Castanhas-do-Pará colhidas e beneficiadas nas comunidades ribeirinhas da Terra do Meio, Altamira (PA). Foto: Rogério Assis

A Economia do conhecimento da floresta é possível

ISA lança o minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”, que apresenta diferentes cadeias de produtos da sociobiodiversidade da Amazônia, construídas por índios, pequenos agricultores e extrativistas que vivem, trabalham e protegem as matas.

Por Marina Yamaoka

A bacia do rio Xingu é um dos territórios da Amazônia brasileira mais impactados nas últimas décadas pelas frentes de ocupação e desmatamento. A região segue sendo pressionada pela exploração de madeira ilegal, expansão do agronegócio e o desenvolvimento de projetos de infraestrutura como a abertura de estradas e a instalação de pequenas e grandes hidrelétricas. Cerca de 55% da bacia é protegida por um mosaico de Terras Indígenas e Unidades de Conservação, com Florestas Nacionais e Reservas Extrativistas. A existência dessas áreas protegidas tem ajudado a manter a floresta em pé e a proteger o modo de vida de ribeirinhos, agricultores familiares e indígenas que nelas habitam.

Buscar soluções e arranjos institucionais que permitam que essas populações vivam com dignidade em seu modo tradicional — de forma integrada à floresta ao mesmo tempo em que a protegem — é um desafio. Estima-se que cinco milhões de pessoas, entre populações tradicionais e familiares, vivam na ou da floresta e da extração de produtos não-madeireiros como óleos, castanhas, frutas, borracha, artesanato, entre outros. Também existem cerca de 250 mil índios vivendo na Amazônia que dependem da floresta para manter seu modo de vida e cultura.

“As populações da floresta fazem o papel de vigilância em um lugar onde há questões de governança a serem resolvidas. As chances de fortalecer as áreas protegidas são maiores se nelas residirem populações com acesso aos meios necessários para se levar adiante a economia do conhecimento da natureza”, comenta Ricardo Abramovay, professor sênior da Universidade de São Paulo.

Diante da necessidade de garantir a estrutura adequada para apoiar o trabalho de ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares que manejam produtos florestais de forma sustentável, o Instituto Socioambiental (ISA) e outros 12 parceiros desenvolveram e implementaram o projeto “Sociobiodiversidade Produtiva no Xingu”, financiado com recursos do Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).

Foram pensadas e desenhadas atividades para fortalecer a cadeia de valor de diferentes produtos da sociobiodiversidade da bacia do Xingu. Além de fornecer equipamentos e contribuir para o desenvolvimento de tecnologias que agregam valor aos produtos da floresta e ao conhecimento tradicional dessas populações, as cadeias contaram com assistência técnica para melhorar a qualidade da produção. Também buscou-se desenvolver e aprofundar relações comerciais mais justas e equilibradas entre comunidades e empresas.

Estas não apenas fazem com que a produção chegue aos consumidores ou transformam os insumos florestais em outras mercadorias, mas também desempenham papel de reconhecimento da importância das florestas e de seus povos ao estabelecerem uma outra relação e noção de mercado. “A base do contato entre empresas e comunidades é de natureza ético-valorativa: as empresas são as organizações que permitirão às comunidades indígenas e ribeirinhas afirmar a preservação e toda a cosmologia mental em que ela se apoia fora do âmbito limitado da própria floresta”, explica Abramovay.

No minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”, que o ISA lança neste começo de junho (saiba mais ao final do texto), é possível acompanhar através de curtos documentários, reportagens e séries de fotografias algumas das histórias de cadeias produtivas florestais beneficiadas pelo Fundo Amazônia. Conheça a Rede de Sementes do Xingu, o óleo de pequi do povo Kisêdjê, a fábrica de polpas Araguaia e as castanhas, óleos e borracha da Terra do Meio, produtos da floresta que levam consigo as histórias dos povos que nela e dela vivem de forma integrada e sustentável, e que fortalecem um duplo território: o da Amazônia e o da identidade de cada um de seus moradores.

Assista aqui o trailer do minidocumentário:

Da economia da destruição para a economia do conhecimento

Os produtos dessas cadeias de valor não-madeireiras tem base na ecologia da floresta. O aproveitamento do pequi, da castanha do Pará, da seringueira, dos óleos de copaíba e do babaçu, e das sementes nativas para recomposição florestal, se apoia na proteção e muitas vezes na regeneração da floresta da qual estes produtos dependem.

“Isso supõe intimidade, respeito e, sobretudo, conhecimento das condições que permitem manejar estes produtos sem destruir as bases de sua existência, ou seja, a própria floresta”, continua Abramovay. Na prática, valorizar essas cadeias significa estabelecer uma nova lógica em relação ao uso da floresta que se contrapõe à exploração predatória madeireira e à grilagem. “Estamos conseguindo aos poucos valorizar a floresta , cada vez mais para além da madeira ao mesmo tempo em que se gera renda para as famílias e povos de maneira inclusiva e sustentável”, diz Rodrigo Junqueira, coordenador do programa Xingu, do ISA.

Cada vez mais entende-se que é possível e viável ter uma outra forma de economia florestal que não a monocultura, a exploração de madeira, a expansão da pecuária e a derrubada da mata para obras de infraestrutura. Segundo Mauro Almeida, antropólogo e professor da Universidade de Campinas (Unicamp), “o valor que se atribui para as atividades extrativistas construtivas tem aumentado, estamos entendendo a necessidade de valorizar os serviços ecossistêmicos da floresta”.

Um exemplo de transição da lógica da economia da destruição para o fortalecimento da economia do conhecimento é o caso da exploração das seringueiras. Na época dos soldados da borracha, em sua maioria nordestinos que foram alistados pelo governo para extrair borracha da Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial, quem ditava o preço do leite da seringueira eram os importadores. Os tais soldados entregavam sua produção para atravessadores que, por sua vez, lidavam com a indústria. Uma vez posto um fim à política governamental de proteção de preço, o trabalho com a seringa se tornou inviável e muitos a abandonaram.

Hoje, aos poucos, a seringa e outros produtos florestais são valorizados através de contratos com empresas que compreendem as várias dimensões envolvidas no extrativismo, como o uso tradicional da floresta, a proteção do território e a conservação do meio ambiente. Dessa forma, os ribeirinhos da Terra do Meio, mosaico de áreas protegidas no coração do Pará, retomam a atividade com as seringueiras e a consideram uma das mais seguras na geração de sua renda. “Com a seringa não tem erro”, diz Pedro Pereira, morador da Reserva Extrativista do Riozinho do Anfrísio e filho de seringueiro. “Se temos contrato com empresas e garantia de venda, não dependemos de terceiros, o preço é acordado para a safra inteira e podemos negociar diretamente com o comprador.”

A solução no caso da borracha foi “levar [a seringa] para certos compradores que agregam ao preço o valor cultural e ecológico ao modo de vida florestal”, explica Almeida. “Talvez as cadeias produtivas florestais sejam o único meio de dar uma chance de continuidade para uma economia sustentável que contribui para a proteção da floresta, sem derrubar a mata ao mesmo tempo em que conserva a diversidade cultural no Brasil”, conclui.

Lançamento em Brasília

Dividido em três episódios, o minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”, tem pré-estreia nesta quinta-feira 8/6 no evento “O que é que a floresta tem”, que o ISA realiza em Brasília. Saiba mais aqui.

Na segunda-feira 12/6, os episódios passam a ser divulgados na Internet e publicados aqui, no Medium do ISA, junto com reportagens especiais, realizadas em viagens por diferentes pontos da Bacia do Xingu, no final de 2016 e começo de 2017. O minidoc é assinado por Fábio Nascimento e as reportagens por Marina Yamaoka (texto) e Rogério Assis (fotos).

O projeto Territórios da Diversidade Socioambiental é financiado pela União Europeia.