Seu Bernaldo cortando a árvore da seringa para a retirada do leite. Foto: Maria Augusta Torres/ISA

Eu vivo da floresta

Indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares se reúnem para discutir estratégias para produzir e preservar com valorização e integração da Terra do Meio, no Pará

Ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares se reuniram na Reserva Extrativista (Resex) Rio Iriri, no Pará, em uma intensa troca de saberes sobre a diversidade socioambiental, a cultura e o território da Terra do Meio — mosaico de áreas protegidas localizada entre os rios Xingu e Iriri que abriga uma enorme diversidade socioambiental. A Semana do Extrativismo é um dos principais eventos de articulação dos atores das diferentes cadeias de valor dos produtos do extrativismo, como a castanha, borracha da seringa, coco babaçu e copaíba.

Em sua 3a edição, realizada no pólo Manelito entre os dias 11 e 15 de maio, trouxe mais de cem participantes, entre ribeirinhos das três Resex da região — Riozinho do Anfrísio, Rio Iriri e Rio Xingu — , agricultores familiares de Uruará, e indígenas Arara, Xikrin, Xipaya, Kuruaya e Parakanã.

Debates e oficinas aconteceram na escola do pólo Manelito, na Resex do Rio Iriri. Foto: Rafael Salazar

“Estou rodeado de potência aqui”, comenta Assis Porto de Oliveira, o seu Assis, da Resex Rio Iriri. “As comunidades indígenas e ribeirinhas estão juntas nessa caminhada, e está dando resultado e vai dar mais resultado ainda”. O fio condutor do encontro é debater a produção, mas além disso, ganha-se muito na discussão sobre a gestão do território. “É um evento cada vez mais político e que integra o território da Terra do Meio”, explica Jeferson Straatmann, coordenador adjunto do Programa Xingu do Instituto Socioambiental.

“Não só manter a floresta em pé, mas ficar em pé com ela”

Crianças Xikrin também participaram das atividades. Foto: Rafael Salazar

A relação dos povos com a floresta é maior do que os produtos que são extraídos dela. A mata é um sistema de relações e valores que vão além de um serviço a ser prestado para a subsistência. É nela que se concretiza o modo de ser e de se relacionar dos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares. “Temos que ter o orgulho de mostrarmos que somos da mata e que temos o conhecimento de como vive nela, carregando a nossa cultura. Não tendo vergonha de falar que dependemos dela”, escreveu Denis Cruz Araujo, do povo Kuruaya, quando questionado sobre o valor de sua identidade no curso de Gestão Territorial, que ocorreu logo após o término da Semana do Extrativismo.

É no uso tradicional da floresta feito pelos povos da região que ela se mantém viva. Herculano de Oliveira, da Resex Riozinho do Anfrísio, conta que antes tinha vergonha de sua identidade, de se apresentar como ribeirinho, mas que isso mudou quando passou a perceber o valor que sua cultura tinha:

“A gente era, e é malvisto. Essa identidade é pouco reconhecida, mas não por isso a gente desistiu, deixou de lutar. Passamos a conhecer que o nosso produto não tem valor só da qualidade, mas do modo de vida, de estar monitorando um território. O pessoal antes andava com a cabeça baixa na cidade, hoje anda com a cabeça erguida, sabe o seu valor”.

A comercialização dos produtos da floresta, que levam consigo as histórias dos povos que nela e dela vivem, é uma forma de proteger o território e fortalecer a identidade dos ribeirinhos e indígenas, responsáveis não só pela sua conservação, mas pela manutenção de um modo de vida integrado com a floresta.

“A gente quebra essa grande mentira que diz que povos indígenas e ribeirinhos não contribuem pro crescimento do país. Ao contrário, a gente trabalha de maneira sustentável, não derruba a floresta nem constrói hidrelétrica. A gente não vê a floresta como uma coisa que tem a obrigação de nos dar recurso, a gente tem que ver ela como parte de nós. Não é só manter a floresta em pé, mas ficar em pé com ela. Em nenhum momento trocamos a nossa vida, o nosso modo de viver, por outro que não é nosso”, atenta Juma Xipaya, cacique da aldeia Tukamã, Terra Indígena Xipaya.

Eu vivo da floresta

Reginaldo Pereira Nascimento, o seu Reginho, seringueiro há mais de 50 anos na Resex Riozinho do Anfrísio. Foto: Rafael Salazar
“A floresta é de onde eu tiro meu sustento, é onde eu criei meus filhos, onde meu pai me criou. Sem a floresta nós tamo arrasado, sem ela não tem uma chuva, tudo que plantar se acaba. Com a floresta em pé, tamo feliz com a nossa vida, criamos nossos filhos, e não é só eu mas todos os meus companheiros. Se ele [madeireiro] acabar com a floresta, tá arrasado eu e ele. O que eu mais gosto de fazer? Rapaz, o que eu mais gosto de fazer é cortar seringa, botar minha roça, e tratar bem da floresta!”
Juma Xipaya, cacique da aldeia Tukamã. Foto: Rafael Salazar
“A floresta pra mim é tudo. Não tem palavras suficientes pra dizer. Muitos já falaram ‘tem que manter a floresta em pé’, mas é muito mais do que manter a floresta em pé, e sim de se manter em pé com ela. É a raiz, é a nossa mãe. O significado não tem proporção, não tem tamanho, não tem palavras que possa traduzir, é só a vivência”.
Raimunda Rodrigues, coordenadora da miniusina do Rio Novo, no rio Iriri. Foto: Rafael Salazar
“A floresta é a nossa família, é nós. Ela nos dá de tudo, a gente tem que fazer de tudo pra preservar ela, sem ela não somos nada, nasci, me criei, vivendo disso, vivendo dela”.

Produtos da floresta, povos da floresta

A Semana do Extrativismo é uma oportunidade para os moradores da Terra do Meio dialogarem sobre as várias dimensões que envolvem a produção de itens como a castanha, coco babaçu e a borracha: a manutenção da cultura — concretizado no uso tradicional da floresta, a proteção do território e a conservação do meio ambiente.

Nos últimos seis meses foram comercializados:

  • 840 kg de óleos vegetais
  • 50 toneladas de castanha
  • Duas toneladas de mesocarpo de babaçu
  • Duas toneladas de castanha desidratada
  • 500 kg de sementes florestais
  • 5,24 toneladas de borracha

Mais do que o balanço numérico da produção, a questão colocada pelos participantes foi justamente quais os valores embutidos nestes produtos — para além do preço que lhes é atribuído para sua comercialização no mercado convencional.

“Vocês sabem que não estão produzindo castanha e borracha só para a sobrevivência de vocês, ao produzir isso vocês estão produzindo o que a humanidade mais precisa: a biodiversidade. A biodiversidade não é um museu, ela só se mantém porque vocês a cultivam”. (Ricardo Abramovay, professor da Universidade de São Paulo (USP) que também participou do encontro)
Da esquerda para a direita: a semente da seringueira, o leite da borracha recém extraído e o corte na árvore. Fotos: Marcelo Salazar/ISA
Seu Bernaldo mistura o leite da seringa com ácido acético em uma bandeja e depois de endurecer o excesso de água é retirado por uma prensa. Fotos: Rafael Salazar

“A cantina é uma oportunidade da gente ser livre”

As Associações de moradores das Resex têm um papel político importante no território da Terra do Meio, na medida em que lidam com questões de governança, saúde, educação, proteção do território, busca de recursos pra projetos, além do apoio às cantinas e na cooperação com as empresas. As cantinas na Terra do Meio, espaços de comercialização de mercadorias e produtos da floresta, mais do que a a compra, venda e escoamento da produção, contribuem para uma maior articulação entre ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares.

“O sucesso de uma cantina motiva o desenvolvimento de outra, é fortalecer e crescer junto. Na prática, cria-se uma unidade”, explica Edileno Oliveira, presidente da Associação dos Moradores do Riozinho do Anfrísio (AMORA), uma das quatro associações comunitárias existentes na região. A Rede de Cantinas, que foi uma demanda da 2a Semana do Extrativismo e concretizada no Encontro de Cantineiras e Cantineiros realizado em janeiro deste ano, estreita os laços entre as cantinas das diferentes regiões, promovendo trocas de experiências e fortalecendo as organizações.

Pedro Pereira na cantina do seu Do Carmo, no pólo Manelito. Foto: Rafael Salazar

Hoje são 16 cantinas, além de dois armazéns alugados para concentrar a produção. A gestão do capital de giro é feita pelo próprio cantineiro, independente da associação, que funciona como um “conselheiro”, preservando a autonomia, financeira e política, de ambos. “No começo a gente vendia só pro regatão, não tinha margem de lucro, não era a gente que dominava o capital de giro. A coisa mudou, não é mais o regatão que domina, agora é a comunidade”, aponta Pedro Pereira, da cantina Paulo Afonso na Resex Riozinho do Anfrísio.

Os participantes da Semana do Extrativismo expressaram que um dos grandes desafios é o de aumentar o comércio entre as comunidades da Terra do Meio e, assim, agregar mais valor aos produtos e fortalecer o capital de giro dentro do território. Essa necessidade de aumentar as trocas de produtos entre as cantinas e gerar uma maior cooperação entre elas, de forma a otimizar os processos produtivos e de comercialização, pode ser realizado por meio de sistema de fretes e compras conjuntas, por exemplo.

“Com a melhoria da comunicação, da promoção dessa rede e manutenção da autonomia de cada cantina, se consegue caminhar num processo de desenvolvimento muito mais maduro que garante a liberdade de cada povo sem que haja uma centralidade nessa governança”, explica Jeferson, do ISA.

“A nossa economia tá dentro da nossa terra”, aponta Juma Xipaya, cacique da aldeia Tukamã. Ela explica que a chegada das cantinas ajudou a valorizar os produtos da mata extraídos pela própria comunidade, os quais estavam sendo deixados de lado para o consumo de insumos industrializados vindos das cidades próximas, vendidos a preços flutuantes por terceiros. “A rede de cantinas foi um ponto fundamental pra descobrir o grande diferencial que temos. A cantina não é um supermercado, é uma oportunidade da gente ser livre”.

Seu Carlinhos, da comunidade Boa Esperança no rio Iriri. Foto: Rafael Salazar

Miniusinas e oficinas caboclas

As miniusinas são pequenas fábricas que processam os produtos florestais não madeireiros dentro das comunidades da Terra do Meio. Por meio do beneficiamento da castanha, da amêndoa e do mesocarpo do coco babaçu, que são transformados em óleos e farinhas, os produtos do extrativismo saem das comunidades com maior valor agregado, aumentando a renda de todos e criando maior autonomia no trabalho — que não depende de empresas intermediárias para processar os produtos antes da sua chegada ao mercado. Hoje existe uma miniusina no rio Iriri, na localidade do Rio Novo, três na região de Uruará e ainda quatro projetadas no território.

Raimunda coordena a entrada e saída dos produtos da floresta. Os extrativistas podem escolher se o pagamento será em dinheiro ou em produtos da cantina. Foto: Rafael Salazar

Raimunda Araujo Rodrigues Nonato, coordenadora da Usina do Rio Novo conta que a miniusina surgiu da demanda da comunidade de desenvolver e otimizar o trabalho com os produtos do extrativismo, e começou a ser implantada sob o olhar de dona Chagas e seu Aguinaldo, seus pais. Após muita conversa e intercâmbios para conhecer experiências similares, hoje a miniusina produz óleo da castanha e do babaçu, castanha beneficiada, farinha de castanha e do mesocarpo do coco babaçu, e conta com maquinário e mais participação da comunidade — no início eram quatro pessoas trabalhando,hoje são dez.

Raimunda atenta para o fato que o trabalho é feito por meio da experimentação, e que foi preciso muito esforço para chegar no atual volume de produção: “Foram muitos testes, muita batalha pra chegar aqui. Muita coisa mudou e hoje buscamos novos produtos pra dentro da mini usina, como frutas secas, peixe defumado…”

Dedéu, agricultor familiar de Uruará. Foto: Marcelo Salazar

Além de gerar renda para as comunidades, as miniusinas tem um importante papel no reflorestamento da região de Uruará, área intensamente desmatada ao longo da Transamazônica. “O nosso projeto é uma iniciativa da comunidade, pensando em como preservar e usufruir da floresta em pé”, conta Denisvaldo Moreira, o Dedéu. O objetivo, segundo ele, é fortalecer a agricultura familiar por meio da conservação do meio ambiente.

Além da iniciativa das miniusinas, as oficinas caboclas, voltadas para a produção de arte em madeira, são importantes espaços dentro das comunidades. Andrade Rodrigues, da comunidade Boa Esperança na Resex Rio Iriri, conta que o trabalho com o artesanato é uma alternativa econômica que permite que os jovens permaneçam nas comunidade. Assim, mais do que trazer renda, as oficinas e as miniusinas auxiliam na fixação dos jovens nas comunidades. “Os jovens participam do trabalho, dá uma segurança, gera recurso dentro da comunidade e fortalece a nossa cultura”.

Marlon, seu Aguinaldo, dona Chagas, Francisca e Raimunda, duas gerações que gerem a miniusina do Rio Novo. Foto: Rafael Salazar

Fortalecimento da economia da floresta

Além de promover o encontro entre os atores locais, a Semana do Extrativismo é uma oportunidade de fomentar o diálogo com empresas, governo e organizações atuantes na região, buscando melhorias e inovações que promovam uma relação justa e transparente entre povos da floresta, estado e o setor privado.

“O que vocês estão fazendo aqui é uma economia local diversificada em rede, com um potencial de força extraordinária!”, comenta Ricardo Abramovay, da USP. A construção de projetos em conjunto com a comunidade, envolvendo diversos atores, entre organizações locais, ONGs e empresas, faz com que essas conexões sejam mais fortes e transparentes, impulsionando o desenvolvimento dos produtos florestais e possibilitando na prática “uma nova relação entre sociedade e natureza e economia e ética. O que vocês fazem é um trabalho que busca o sentido da atividade econômica”.

A relação com as empresas, por meio de contratos construídos em conjunto com as comunidades, traz segurança para a consolidação do arranjo produtivo em formação. Com essa segurança trazida pelos parceiros do setor privado, os ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares podem começar a investir em outros caminhos, como o teste de novos produtos e comercialização em mercados locais e até na inserção dos insumos na merenda escolar que, apesar de garantida por lei, é de difícil acesso para as comunidades.

Atividade debateu a valorização da floresta. Ao centro, seu Reginho e Tekenhkarati Xikrin. Fotos: Rafael Salazar

“Como fazer para que os nossos conhecimentos cheguem lá fora?”

Durante a Semana do Extrativismo foi lançado o Selo Origens Brasil, iniciativa liderada pelo Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e ISA. O selo atende à demanda das comunidades de valorizar seus produtos e territórios por meio de um mecanismo de rastreabilidade transparente e acessível para os produtos da floresta. Através de um código digital (QR CODE), é possível ter acesso às informações da origem, caminho percorrido pelos produtos e as relações estabelecidas na cadeia.

Por meio do selo é possível conhecer os valores que vêm junto com os produtos da floresta — sobre o seu processo de extração, história da população e do território em que está inserido. “[O selo] conta um pouco do nosso modo de vida e da nossa convivência com a natureza”, explica Herculano de Oliveira, o Louro, que vive na Resex Riozinho do Anfrísio. “Falando por mim, como morador e produtor, eu vejo um futuro promissor”.

“Hoje a gente pode contar com um sistema que quebra esse protocolo do índio e ribeirinho serem conhecidos como preguiçosos, que não fazem nada… É uma oportunidade de transmitir o nosso conhecimento” (Ney Xipaya, professor da aldeia Tukamã)

União dos povos da floresta

Nesta 3a edição da Semana do Extrativismo houve maior participação dos agricultores familiares e povos indígenas, que já estava sendo ventilada na edição anterior, quando os Xipaya , Kuruaya e Parakanã fizeram parte do encontro. Centrados na troca de experiências sobre a produção, os representantes das comunidades puderam estreitar laços e fortalecer a integração dos povos que vivem na Terra do Meio.

Totó e Tibek Arara, da Terra Indígena Cachoeira Seca do Iriri. Foto: Rafael Salazar

Os Arara, por exemplo, aprenderam com os ribeirinhos da Resex do Iriri o trabalho com o coco babaçu, ofício tradicional de seu povo mas que foi perdido nos últimos anos por conta da invasões madeireiras em sua terra. “Antigamente a gente usava, a nossa avó usava, eu mesmo me criei comendo aquele coco babaçu com peixe. Nós perdemos isso e estamos querendo resgatar esse conhecimento”, conta Totó Arara, liderança da Terra Indígena Cachoeira Seca do Iriri.

“Eu aprendi muita coisa aqui, eu vou chegar muito vitorioso em casa, vou tentar fazer o que aprendi. A Semana do Extrativismo trouxe muita coisa boa pra nós, pra nossa sobrevivência. Eu fico muito feliz de ver esse pessoal e essas empresas, os ribeirinhos e os indígenas, hoje somos reconhecidos, somos irmãos. A Semana nos deixa nessa paz”, explica Reginaldo Pereira Nascimento, o seu Reginho, seringueiro há mais de 50 anos na Resex Riozinho do Anfrísio.

Seu Assis, ribeirinho da Resex do rio Iriri é pintado por Ngrenhkarati Xikrin, da Terra Indígena Trincheira Bacajá. Foto: Maria Augusta Torres/ISA

Através da identificação comum com a floresta e a preocupação com o manejo dos produtos, essa articulação se fortalece a cada dia, promovendo uma gestão mais integrada do território:

“Nós somos a voz do nosso povo. Independente de ser indígena, ribeirinha, eu tenho orgulho de dizer que somos parentes”. (Juma Xipaya).
Rio Iriri. Foto: Rafael Salazar

Escudo contra a destruição

A Terra do Meio é um mosaico de áreas protegidas localizada entre os rios Xingu e Iriri que abriga uma enorme diversidade socioambiental. A região faz parte do Corredor de Diversidade Socioambiental do Xingu, com 28 milhões de hectares de extensão, incluindo 21 Terras Indígenas e dez Unidades de Conservação contíguas, ocupados por centenas de famílias ribeirinhas e 26 povos indígenas.

O mosaico, que representa 54% da superfície da bacia, é um importante elemento de proteção do território que sofre intensa pressão por conta do desmatamento, retirada de madeira ilegal e a construção de estradas e hidrelétricas.

Apenas 2,4% do desmatamento registrado na bacia aconteceram no mosaico da Terra do Meio, que se tornou uma barreira de contenção desses vetores de pressão. A defesa do corredor passa, portanto, pela articulação dos diferentes atores do território, organizando-se para realizar o melhor uso, baseado no modo de vida e conhecimentos tradicionais, e o monitoramento da região como um todo.

Segundo informações do boletim Terra do Meio, lançado em janeiro desde ano, foram derrubados 185 km2 de floresta entre agosto de 2014 e julho de 2015, o que representa um aumento de 41% em relação ao período anterior. Em paralelo foram construídos 576 km de estradas ilegais destinadas ao escoamento de madeira entre 2014 e 2015, um aumento de 19% se comparado com o ano anterior.

Uma grande parte dessas estradas, 333 km, foi aberta na Terra Indígena Cachoeira Seca do Iriri, homologada recentemente, mas ainda intensamente invadida e desmatada — houve um aumento de 73% do índice de desmatamento no período de um ano. O trabalho com produtos florestais também é uma ferramenta para o monitoramento e fiscalização do território.

Tibek Arara, professor da aldeia Cachoeira Seca, conta que é possível ouvir os madeireiros se aproximando cada vez mais da aldeia. Disse que vai voltar a utilizar uma extensão maior de seu território para implementar as técnicas de manejo dos produtos da floresta que aprendeu no encontro: “A gente não tinha produção de castanha, copaíba, andiroba, sementes, mel…. Agora vamos fazer tudo isso, e também caçar pescar, vamos voltar a utilizar a mata”.

Expedição para a retirada do leite da seringa. Fotos: Marcelo Salazar/ISA
Fotos: Marcelo Salazar/ISA
Essa reportagem foi enviada diretamente da Resex do Rio Iriri, em uma iniciativa pioneira na Terra do Meio que utiliza o sinal de rádios amadores para envio e recebimento de arquivos. Com mais de cem rádios espalhados na região e difícil acesso à internet, esse sistema, ainda em fase de teste, será um importante instrumento para o monitoramento do território, diálogo entre as cantinas e agilidade na comunicação relativa à saúde. 
A 3ª Semana do Extrativismo contou com a participação do ISA, Imaflora, Funai, ICMBIO, The Nation Conservancy (TNC), Associação Floresta Protegida (AFP), BNDES e das empresas Mercur, Wickbold, Tucum e Atina. A Firmenich e Quirino não puderam estar presentes no encontro mas também firmaram o compromisso de parceria com as populações da Terra do Meio. O encontro foi apoiado pela Fundação Moore, Fundação Rainforest da Noruega, Enviromental Defense Fund (EDF, Fundo Amazônia/BNDES e Fundo Vale. 
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