O céu pode cair, mas os Yudjá resistem

A 5ª Canoada Xingu reuniu mais de 100 participantes para ver de perto a luta de indígenas e ribeirinhos na Volta Grande do Xingu (PA), região impactada pela UHE Belo Monte

Com a diminuição do volume de água no rio Xingu, os Yudjá têm que empurrar suas canoas por uma área seca para voltar a remar. Foto: Marcelo Soubhia/ISA

Por Victoria Franco, jornalista do ISA

Pacu, curimatá, farinha de mandioca, arroz, feijão, legumes. Depois de um dia inteiro de remada desde a aldeia Mïratu, dos Juruna (ou Yudjá), até a cachoeira do Jericoá, sagrada para este povo, os participantes da Canoada Xingu 2018 concentravam-se em torno de uma mesa de madeira extensa, onde repousavam alimentos recém-preparados pelas mulheres indígenas. Entre as garfadas de comida que conduzia à boca do seu pequeno Emerson, Cláudia Juruna anunciava que o dia seguinte iria clarear em meio à chuva: “se você prestar atenção, vai ouvir os sapos cantando. Isso acontece quando está para chover”.

Emerson, filho de Cláudia Juruna, na aldeia Mïratu, localizada na Terra Indígena Paquiçamba (PA). Foto: Marcelo Soubhia/ISA

A previsão de Cláudia se tornou realidade em poucas horas: o amanhecer daquele 8 de setembro, o último dia da Canoada Xingu, foi marcado por ventos fortes que levantavam areia, sacudiam as barracas dos participantes e conduziam gotas largas de chuva despejadas do céu e incorporadas ao rio. O cenário relembrava a tempestade acentuada em uma das narrativas míticas do povo yudjá: a história da segunda queda do céu.

É a partir do contato destrutivo dos brancos que o céu costuma cair. O primeiro dos três céus que formam a terra, em um cosmos de quatro andares, teria desmoronado quando os europeus chegaram à região do baixo Xingu, no século 17. O segundo se acabou dois séculos depois, quando o baixo Xingu foi tomado pela corrida da exploração da borracha, levando uma onda de genocídio ao local e enraivecendo Senã’ã, o criador. Toda vez que Senã’ã sentia saudade dos povos que viviam à beira do rio Xingu, subia em seu mirante para espiá-los. Mas teve um certo dia, num passado recente, em que o criador foi procurar os Yudjá e não avistou nenhum sequer. Os brancos haviam destruído tudo: sumiram os Yudjá e, com eles, foi-se o rio. Num reflexo de fúria, Senã’ã quis exterminar também os brancos, derrubando, então, o segundo dos três céus.

A história narrada permite uma inversão que foge à obviedade: não são apenas os Yudjá que necessitam do rio Xingu, mas o rio Xingu também necessita dos Yudjá. Inversão já proposta desde o primeiro dia da Canoada, pela agente de saúde Bel Juruna, e que ganhou materialidade depois de passarmos uma semana acompanhando a íntima relação entre os Yudjá e o rio. “O rio Xingu, sem os Juruna, não é o rio Xingu”, Bel disse.

Na primeira foto, vista aérea das canoas durante a expedição. Na segunda foto, em pé, da esquerda para a direita: Gilliarde Juruna, cacique da aldeia Mïratu, e Romildo, liderança da aldeia Furo Seco, em reunião preparatória para a remada. Fotos: Marcelo Soubhia/ISA

A Canoada Xingu, expedição que permitiu essas reflexões, é uma iniciativa das três associações das aldeias da Terra Indígena Paquiçamba (PA) e do Instituto Socioambiental (ISA). Desde sua primeira edição, em 2014, a atividade pretende alertar sobre os impactos da Usina Hidrelétrica (UHE) Belo Monte no fluxo das águas, nas florestas e na vida das populações que dependem do rio para viver.

Neste ano, a expedição aconteceu entre os dias 3 e 8 de setembro e levou 107 pessoas para sentir na pele a diversidade socioambiental e as belezas da Volta Grande, mas também as consequências devastadoras que a quarta maior hidrelétrica do mundo trouxe para a região. Para a participante Katia Ribeiro, que saiu de Brasília para conhecer o Xingu, “a maravilhosa oportunidade de participar da Canoada com os Yudjá e com tantas pessoas dispostas a entender o que é o contexto da instalação de Belo Monte permitiu a humanização das ilhas, pedras e curvas do rio, no sentido de que esse rio, cada pedaço dele, é pleno de história e de significado para as pessoas que vivem nele, que vivem dele, que vivem com ele”.

Adê, ribeirinho da Ilha da Fazenda, rema na Canoada Xingu em área alagada pela construção de Belo Monte. Foto: Marcelo Soubhia/ISA

A queda do terceiro céu

Céu nublado em trecho da Canoada Xingu. Foto: Marcelo Soubhia/ISA

Depois de duas quedas do céu, sobrou apenas um. E ele está ameaçado: o barramento do rio Xingu em 2015 alterou a quantidade, a velocidade e o nível de água na região. Alterou o pulso sazonal de cheias e secas do rio e, com ele, uma série de relações humanas e não-humanas foram modificadas. Depois de Belo Monte, morrem sarobais, uma vegetação típica de beira-rio; tracajás apodrecem vivas; o rio seca em alguns trechos e os frutos das árvores que alimentam espécies como o pacu caem no seco, tirando o sustento do peixe, que é a base do sustento dos Yudjá e dos ribeirinhos na região. “Se o pacu não tiver fruta para se alimentar, ele emagrece. A gente consumia bastante ele, mas agora parou”, testemunhou Romildo Juruna, da aldeia Furo Seco.

O próprio percurso da expedição pelo Xingu não foi feito só de remadas. Em alguns momentos, os participantes tiveram que deixar as canoas e empurrá-las pelos pedrais, o que é comum na época de seca do rio. Mas, agora, existem pedras no caminho em outros períodos do ano também. Para as comunidades que vivem no rio, alterar o fluxo do Xingu é alterar o fluxo de todo um modo de vida. Antes do barramento, por exemplo, o consumo de peixes na aldeia Mïratu era de 56% e passou para 32% em 2017; enquanto isso, o consumo de produtos da cidade, que se limitava a 25%, chegou a 60%.

Isso derivou em consequências alarmantes para a segurança alimentar dos Yudjá e dos ribeirinhos na região: “É um impacto que vai puxando o outro. A gente tinha que se alimentar de alguma forma. Então além da falta do peixe, era a falta de tempo. Nossa vida passou a ter muitas reuniões, a gente ficou sem muito tempo para pescar e foi suprindo nossa alimentação com produtos da cidade. Mas isso nos preocupa muito, fez crescer o índice de doenças, que não tinha antes”, alertou Bel.

Nas duas fotos à esquerda, os Yudjá empurram suas canoas por área seca para voltar a remar. À direita, acari morto em uma das ilhas que teve casas demolidas para dar espaço à área alagada pela construção de Belo Monte. Fotos: Marcelo Soubhia/ISA

Os peixes mais avistados durante boa parte do trajeto da Canoada Xingu foram os acaris, ou cascudos, que se alimentam do musgo das pedras, e que se tornaram, com a diminuição da população de peixes frutíferos, mais frequentes nos pratos dos Yudjá. O acari, que vive nas corredeiras, passou então a ser capturado durante o ano inteiro pelos indígenas, inaugurando um padrão que não existia com o curso de inundação natural do rio. “Temos que alertar para a sobrepesca do acari. Se a gente ampliar essa mudança no padrão da pesca para as demais comunidades, vamos verificar que um ano muito seco vai ter uma sobrepesca de algumas espécies e um impacto direto sobre elas”, destacou Cristiane Carneiro, bióloga e técnica do Ministério Público Federal (MPF).

Para Seu Agostinho, ancião da aldeia Mïratu, a Canoada é um momento importante para que essas modificações provocadas na região sejam ouvidas e percebidas para além dos que vivem na Volta Grande: “É diferente você ler e você ver. Porque, aqui, você viu. E eu estou lhe contando, mas você está vendo também. Você está junto comigo. Olha no olho. Está sentindo junto”. Seu filho, o cacique Giliarde Juruna, concorda: “isso deixa a gente com mais força para lutar porque sabemos que não estamos lutando sozinhos”.

Seu Agostinho no Jericoá, complexo de cachoeiras sagradas para os Yudjá. Marcelo Soubhia/ISA

Destruição até depois do fim do mundo

O que vemos de transformações no Xingu durante a Canoada pode se agravar ainda mais. Por meio do “Hidrograma de Conflito” ou, como é chamado pela Norte Energia, “Hidrograma de Consenso”, a concessionária de Belo Monte irá controlar o volume de água que passará pelas comportas da usina, descendo pela Volta Grande.

Em 2016, um ano após o barramento do rio, os Yudjá viveram um ciclo que apelidaram de ano do fim do mundo. Os indígenas registraram as mudanças devastadoras na região e comprovaram que os peixes e a navegabilidade do Xingu já foram extremamente impactados, mesmo com um volume de água superior ao proposto pelo hidrograma. Saiba mais aqui.

De “consenso”, o hidrograma não tem nada: foi acordado somente entre diferentes áreas da Norte Energia e não com quem de fato depende do rio para viver — as comunidades atingidas — e outras organizações da sociedade.

O cacique da aldeia Mïratu, Gilliarde Juruna, alerta: “2016 foi um ano que não teve cheia, então não teve como os peixes desovarem. Os peixes não engordaram e a gente não tinha como se alimentar deles. Se nesse ano a gente já passou dificuldade para sobreviver, para se alimentar, imagine com esse hidrograma fechando a torneira”.

Os povos no Xingu já comprovaram que o hidrograma, do jeito que foi proposto, coloca em risco as diversas formas de vida na região. Eles exigem que a medida seja revisada e que seus testes sejam imediatamente cancelados. E não é por acaso que os Yudjá pedem isso: durante quatro anos, eles reuniram dados e reflexões sobre os atuais e os futuros impactos do barramento do rio. Desde 2013, realizam um rigoroso monitoramento dos recursos pesqueiros e da segurança alimentar. Bel Juruna explica que a iniciativa surgiu da necessidade de se contrapor aos dados fornecidos pela Norte Energia: “Um monitoramento que nós não temos acesso e, quando temos, não entendemos. A Norte Energia sempre relatava que não estava havendo impacto na Volta Grande, mas a gente já sabia o que estava acontecendo com nossas vidas”.

O trabalho dos Yudjá, realizado em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA) e o ISA, virou livro e foi apresentado nesta edição da Canoada. “A ameaça aos modos de vida ficou absolutamente explícita e compreensível. É preciso fortalecer a luta por um regime hídrico mais democrático na Volta Grande do Rio Xingu”, disse a participante Katia Ribeiro.

Os Yudjá e seus parceiros acreditam que ter seu próprio monitoramento da região é importante para qualificar e ampliar os espaços de decisão sobre o futuro de tudo e todos na Volta Grande Xingu. Biviany Rojas, advogada do ISA, reafirma que a ação faz parte de um esforço para não deixar que Belo Monte seja tida como um fato consumado. “A conta não fechou ainda”, diz ela. O Ministério Público Federal acompanhou a Canoada deste ano e produzirá um relatório sobre as denúncias feitas pelos indígenas.


Outras ameaças, como a instalação da mineradora canadense Belo Sun, ainda pairam sobre o Xingu. A maior mina de ouro a céu aberto do Brasil quer se instalar a apenas 9,5 km da Terra Indígena Paquiçamba, na Ilha da Fazenda, onde vivem comunidades ribeirinhas da Volta Grande — a mesma região que percorremos durante a Canoada. Bel critica:

“O nosso ouro não é essas toneladas que eles querem tirar. O nosso ouro é a nossa floresta, é o nosso rio, é a nossa cultura, é o nosso modo de vida, é a nossa segurança. É estarmos aqui e termos uma segurança para os nossos filhos também estarem aqui, adultos, com os filhos deles, com os netos deles. É esse o nosso ouro”.

A liderança lembra que os Yudjá construíram um Protocolo de Consulta e exige que o documento seja levado em consideração, respeitando o direito ao Consentimento e Consulta Livre, Prévia e Informada. Ela reitera que seu povo vai lutar pela garantia de seus direitos até o fim, antes que o céu caia outra vez.


Quando a vida vira recurso

Se o rio é a terra dos Yudjá, resta concordar com a antropóloga Tânia Stolze Lima, convidada pelos indígenas a participar da Canoada: “é praticamente certo que Belo Monte representa a terceira grande onda de genocídio da qual os Yudjá são vítimas”, disse ela. Os custos socioambientais da hidrelétrica foram reconhecidos pelo grupo de pesquisadores que esteve presente na viagem pelo Xingu: biólogos, antropólogos, geógrafos e advogados compartilharam percepções sobre os impactos do empreendimento.

À esquerda, participantes avistam barragem no rio Xingu. À direita, vegetação morta em área alagada por Belo Monte. Fotos: Marcelo Soubhia/ISA

Stolze Lima avalia que, nesse processo, algo muito cruel ocorreu: o rio passou a ser igualado, pela concessionária da usina, a um recurso para os índios e para a geração de energia. É a partir disso que se pensaram as mitigações do barramento e, por isso, elas são insuficientes e ineficientes. “O rio Xingu nunca foi recurso para os Yudjá. Eles seguem o movimento, seguem o fluxo. Seguem a fruta, o acari, o curimatá. Isso permite entender porque que se diz que os índios preservam a natureza. De fato, eles preservam a natureza porque a economia indígena é uma parte desses movimentos que são multiespecíficos”, conclui a antropóloga.

Seu Agostinho se entristece profundamente com o que Belo Monte já destruiu no Xingu e com as ameaças pulsantes: “isso é tomar, invadir, passar por cima igual a um trator”. Stolze Lima, diante de todas as transformações provocadas na região e na vida dos Yudjá, diz sentir vergonha: “é a vergonha de se ser humilhado, de se ser ultrajado. É bom sentir vergonha. É a vergonha do mundo. Sem brincadeira: eu acho que nós temos razão para sentir vergonha pelos peixes”.

Sentir vergonha pelos peixes é admitir, como valoriza Biviany Rojas, que a luta em apoio aos Yudjá e aos ribeirinhos no Xingu é uma luta comum: “Não trabalhamos para os índios. Somos parceiros de uma luta comum. A existência plena e legítima dos Juruna faz nossa sociedade melhor como um todo”.

O professor Natanael Juruna sinaliza que não há mitigação que se compare à vida perdida no rio: “o que nós queremos é algo bem simples: que a gente tenha o rio como era antes. Pelo menos para nós parece ser simples. Mas não para os brancos, que pensam toda gotinha do rio como lucro, como uma renda e não leva em conta que aqui, nessa região, existem povos que dependem desse rio”.

Civilização de canoeiros

Dona Jandira Juruna na casa de farinha da aldeia Mïratu. Foto: Marcelo Soubhia/ISA

Dona Jandira, anciã da aldeia Mïratu, executava um movimento com o remo diferente daquele que os participantes da Canoada haviam aprendido até então: inclinava-o na horizontal, na altura da cintura, e o erguia em discretos movimentos para cima. Se estivesse no rio, o movimento serviria apenas para jorrar água sobre a canoa — e ela saberia disso. Mas na Casa de Farinha, destino de uma das trilhas feitas no quarto dia da Canoada, Dona Jandira mostrava que o remo, para um povo canoeiro como os Yudjá, os acompanha até na cozinha.

Se Dona Jandira tinha pleno domínio do movimento que executava com o remo diante das panelas de torrar farinha, seu filho, Natanael Juruna, fazia o mesmo nas águas, como proeiro de uma das 15 canoas que embarcaram na expedição. Questionado sobre a intimidade entre os Yudjá e o instrumento, Tana, como é conhecido, declarou: “é difícil a gente explicar o que acontece de maneira tão natural. Parece que não se tem muito uma explicação. Desde a nossa criação, Senã’ã mesmo disse que nós íamos ser um povo que viveria sempre do rio. A gente sabe quando e onde os peixes desovam, qual é o tipo de alimentação que eles precisam, em que meses eles precisam se alimentar. É algo que a gente aprende de forma muito natural. Então essa ligação com os peixes e os outros seres vivos da água, eu posso até dizer que é algo que a gente nasce com isso”.

Criança yudjá pula no rio Xingu. Foto: Marcelo Soubhia/ISA

O marido de Dona Jandira e pai de Tana, Seu Agostinho, acredita que para nós, estrangeiros, conseguirmos compreender essa ligação com o rio, é preciso mais do que ler e pensar sobre ela. É preciso observar quem tem a vida guiada pelas águas: “a importância do rio para nós é uma coisa muito grande para falar. O rio é a nossa identidade: acabou ele, acabou nós. É igual morrer”.

Não restam dúvidas de que os Yudjá são um povo do rio. Mas eles nem sempre foram o único povo do rio que vive no Xingu. Quando Senã’ã derrubou o segundo céu, desapareceram da região não somente os Yudjá, mas toda uma civilização de canoeiros: os Peapaya, Arupaya, Takunhape, Aoku e Takumandïkay. Os Yudjá resistiram e guardam, até hoje, as histórias de dezenas de povos extintos no Xingu. Eles são mais do que um povo indígena com uma resistência surpreendente; são a memória viva de uma civilização inteira que, sem eles, cairia em desconhecimento. Memória essa que atravessou duas quedas do céu, um fim de mundo em 2016 e que não irá perecer agora, com Belo Monte.

Emerson, filho de Cláudia Juruna, na aldeia Mïratu. Foto: Marcelo Soubhia/ISA
Crianças yudjá na aldeia Mïratu. Fotos: Marcelo Soubhia/ISA
Mulheres da aldeia Mïratu preparam refeição para participantes da Canoada. Foto: Marcelo Soubhia/ISA
À direita, Marizan Félix Juruna ajuda a colocar peixes na folha de bananeira para assar. Foto: Marcelo Salazar/ISA. À esquerda, peixes preparados pelos Yudjá para refeição na Canoada. Foto: Marcelo Soubhia/ISA
À esquerda, o professor da aldeia Mïratu Natanael Juruna. À direita, Anita Juruna, filha do cacique Gilliard, pinta jovem yudjá. Fotos: Marcelo Soubhia/ISA
À esquerda, o cacique Gilliard Juruna, da aldeia Mïratu. Nas duas imagens à direita, homens e mulheres yudjá dançam durante a Canoada Xingu. Fotos: Marcelo Soubhia/ISA
Arco-íris depois de tempestade na Canoada Xingu. Foto: Marcelo Soubhia/ISA