profissão educação

à socapa.
Sep 3, 2018 · 6 min read

sou do interior do rio de janeiro. esse sábado (01/09) eu fui pra um lugar mais interior que o meu interior. rio claro não chega a 20 mil habitantes, pela minha rasa pesquisa.

dou aulas de português e dessa vez as aulas eram num curso técnico de enfermagem. confesso que nunca fui muito fã de gramática. apesar de já ter feito muita pirraça com essa matéria, inclusive na faculdade, hoje a vejo com olhos menos piores. demorei pouco mais de uma hora da minha cidade até o local das aulas. era numa sala de aula com um quadro muito pequeno, estava calor e não havia ventilador. a luz era amarelada, a sala minúscula e me deparei com mais ou menos dezoito ou dezenove alunos. as pessoas dessa cidade têm fama de serem meio cara fechada, meio bravos, explosivos etc e foi assim que os encontrei. cara feia, nitidamente mal humorados e dispostos a não me darem paz.

— bom dia. aqui é a aula de português hoje?

— é sim. só me responde uma coisa primeiro, por que eu preciso disso em enfermagem?

minha boca secou. respondo o quê? eu tinha várias respostas para dar, mas precisava escolher com calma qual eles iam levar com eles. respondi:

— vocês estão nesse curso e pretendem fazer concursos públicos, não é? minhas aulas darão um norte a vocês, vocês saberão interpretar e responder questões de concurso. vai ficar mais fácil se vocês tiverem um olhar técnico.

silêncio. tentei descontrair algumas vezes, mas eles eram fechados até demais. apesar de odiar esse método, precisei passar matérias no quadro e assim comecei. classes gramaticais. é um absurdo eu precisar dar aulas de classes gramaticais num curso técnico de nível médio e a culpa nunca, jamais será dos meus alunos. eles copiavam a matéria reclamando: “acho que tem uns 5 anos que eu não escrevo nada, já deu pra escrever pelo ano inteiro”, “professora, tá acabando? eu não aguento mais”, “por que você não passou isso numa apostila? eu odeio escrever”. eles odeiam escrever. lendo isso você pode achar que eu passei muita escrita, mas eu apenas escrevi sobre as dez classes gramaticais. apenas. eles não escreveram nem por uma hora.

fiz o esquema de passar tudo e depois ir explicando uma por uma, enquanto esperava aquelas caras fechadas e bravas terminarem a cópia do quadro, a cada bufada deles eu pensava como seria para explicar algo que eles claramente odeiam. puxei um pouco de assunto, ouvi quando eles falaram de política, ouvi quando falaram de bebida, de assédio sexual com uma moça bêbada e aguentei grande parte disso calada. só ouvi.

eles acabaram de copiar e eu não queria que tivessem acabado. é um pouco difícil uma professora admitir isso, mas eu estava com medo deles. não da reação que eles teriam ao explicar a matéria, mas eu tinha a sensação de que iam me bater ou me agredir verbalmente a qualquer instante. estavam furiosos com as aulas. fiquei em pé enquanto explicava. as mãos suando, o coração palpitando um pouco e eu vi algumas sobrancelhas voltarem ao seu estado sereno, não estavam mais tão franzidas quanto antes.

vi que estava no caminho certo. ia explicando tudo dizendo que era muito fácil. pronome possessivo.

— a palavra possessivo lembra o quê?

— posse, né, professora?

— uhum, então vamos sempre falar dos pronomes possessivos como “meu, seu, sua, nosso etc”… é isso ou tô falando besteira?

e aí tudo mudou, parece que a luz amarelada embranqueceu quando um dos alunos me disse:

— eu queria que a senhora tivesse me dado aula na escola, professora. eu não lembrava de nada disso mas tenho certeza que se fosse a senhora explicando desse jeito, eu não ia esquecer nunca mais. não vou esquecer porque você explica de um jeito que eu entendo, com palavras fáceis e sem gritar.

minhas mãos pararam de suar. o coração voltou aos batimentos normais. eu sorri, agradeci e disse que ficava feliz demais por ele estar entendendo. terminei a explicação das dez classes, perguntei se tinham alguma dúvida. outra aluna, a que mais tinha cara de brava e a que eu jurava que ia me xingar a qualquer momento, falou:

— minha dúvida é se você vai dar mais aulas pra gente. eu adorei e queria ter mais aulas com você.

eu disse que me esforçaria para voltar e agradeci novamente por ela ter gostado da aula. um outro aluno foi se despedir de mim e disse que estava feliz por aquela aula também, que minha explicação era ótima e que eu estava de parabéns.

estou contando isso por um motivo bem mais específico do que apenas dar aulas. aos 16 anos tive a minha primeira entrada numa sala de aula. sem preparo nenhum, mas não desisti. era isso que eu queria para a minha vida. ontem, durante a viagem exaustiva pela estrada curvilínea, eu vim pensando que eu não entro na sala apenas para falar de classes gramaticais. nem de literatura. nem de redação. eu não sou só isso. estar dentro da sala de aula é um movimento artístico e político imensurável, talvez com uns trinta anos de magistério eu consiga explicar melhor, mas acho que só quem está nessa profissão vai poder sentir a importância da licenciatura. a importância do professor.

meus alunos de ontem odiavam português e gramática. odiavam escrever, odiavam tudo isso que é relacionado ao conhecimento. apesar de estarem num curso técnico, eles queriam concluir logo para terem dinheiro, não para terem conhecimento. é doloroso ler isso, não?! nós entramos em cursos, faculdades, palestras etc porque tudo isso vai contar para algo financeiro, horas complementares, reconhecimento profissional… quase nunca é só por prazer. ontem eu não conheci nenhum futuro técnico de enfermagem por prazer. eu conheci por necessidade. ninguém queria estar naquela sala de aula, tinha gente que não escrevia há anos. eu tenho quase certeza que nenhum desses dezoito ou dezenove alunos pesquisam estudos complementares na área de enfermagem. e a culpa não é deles. nem dos professores.

Museu Nacional pegando fogo hoje, 02/09. Há possibilidade de perda total de mais de 20 milhões de acervos.

hoje o museu nacional que fica na quinta da boa vista (rio de janeiro) pegou fogo. dizem que tudo foi perdido, mas ainda não temos notícias oficiais porque ele ainda está pegando fogo enquanto escrevo isso. e foi ele quem me fez escrever. parei para pensar e nunca fui ao museu nacional, também nunca fui de ir a muitos museus. sou pobre, vim de escola pública e apesar de estar numa faculdade federal, não tenho acesso a muitos conhecimentos além de português-literatura. pecaram demais com a educação quando não nos ensinaram sobre interdisciplinariedade. pecaram demais com a educação quando colocaram aulas de artes só para encher a semana. eu moro no rio, eu podia ter ido lá durante a escola, durante a faculdade. mas a arte não importa no brasil. há uma parcela que vive disso e para isso, mas vive aos escombros, exatamente do mesmo jeito que o museu está agora. os pesquisadores do museu nacional choram e sentem as labaredas do fogo junto com o incêndio. parte deles está sendo queimada e, consequentemente, parte de nós também.

nós não aprendemos a valorizar nossa cultura, chupamos pau de gringo, mas não olhamos ao nosso redor. eu sou do rio de janeiro e nunca fui ao museu nacional. eu sou do rio de janeiro e nunca fui ao cristo. eu sou do rio de janeiro e nunca estive em vários pontos históricos do meu estado. do meu país. isso me foi negado e não foi negado só a mim. meus colegas de escola passam por isso, meus professores da escola e os meus alunos também. nós crescemos dentro de escolas que parecem presídios. é tudo cinza, marrom, bege e colocam um verde ou azul para disfarçar. é tudo lotado de cadeado, de grade, de privação. estamos na escola, dando aula ou assistindo aula, enquanto um museu de 200 anos pega fogo. estamos sentados em cadeiras duras olhando para um professor desmotivado e mal pago pelo estado. estamos sem esperanças, estamos olhando um museu pegar fogo por conta de negligência do governo e pelo golpe de estado que nos assola a cada dia.

eu não tenho como cobrar sensibilidade dos meus alunos, mas não posso deixar o museu que há dentro de mim queimar. quando piso na sala de aula, seja numa estrutura boa ou precária, eu começo a minha apresentação de arte e isso vai muito além de qualquer matéria. apesar dos pesares, eu ainda tenho a esperança de mudar algo no cenário brasileiro. apesar da desmotivação, eu ainda olho para os meus alunos e enxergo que o futuro é com eles. eu preciso mostrar que não podemos desistir, porque é isso o que querem. desistência, incêndio, devastação. educar é resistir.

infelizmente hoje a luz amarelada vem do fogo da nossa história que está sendo apagada drasticamente por conta do descaso que fazem da história, da pesquisa e da tecnologia do nosso país. é doloroso, dá um nó na garganta, mas eu espero que depois do baque, a gente levante com mais força e leve isso tudo como luta, como resistência.

    à socapa.

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