Moru Kaiabi, cacique da aldeia Eiruwi, observa o mutirão de queima controlada da roça. Foto: Adryan Nascimento/ISA

Como amansar o fogo

Conhecedores milenares sobre o manejo do fogo, povos indígenas do Xingu estão construindo estratégias para lidar com as mudanças ambientais do entorno que mudaram a força do fogo e impactam seu território

“Agora estamos na época da cigarra cantar. Era para estarmos ouvindo o som delas. Quando elas cantam nós sabemos que dali a três dias a primeira chuva vai cair. É quando começamos a plantar, é a cigarra que nos dá o sinal. Mas as cigarras não estão cantando. Por quê? Porque o calor cozinhou os ovos dela”. Yapatsiama Wauja, liderança da aldeia Piyulaga

O uso do fogo é uma prática milenar dos povos que vivem no Território Indígena do Xingu (TIX). Até pouco tempo atrás não se tinha registros de incêndios, mas com o aumento do desmatamento no entorno e o consequente ressecamento da floresta — causado pelas mudanças ambientais, eles se tornaram cada vez mais frequentes.

Nos últimos 30 anos, 66% das florestas nas adjacências do TIX foram desmatadas e substituídas por grandes monoculturas de base agroquímica, trazendo graves consequências para os modos de vida dos povos indígenas da região. As secas, os agrotóxicos, os fertilizantes, as pragas e o fogo descontrolado impactam diretamente na disponibilidade de recursos naturais importantes para os índios.

A primeira ocorrência de incêndio de grande proporção foi em 1999, atingindo uma área de 77 mil hectares. A segunda, em 2007, alcançou 215 mil hectares. Em 2010, o fogo atingiu cerca de 290 mil hectares de floresta, pouco mais de 10% da área total do TIX. De uma média de 82 focos de calor por ano entre 1995 e 2000, passaram a ser registrados aproximadamente 638 focos de calor/ano entre 2010 e 2015, um aumento de 780%.

“Onde queimou não tem mais o ook taturanuum (tipo de taturana grande que deixa a umidade na terra). Quando não tem mais este espírito, a terra fica logo seca e dura”, aponta Tuiat Kaiabi, pajé e liderança da aldeia Kwaruja.
Área desmatada próxima à aldeia Ngôjwêrê, na TI Wawi, TIX. Foto: Fábio Nascimento/ISA

Além do perigo da diminuição dos recursos naturais, os conhecimentos sobre as plantas e práticas culturais ligadas a elas correm risco de se perder, afetando diretamente suas formas de relação com a floresta. Os conhecimentos dos indígenas sobre o manejo do fogo e da floresta não dão mais conta frente à tantas mudanças. Com isso, os incêndios se tornaram um dos principais desafios a serem enfrentados pelos xinguanos.

“As plantas têm histórias e se não forem cuidadas agora, os jovens não vão conhecer estas histórias e elas podem acabar”, alerta Iwanage Ikpeng, cacique e pajé do povo Ikpeng.

“Está na época do ipê florir, mas não floresceu ainda. Não floriu porque não está se sentindo bem. Por causa do calor, as árvores não se sentem bem, por isso não estão florindo. Como vamos saber o tempo da nossa história acontecer se já perdemos os sinais que marcam o tempo?”, questiona Yapatsiama Wauja, liderança da aldeia Piyulaga.

O município com maior área desmatada no Mato Grosso foi Gaúcha do Norte, seguido de União do Sul e Nova Ubiratã. Juntos, esses três municípios — fronteiriços ao TIX — contabilizaram 14.585 hectares de área desmatada, o equivalente a 145,85 quilômetros quadrados — 43% de todo o desmatamento ocorrido no estado.[Saiba mais]

Incêndio na região do alto Xingu, Rio Kuluene. Foto: Adryan Nascimento/ISA

Usar o fogo

Sendo o fogo a principal ferramenta no manejo local — que estimula a diversidade biológica, contribui na manutenção e renovação de recursos, na construção de paisagens e na agricultura — , deixar de usá-lo não é uma opção. Sem o fogo, todo um sistema de organização do trabalho fica prejudicado.

Os sistemas de produção agrícola no TIX são fundamentados na agricultura de corte e queima de áreas específicas na floresta e tal manejo garante a fertilidade do solo e a produtividade da roça.

“Antigamente não existiam as comidas na roça como o milho, mandioca, amendoim, feijão-fava, pimenta, cará, batata, inhame, algodão. Os Kawaiwete passavam muita fome e viviam se alimentando de frutas silvestres, como o inajá, o tucum e a castanha.
O povo passou muito tempo nessa situação, até que um dia uma mulher viúva, chamada na nossa língua Kupeirup, sentiu a necessidade de dar mais alimentos para seus filhos. ‘Eu quero que vocês trabalhem, façam uma roça muito grande e derrubem as árvores. No dia da queimada vocês me levam para o meio da roça e depois toquem fogo, eu serei queimada, assim aparecerá a comida para vocês”.

Tuim e Moré Kawaiwete narram acima a origem dos produtos da roça na história de Kupeirup. Nele, cada parte do corpo de Kupeirup deu origem a um produto da roça que seu povo cultiva até hoje: são mais de trinta tipos de amendoim, oito de cará, seis de milho, quase dez de batata doce, e incontáveis variedades de mandiocas e mangaritos.

Assim como contado no mito, as plantas agrícolas e a diversidade genética dependem de um sistema rico em cinzas, carvão, calor do solo recém queimado e a sincronia da chuva.

À esquerda, roça no período da colheita do amendoim. Ao centro e à direita limpeza da roça e preparação para o plantio. Fotos: Manuela Otero/ISA

O sistema de produção de alimentos, portanto, tem um vínculo elementar com o fogo. O grande desafio é construir adaptações que mantenham a produtividade da roça e deixem o fogo mais brando. “Mas como fazer para enganar a Kupeirup?” questiona Tari Kawaiwete.

“Baseado no diálogo entre Kupeirup e a necessidade de construir novos jeitos de fazer que possam responder às transformações da nova realidade ambiental, os povos do Xingu tentam reafinar o olhar e práticas. Sendo ações como essas que fundamentam as atividades apoiadas pelo ISA dentro do TIX”, explica Katia Ono, do ISA”.

Vigia da queimada controlada de roça na aldeia Samaúma. À direita, queima na aldeia Eiruwi. Fotos: Adryan Nascimento/ISA

Processos adaptativos

Há tempos os índios têm percebido e sentido que a natureza está diferente e vêm demonstrando uma preocupação com os impactos do aumento de incêndios em seu território. Neste sentido, o ISA iniciou em 2007 ações para levantar as mudanças ocorridas dentro do TIX para buscar entender de que forma essas populações usam o fogo.

Em diálogo com as comunidades, o ISA passou a contribuir na construção de acordos comunitários para os trabalhos que envolvem o uso do fogo (como abertura de roças, queima de áreas do campo e pescarias), promovendo ações de prevenção aos incêndios junto às aldeias e monitoramento dos incêndios e focos de calor dentro do território.

“Esse processo é feito com muita conversa com os indígenas, que já estavam pensando em estratégias para lidar com o fogo descontrolado”, atenta Adryan Nascimento, do ISA. Ao longo desse período foram realizadas inúmeras atividades junto às comunidades para fomentar ações de prevenção e adaptações de manejo.

Algumas práticas já vem sendo realizadas pelos indígenas.

Karaiva Ikpeng vigia a queima da roça. Foto: Dannyel Sá/ISA

Os Ikpeng, por exemplo, acreditam que a presença de pessoas durante a queima pode interferir na produção dos alimentos. No mito de origem da agricultura, Kuririku, dona da roça, recomenda que as pessoas vão “direto tomar banho no rio para esfriar o corpo”. Como a cada queima estes povos revivem o mito, é preciso respeitar as regras para garantir uma boa produção. Com o ressecamento da floresta, no entanto, não podem deixar a roça queimar sem supervisão — correndo risco do fogo sair do controle. Assim, passaram a vigiar as roças durante a queima. “Eles estão se adaptando à essa nova realidade. Esse é um exemplo de acordo comunitário para que não ocorram incêndios”, explica Ono.

Outro exemplo é o de Tuiat Kawaiwete, da aldeia Kwaryja, que está realizando plantios em momentos diferentes do que seus parentes costumavam fazer para testar a viabilidade e adaptação dos cultivares às novas condições ambientais. Em várias regiões os indígenas também começaram a testar outros tempos para queimar a roça e plantar os alimentos.

Além disso, o ISA e os indígenas introduziram novas técnicas de aceiros e a utilização de equipamentos de controle de incêndios — bombas costais e abafadores.

Esses acordos comunitários têm sido importantes mecanismos para construção de um diálogo interno sobre a problemática do fogo. Sendo um território compartilhado entre aldeias próximas e sob nova realidade ambiental, torna-se imprescindível estimular diálogos que possam contribuir para a construção conjunta de adaptações.

Wauja da aldeia Piyulewene observam área impactada pelo fogo. Na foto à direita, mutirão da aldeia Samaúma, dos Kawaiwete, faz abertura de aceiros. Fotos: Adryan Nascimento/ISA

De olho no fogo

O ISA, em parceria com os indígenas, vêm realizando o monitoramento dos focos de calor e índices de desmatamento no TIX e regiões do entorno a fim de entender o comportamento do fogo a partir das mudanças ambientais. Os dados, coletados em campo e por meio de imagens aéreas e via satélite, mostram que as iniciativas comunitárias de prevenção estão gerando resultados positivos.

Em 2017, contrariando a tendência na Bacia do Xingu, os índices de queimadas se estabilizaram no TIX. Neste ano, foram contabilizados cerca de 1.200 focos, praticamente o mesmo do ano passado. Os incêndios se concentraram no alto Xingu, por conta da presença de grandes áreas de campo e manchas de Cerrado, mais suscetíveis ao fogo.

Já na região do baixo e médio Xingu, a ocorrência de incêndios diminuiu. Isso se explica, em parte, pelo fortalecimento das ações comunitárias de prevenção.

Em 2015 essas iniciativas ganharam força no médio Xingu, por exemplo. Ali, os focos de calor foram reduzidos pela metade: de 107 em 2014 para 55. A tendência de diminuição foi comprovada nos anos seguintes, em 2017 apenas 16 focos de calor foram registrados na região.

Kawaiwete observam o histórico de incêndios no TIX. Na foto à direira, Tari desenha o mapa de planejamento de queima das roças. Fotos: Adryan Nascimento/ISA

[Acompanhe índices de degradação e focos de calor no De Olho no Xingu]

Cuidados com o ambiente

Para além das iniciativas de prevenção, os indígenas estão realizando experiências práticas de pesquisa sobre os impactos destas mudanças, relacionadas principalmente às alterações do clima, a fim de construir modelos de adaptação a elas.

Partindo de seus conhecimentos tradicionais e as suas percepções sobre as mudanças, os povos Wauja, Kawaiwete e Ikpeng estudam junto ao ISA, no âmbito do projeto “Fogo do Índio: Alternativas de manejo adaptadas às mudanças ambientais no Território Indígena do Xingu”, os impactos das queimadas em seus territórios.

À esquerda, Wauja fazem levantamento dos impactos dos incêndios. Ao centro, Kawaiwete fazem o mesmo estudo na aldeia Samaúma. Fotos: Marcus Schmidt

Desde 2015 o projeto avalia os impactos provocados pelos incêndios florestais e busca compreender em maior profundidade as transformações configuradas no TIX. O projeto contou com a participação de grande parte destas comunidades, entre agricultores, lideranças, jovens e alunos das escolas indígenas. “Os indígenas estão encontrando maneiras variadas de responder às mudanças ambientais e buscam retomar o equilíbrio do seu manejo com o tempo da floresta”, explica Marcus Schmidt, consultor do ISA que participou do projeto.

Kapé colhendo amendoim em sua roça. Foto: Manula Otero/ISA

Ao longo do trabalho, os indígenas realizaram uma série de levantamentos florestais participativos para dizer quais recursos naturais estão diminuindo com os incêndios. “Existem árvores que cuidam da terra e que ajudam ela ficar boa e com aparência de terra preta, mas por causa dos incêndios elas morrem e não nascem mais”, conta Kapé Kaiabi, anciã e agricultora experiente.

“Os resultados demonstraram que os incêndios alteram a estrutura florestal e comprometem principalmente as árvores adultas. Há também um estímulo à regeneração das plantas mais jovens. Mesmo que isto seja um bom indicador de recuperação das florestas, as espécies regenerantes são bastante diferentes da formação original”, explica Schmidt.

O grande desafio para esses povos é encontrar mecanismos que ajudem acelerar o processo de adaptação às mudanças no ambiente, afinando seus olhares e os “jeitos de manejar a floresta”. Essa forma de viver na floresta e manejar recursos e paisagens é a grande responsável pela preservação e manutenção da diversidade ambiental — dentro de um sistema de interação e diálogo com o ambiente, que por muito tempo foi capaz de transformar a fertilidade do solo.

Os povos do Xingu estão caminhando para encontrar novamente o equilíbrio em sua forma de usar o fogo e manejar a floresta reafinando o olhar para o tempo e os sinais da floresta. Com estratégias baseadas nos cuidados com o fogo e uso sustentável do território, os indígenas estão construindo modelos de recuperação e adaptação que poderão ser exemplos para além do Xingu.

Produção de mudas de Embira e Pindaíba, espécies impactadas pelos incêndios e muito utilizada na construção das casas. Fotos: Adryan Nascimento/ISA
A Embira (dir), muito utilizada para a construção de casas, foi levantada pelos indígenas como vulnerável aos incêndios. Fotos: Marcus Schmidt/ISA
Alunos Ikpeng da aldeia Moygu fazem levantamento dos impactos dos incêndios florestais. Fotos: Marcus Schmidt/ISA
Plantio de sementes florestais para recuperação das capoeiras na aldeia Piyulaga. Foto: Marcus Schmidt/ISA
Focos de calor e aldeias com iniciativas comunitárias no Território Indígena do Xingu, em 2017

Assista ao filme “Para onde foram as andorinhas”, em que os indígenas do Xingu contam como percebem os efeitos devastadores das mudanças climáticas sobre o ambiente.

E o filme “Fogo na Floresta”, documentário em Realidade Virtual feito junto aos Wauja, que conta os desafios enfrentados pela comunidade com o aumento dos incêndios

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