Elisa CappaiTavares/Greenpeace

Isolados até quando?

Instituto Socioambiental

Cineastas indígenas do povo Guajajara lançam documentário que alerta para o drama de seus parentes isolados Awá Guajá, da Terra Indígena Araribóia (MA), uma das mais ameaçadas da Amazônia

Por Clara Roman, jornalista do ISA
Fotos: Flay Guajajara/Mídia Índia e Elisa CappaiTavares/Greenpeace
Vídeo: Mídia Índia

“Aqui era área de invasão madeireira, e então tomamos posse do nosso território, e do território dos índios mais vulneráveis do mundo, que são os Awá Guajá”, explica Olímpio Guajajara, enquanto transita em uma área desmatada. Ao fundo, a mata que ainda resiste em pé na Terra Indígena (TI) Araribóia, na Amazônia maranhense. “Não podemos deixar a invasão tomar de posse o nosso território. Porque não há outro território para nós, se nós sairmos daqui”. A TI já teve 37.730 hectares desmatados. E a degradação florestal, que também inclui o roubo pontual de madeira, alcança 34% do território.

A cena faz parte do mini-documentário Ka’a Zar Ukize Wá - Os Donos da Floresta em Perigo, um grito de socorro para a grave situação dos índios isolados da etnia Awá Guajá, que compartilham a Terra Indígena Araribóia com seus parentes Guajajara. O curta-metragem de 13 minutos foi lançado nesta terça-feira (23/7) , na Unibes Cultural, encerrando a Mostra ISA 25 Anos de Cinema Socioambiental.

O filme é também uma ferramenta de mobilização para que os Guardiões da Floresta, grupo do qual Olímpio Guajajara é coordenador, recebam apoio para seguir trabalhando na proteção do território. São 120 guajajaras que lutam para proteger o que resta de mata em sua terra e garantir a existência de seus parentes isolados em ações de vigilância e monitoramento.

Os Awá Guajá dependem intrinsecamente da mata para sobreviver — da caça, da coleta, da água. Só que na Terra Indígena Araribóia essa floresta está sob grave ameaça. Em seu entorno, não sobrou nada em pé. Dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Maranhão já desmatou 46% de sua cobertura florestal. Nos seis municípios no entorno da TI, esse número é ainda maior: 52,5%. E é por isso que os madeireiros precisam entrar ilegalmente na Terra Indígena para roubar madeira, com o intuito de abastecer as serrarias da região e obter matéria prima para as estacas das fazendas desta área do estado.

Assista ao filme:

Alertas de desmatamento

O sistema de monitoramento de alertas de desmatamento do ISA registrou nos últimos dez meses uma média mensal de 517 alertas e mais de 1.200 km de ramais e trilhas de arraste de madeira ilegal no interior da TI.

Imagens feitas em operação dos Guardiões da Floresta, de combate ao desmatamento ilegal, em julho de 2019.

“A degradação da floresta pela exploração ilegal nesse território não é um processo novo. É responsável por ciclos de ressecamento e queimadas na floresta, que afetam severamente a produção de alimentos e manutenção dos recursos hídricos. E, na Araribóia, estamos chegando a um ponto de não retorno da mata”, afirma Antonio Oviedo, pesquisador do ISA.

“Na Araribóia, estamos chegando a um ponto de não retorno da mata”

Além de detalhar a situação de extrema tensão e conflito na Araribóia, o mini-documentário apresenta as imagens de um encontro inesperado. Em agosto de 2018, alguns guajajaras se encontraram com um grupo de Awá Guajá durante uma caçada na mata. A caça seria consumida durante as festas da Menina Moça, cerimônia tradicional que demarca a passagem das meninas para a adolescência. Só que, no meio da expedição de caça, os Guajajara se depararam com o acampamento de seus parentes isolados.

O encontro foi registrado pelo cinegrafista Flay Guajajara, membro do Mídia Índia, um coletivo de comunicadores indígenas de diversas etnias. Flay dirige o documentário em parceria com Erisvan e Edivan Guajajara, que também compõem o coletivo.

Edivan, Flay, Erisvan e Olimpio Guajajara | Rafael Hupsel/ISA

Vulnerabilidade extrema

Os Guajajara sempre respeitaram a vontade de seus parentes Awá Guajá de não serem contatados nem importunados em seu isolamento. Mas as imagens do curta-metragem servem para alertar o mundo sobre a situação de vulnerabilidade desses índios que, a qualquer momento, podem ter um encontro inesperado, não com seus parentes, mas com caçadores ou madeireiros que não querem a sua presença ali. O desfecho, no caso dessa hipótese se realizar, pode ser trágico.

Cenas do filme Ka’azar Ukize Wà — Os Guardiões da Floresta em Perigo|Flay Guajajara-Mídia Índia

“É uma sobrevida que esses isolados estão vivendo. A fome, a sede, a tristeza, a falta de parente, a falta de cônjuges. A necessidade de calar as crianças porque o grito delas pode alertar para pessoas que queiram matá-los”, explica Uirá Garcia, pós-doutor em antropologia e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). As análises do desmatamento feitas pelo ISA mostram que as frentes de exploração ilegal de madeira encontram-se cerca de 5 km do acampamento registrado no filme.

Se nada for feito para interromper o ciclo de invasões e exploração na TI Araribóia, o contato indesejado ou a morte iminente serão os desfechos mais prováveis para um povo que resiste há séculos para viver em paz, no interior da floresta. “Essas pessoas, cujas imagens foram capturadas, se assustaram com a aproximação. Isso demonstra o grau de vulnerabilidade e ameaça pelo quais eles estão passando. Esse povo precisa desse território livre, protegido, para continuar existindo”, afirma Sônia Guajajara, liderança da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), em depoimento no documentário.

“ Esse povo precisa desse território livre, protegido, para continuar existindo”

Filmado por jovens cineastas Guajajara, o documentário foi realizado em parceria com o ISA e Instituto Catitu, e contou com o apoio da ONG Survival International e da organização If not us, then who?.

Cenas do filme Ka’azar Ukize Wà — Os Guardiões da Floresta em Perigo|Flay Guajajara-Mídia Índia

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