o motivo: não consigo. mesmo já trabalhando na área, recebendo elogios, tendo companheiros de profissão altamente renomados, parei de me sentir suficiente para a licenciatura. há três semanas não vou dar aula no pré-vestibular que trabalho. ontem alguma coisa mudou, ontem eu sentei numa cadeira e me permiti estudar, me permiti começar algo do zero, me permiti me comprometer com alguma coisa nova e me senti útil, inteligente e capaz. mudou alguma coisa em mim e essa foi só a primeira aula. hoje vou pegar nos livros da faculdade, as provas estão chegando e eu quero virar essa maré ruim de estudos. quero, como sempre, passar em tudo e com notas boas. sei que sou capaz e que vou conseguir.

ontem uma amiga ia apresentar um trabalho na faculdade. desde que ela começou o projeto, eu prometi que iria. ontem eu estava em um dos meus piores dias, mas não quis me deixar abalar. quando saí da aula, ela estava no portão me esperando para irmos juntas para a faculdade. fomos conversando bastante, como sempre, rimos de muitas coisas e pessoas (sem maldade) até chegarmos no destino. quando desci do ônibus, falei para ela que estava com um desejo absurdo de tomar suco de laranja. na minha casa tinha laranjas, mas eu sabia que só chegaria tarde da noite. do nada, no caminho da faculdade, ela me mostrou um lugar que possivelmente venderia suco de laranja e eu fiquei muito feliz quando a moça começou a fazer o suco. saí da loja com um copo enorme e me senti renovada.

antes da apresentação dela, uma professora resolveu passar parte do filme do getúlio vargas. eu estava totalmente desinteressada, mas acabei vendo para me distrair, só que em algum momento eu senti como se algo me agarrasse com força e não era algo bom. falei para a minha amiga “bateu a tristeza”. ela me distraiu, fomos conversando mas eu já estava abatida demais, mas mesmo assim não quis me render. fiquei conversando com os amigos dela também, me concentrei no filme, conheci pessoas novas dentro da sala de aula e depois fomos para a apresentação. foi tudo muito bem, a apresentação dela foi icônica e eu me senti uma mãe orgulhosa enquanto tirava várias fotos. durante esse meio tempo, mandei uma mensagem para o meu avô pedindo para ele pedir um dos deliverys que mais gosto e ele pediu. já era outra forma de me distrair.

quando estava chegando em casa, subindo a rampa, expliquei por áudio no whatsapp como foi o meu dia, já que ela havia perguntado. quando ela ouviu, no fim das contas, respondeu “a sua voz parece tão feliz, você está?” e eu fiquei pasma quando li aquilo. fiquei um tempão fitando a mensagem antes de responder. por um instante não me achei no direito de estar feliz, mas eu estava. cheguei em casa, comi, tomei um banho e dormi.

os dias estão pesados, tem dia que eu sinto como se mil pessoas estivessem em cima de mim, mais em cima do coração, especificamente. ontem, apesar dos pesares, eu consegui me distrair. eu aprendi coisas novas, assisti palestras, comi comidas gostosas, conheci pessoas novas e senti que a vida precisa continuar, sempre precisa. a cura não é linear, mas é preciso ressaltar os dias bons. ontem foi um dia bom.