Pedro Pedreira de Castro, morador da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, Terra do Meio, Pará. Foto: Rogério Assis/ ISA

Economia do conhecimento na Terra do Meio

Reportagem especial conta como ribeirinhos e indígenas da Terra do Meio, mosaico de áreas protegidas entre os rios Xingu e Iriri, no Pará, reencontram a história dos seringueiros e criam uma nova economia que valoriza e protege a floresta e o modo de vida integrado à ela. Assista também o terceiro episódio do minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”.

Por Marina Yamaoka (texto) e Rogério Assis (fotos)

No alto do morro da comunidade do Rio Novo, no rio Iriri, encontram-se três casas de madeira, cada uma pintada por um tom de verde diferente. Da casa de Dona Chagas e seu Aguinaldo, a primeira à esquerda, até a casa de Raimunda, sua filha, passamos gradativamente do verde-escuro ao verde-claro. São cores vivas que contrastam com os diversos verdes e marrons das águas dos rios que são longamente atravessados para chegar até ali. Logo atrás das casas, uma construção de alvenaria chama a atenção: é a primeira miniusina da Terra do Meio, uma pequena fábrica que processa produtos florestais não madeireiros, como a castanha-do-pará e o mesocarpo do babaçu.

O Rio Novo encontra-se na Estação Ecológica da Terra do Meio e é parte de uma região homônima formada por áreas protegidas que somam 8 milhões de hectares. A Terra do Meio, no coração do Pará, entre os rios Xingu e Iriri, e cercado por Terras Indígenas, Reservas Extrativistas (Resex) e Florestas Nacionais (Flonas), a região abriga famílias ribeirinhas e os povos indígenas Arara, Kuruaya, Parakanã, Xikrin e Xipaya. Além de ser um território cultural e socialmente rico, possui uma biodiversidade extraordinária e única que se exibe nas diferentes espécies de pássaros, insetos, flores, animais, frutas, árvores, entre tantos outros elementos.

Raimunda das Chagas e José Agnaldo Rodrigues, pioneiros da mini usina de produtos florestais não madeireiros do Rio Novo, Terra do Meio, Pará. Foto: Rogério Assis/ ISA

Durante muito tempo, a localização geográfica afastada da Terra do Meio — uma viagem de barco durante o período de seca pode levar semanas de Altamira ao Riozinho do Anfrísio — a protegeu da devastação. No entanto, o mosaico, que representa 54% da superfície da bacia do rio Xingu, e é um importante elemento de proteção do território, tem sentido cada vez mais as pressões do desmatamento, retirada ilegal de madeira e de empreendimentos como a construção de estradas e de obras de infraestrutura.

O Pará foi o Estado que mais desmatou a floresta Amazônica em 2016, sendo responsável por quase 40% dos 8 mil km2 derrubados. “A pressão do desmatamento no entorno da bacia do Xingu tem aumentado e vem de todos os lados”, explica Fabíola Silva, do Instituto Socioambiental (ISA). “E não existe melhor forma de conservar e monitorar a floresta do que articular os diferentes atores do território e empoderá-los. Com uma alternativa de renda sustentável, a partir de atividades que já exerciam tradicionalmente, os povos da floresta podem protegê-la ao mesmo tempo em que permanecem com dignidade e mantém seu modo de vida.”

Paisagens na Reserva Extrativista Rio Iriri, Terra do Meio, Pará. Fotos: Rogério Assis/ ISA

Ao saírem para uma das estradas de seringa ou quando acampam para a retirada do óleo de copaíba, e devem caminhar dias dentro da floresta, os ribeirinhos estão atentos para as mudanças que acontecem na mata e ao seu redor, exercendo um verdadeiro papel de monitoramento.

O beneficiamento e comercialização de produtos como a castanha-do-Pará, a farinha do babaçu, a seringa e óleos de andiroba, babaçu e castanha, parte do conhecimento tradicional dessas populações, também ajuda a conservar um segundo tipo de território, integrado à floresta, que é o do pertencimento, identidade e modo de vida dos ribeirinhos e indígenas. “Eu me sinto feliz de ter aprendido com a minha mãe como trabalhar com a castanha, assim damos continuidade ao conhecimento, passando de geração para geração, e não morre a cultura familiar e da floresta”, conta Raimunda, filha de Dona Chagas e Seu Aguinaldo.

Assista aqui o terceiro episódio do minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”, com legendas em inglês, que apresenta a cesta de produtos da Terra do Meio:

Assista a versão com legendas em português:

Miniusinas, uma forma de agregar valor ao conhecimento tradicional

Boa parte das 300 famílias que vivem em três Reservas Extrativistas — Xingu, Iriri e Riozinho do Anfrísio — na Terra do Meio são de filhos e netos dos soldados da borracha, em sua maioria nordestinos que foram alistados pelo governo para extrair borracha da Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial, conhecidos na região como “arigós”. É o caso de Dona Chagas. Seu avô, do Piauí, passou anos extraindo seringa e sua avó maranhense trabalhava com o coco do babaçu e ensinou a mãe de Chagas como extrair o óleo que, por sua vez, passou o conhecimento para a filha.

O desejo de ter uma miniusina para beneficiar produtos da floresta veio de um intercâmbio realizado em Uruará, onde ela aprendeu a tirar o mesocarpo do babaçu e ensinou como obter o óleo. “Eu vi as máquinas e me empolguei, queria seguir trabalhando com o babaçu e começar um projeto com castanha. A gente conseguiu o apoio, foi uma longa história, mas foi muito bom pra gente porque temos outras alternativas além do peixe para melhorar a renda”, ela conta e dá uma de suas longas risadas secas que enchem o peito e a casa de alegria.

Hoje, quem está à frente do trabalho da miniusina do Rio Novo são os filhos de Chagas e Aguinaldo. “Tenho muito orgulho do trabalho que fazemos aqui e mais orgulho ainda dos meus filhos darem continuidade. É algo que vai ficar pros filhos deles”, explica. Raimunda e Marlon recriam a economia da floresta em que vivem.

Marlon coletando castanha, comunidade extrativista no Rio Novo, Reserva Extrativista Rio Iriri, na Terra do Meio. Foto: Rogério Assis/ ISA

Ele colhe e quebra os ouriços de castanha na mata para, então, lavá-las no rio e deixá-las secando no paiol durante três meses. Quando estão bem secas é hora de cozinhá-las para extrair a castanha e fazer uma primeira seleção do que irá para a secadeira, onde cerca de 120 quilos de castanha permanecem durante 3 dias à temperatura de 65oC. Depois, é feita uma nova seleção para, então, serem embaladas e seguirem diretamente para os mercados. As castanhas quebradas são aproveitadas para a extração do óleo e da farinha, usados na alimentação. Em uma semana é possível produzir uma tonelada de castanha que estará disponível no mercado local de Altamira e em outros locais do Brasil, como o Mercado de Pinheiros, em São Paulo.

“Os produtos beneficiados na miniusina estão prontos para serem comercializados e com qualidade, sem ter que passar por nenhum outro processo na cidade. Dessa forma, os ribeirinhos têm maior autonomia em sua produção”, explica Silva. No Rio Novo, também há maquinário para a produção da farinha do babaçu que é vendida para a Atina, empresa mineira de cosmético. O mingau da farinha já está presente na merenda de algumas escolas públicas da região.

Beneficiamento de castanha na miniusina do Rio Novo. Fotos: Rogério Assis/ ISA

As cinco miniusinas da Terra do Meio trouxeram mais agilidade para o trabalho com os produtos da floresta e agregaram valor ao conhecimento tradicional. “Antes, não tínhamos muito certo para quem vender e o valor era bem menor. Ganhávamos apenas pela coleta da castanha e, hoje, entregando beneficiado, há um valor a mais em cima do produto. O conhecimento é tradicional, mas aprimoramos as técnicas”, conta Raimunda. “Pro futuro da miniusina espero trabalhar com mais produtos e outras tecnologias. Sem destruir a floresta, dando valor para a mata”, conclui.

Mais liberdade com as cantinas

Outra estrutura que impulsiona a articulação dos povos da floresta é a das cantinas, espaços de comercialização de mercadorias e produtos da floresta. As cantinas possuem um capital de giro administrado por um cantineiro escolhido entre e pelos moradores das vizinhanças. Com esse capital os cantineiros compram a produção local dos ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares, que podem escolher no momento da entrega dos produtos se querem receber em mercadorias — como café, açúcar, pilhas, entre outros — ou em dinheiro.

Pedro Pereira é cantineiro da Cantina Paulo Afonso, na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Foto: Rogério Assis/ ISA

“Com as cantinas temos mais liberdade, o pequeno produtor pode escolher como quer receber e não precisa vender apenas para o regatão [barco que circula na região vendendo mercadorias da cidade e recuperando a produção local]”, explica Pedro Pereira, da cantina Paulo Afonso na Resex Riozinho do Anfrísio.

Os contratos estabelecidos pelas cantinas com empresas que compram os produtos da floresta como o óleo de copaíba e a seringa trazem mais segurança para os extrativistas. “Foi praticamente um sonho, a gente nem sabia para onde ia o produto e o lucro em cima dele antes. Hoje, são os próprios extrativistas administrando, sabemos para onde vão os produtos da floresta e tomamos cuidado para ter uma produção de qualidade para não prejudicar o nosso próprio trabalho. Também contamos com um preço definido para a safra inteira, o que incentiva o trabalho. Foi assim que começamos a retomar o trabalho com a seringa”, relata Pedro Pereira.

No total, são 20 cantinas na Terra do Meio que exercem muito mais do que o papel de compra da produção local e de venda de mercadorias. Articulados em uma verdadeira rede, os cantineiros trocam experiências e conversam por rádio com frequência. “Estamos muito mais conectados com as Resex do Xingu e do Iriri, inclusive com os indígenas”, conta Pedro Pereira.

Fortalecer a integração do território

As famílias que habitam a Terra do Meio estão separadas por horas de viagem de canoa e por labirintos de pedras e corredeiras. Em uma área gigantesca e onde a população está dispersa, as cantinas e miniusinas ajudam a fortalecer a integração do território de diversas formas. Elas recebem a produção a ser beneficiada de todas as famílias da região, fomentando a troca entre populações ribeirinhas e indígenas, e a própria expansão da quantidade de miniusinas incentiva um intercâmbio para que os mais experientes, como Raimunda e Marlon, ensinem como beneficiar os produtos da floresta.

Ronaldo Rocha, da localidade Praia Grande na Reserva Extrativista do Riozinho do Anfrísio, não esconde a alegria da chegada da miniusina. “Trabalhamos com a castanha desde 2014 e fomos devagar por falta de estrutura. Com as máquinas chegando vamos extrair o óleo, a castanha e poder embalar para vender na cidade”, conta. “A ideia é ter babaçu, cumaru, cupuaçu, andiroba, mamona, o que for caroço que tiver óleo a gente manda brasa.”

Ronaldo Rocha na Cantina Praia Grande, na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Fotos: Rogério Assis/ ISA

A possibilidade de trabalhar com diversos produtos da floresta é fundamental para garantir a segurança da produção e de geração de renda durante o ano todo. “Hoje dependemos basicamente da castanha e não sabemos se vai dar ou não. A miniusina traz diversidade e, se em um ano bater uma seca como a do ano passado, vamos ter outras opções”, explica Ronaldo. “Além disso, vamos poder deixar de comprar produtos como o óleo que vem da cidade, que é caro e que não estamos acostumados a consumir, para usar o que aqui fazemos e, ainda, vender. É sem explicação para a animação que temos”.

Momento de alegria e de encontros, a Semana do Extrativismo, evento anual que reúne indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares, também é parte da estratégia de fortalecimento do território. Os diferentes atores dos diversos produtos da Terra do Meio se articulam, trocam saberes sobre a sociobiodiversidade e pensam em como produzir e preservar valorizando a floresta.

“Se não tivesse Resex não estaríamos aqui”

Pedro lembra da época em que as Reservas Extrativistas não haviam sido criadas. “Era grileiro por todos os lados, sobrevoavam a área o tempo todo, cortavam picadas e já saíam dizendo que eram donos da terra e vendendo tudo. Estavam acabando com a floresta. Se as Resex não existissem não estaríamos aqui”, diz ele.

Essa também é a recordação de Dona Chagas, que chegou a se mudar para Altamira durante um ano quando a pressão dos grileiros na Terra do Meio se intensificou. “Quando estavam invadindo até tentamos morar na cidade, mas a vida lá é para quem nasceu e se criou na cidade. Nós somos daqui, não podemos nos afastar para viver de um jeito como nunca vivemos, a nossa alma e o nosso coração estão aqui.”

Extração da copaíba na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Fotos: Rogério Assis/ ISA
Extração de seringa na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. Fotos: Rogério Assis/ ISA

As miniusinas e as cantinas facilitam a comercialização dos produtos da floresta, que levam consigo as histórias e a cultura dos povos que nela e dela vivem. É uma forma de proteger o território e fortalecer a identidade, a cultura e o modo de vida dos ribeirinhos e indígenas que conservam o território.

“Se já tínhamos vontade de ficar aqui, no mato, agora é que não saímos. As cantinas ajudam a segurar as pessoas aqui, com contrato, mercadorias, dinheiro, facilidade para quem produz. Antes eu podia pensar ‘vou sair porque não tenho para quem vender’, isso já não é mais a realidade”, conta Pedro Pereira.

Além de coordenar o trabalho da cantina Paulo Afonso, Pedro coleta castanha-do-pará, extrai óleo de copaíba e seringa que são vendidas, respectivamente, para Wickbold, empresa de pães, Firmenich, empresa suíça de fragrâncias, e para Mercur, produtora gaúcha de borrachas. “Nós olhamos para o nosso negócio e vimos que podíamos beneficiar a sociedade se fizéssemos diferente”, explica André Tabanez, gerente de projetos da Firmenich no Brasil. “Ao comprar o óleo de copaíba da Resex do Riozinho do Anfrísio nós multiplicamos os benefícios da nossa atividade e ajudamos a conservar um modo de vida tradicional, além de colaborar para a preservação da floresta.”

Laboratório da Firmenich, onde se usa óleo de copaíba. Cotia, São Paulo. Fotos: Rogério Assis/ ISA

O minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”, produzido no âmbito do projeto “Sociobiodiversidade Produtiva no Xingu”, foi apoiado pelo Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). O projeto Territórios da Diversidade Socioambiental é financiado pela União Europeia.

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