Urias Morato (esq.) e o filho Eulisses em puxirão na roça de milho. "Nós lutamos tanto por isso aqui porque isso aqui pra nós é a coisa mais bonita que tem.”

Trabalha junto, festeja junto

A tradição quilombola do Vale do Ribeira (SP) que é patrimônio do Brasil

Por Roberto Almeida, jornalista do ISA
Fotos: Claudio Tavares/ISA
Vídeo: Manoela Meyer

A roça de milho de Urias Morato e de seu filho, Eulisses, fica no topo de um morro do quilombo São Pedro, Vale do Ribeira (SP). Chove tanto, a lama corre com força, no meio do caminho riachinho virou ribeirão, para eles não importa. Quebrar milho com os companheiros, fazer puxirão e festa, é cuidar do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, agora patrimônio cultural brasileiro.

“Ainda tem pessoas que falam que os quilombos são vagabundos, né. As pessoas da cidade falam que nós somos vagabundos”, desabafa Urias, espigas de milho nas mãos, uma hora de caminhada depois, tapete de Mata Atlântica ao fundo. “Vocês estão vendo aqui o que nós estamos fazendo.”

As tarefas na roça às vezes requerem a ajuda dos companheiros. O puxirão (ou mutirão) é uma expressão da tradição que os quilombolas têm de ajudar uns aos outros no campo.
Urias e o fruto do puxirão: o cesto com espigas de milho de sua roça.

Os companheiros seguem na quebra do milho. Reúnem as espigas, conversam. Urias continua: “Eu me sinto feliz, eu tenho orgulho do que a gente faz. A roça é uma parte da minha vida. Parte da cultura nossa. Da cultura dos nossos avós, dos nossos pais. Do quilombo, né?”

Postado ao seu lado, Eulisses, filho de Urias, se emociona. “É difícil hoje em dia você ver, né, um jovem trabalhando junto com o pai na roça. Nós lutamos tanto por isso aqui porque isso aqui pra nós é a coisa mais bonita que tem.”

Aos poucos, a pilha de espigas aumenta e o puxirão chega ao fim. Da roça ao trator, mesmo com a carga extra, a caminhada parece mais leve. O grupo de quilombolas, mais de 10, junta-se na carreta e se diverte com a sensação de dever cumprido, outros sete quilômetros chacoalhando na estrada de terra.

No Centro Comunitário do Quilombo São Pedro, todos são recebidos com aplausos. O dia é longo, a festa começa cedo. E ainda vai ter baile e comida para a noite toda.

Assista ao vídeo que conta essa história:

Poesia com certificado
O Centro Comunitário do Quilombo São Pedro tem uma ampla cozinha. Nas caixas, bancadas e panelas, abóbora, mamão verde, banana, cará, mandioca e folhas. Tudo é oferecimento dos quilombos da região do Vale do Ribeira, produção sem agrotóxicos, muitos com certificação orgânica.

Dentre as cinco cozinheiras do dia, a mais jovem é Daniela Joana de França, 26 anos, que tentou a vida como empregada doméstica em Curitiba (PR). Desistiu.

Daniela (esq.) prepara o almoço para as comunidades. “Aqui é o meu aconchego.”

“Hoje eu não tenho a menor vontade de voltar pra cidade porque aqui é o meu aconchego”, disse. A filha Lorena, de quatro anos, sempre rondando, passa mordiscando um virado de banana, prato típico quilombola com banana nanica e farinha de milho.

“Tudo o que tem hoje aqui [para cozinhar] foi por intermédio de doação das pessoas de outras comunidades quilombolas, onde elas trabalham e cultivam seus alimentos”, diz Daniela. “Na necessidade, a gente não precisa comprar. E, além do mais, são coisas saudáveis, não têm nada de agrotóxico.”

A abóbora para fazer quibebe veio do quilombo Porto Velho. O arroz pilado dos quilombos Nhunguara, Abobral Margem Esquerda e Pedro Cubas. E assim por diante. O boi, não. O boi quem mandou matar foi Urias, o dono da roça de milho, do quilombo São Pedro mesmo, para incrementar a celebração.

A Cooperquivale, cooperativa dos quilombolas, sofre com o sucateamento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do governo federal, cuja finalidade é incentivar a agricultura familiar. Em 2019, o governo não comprou um produto sequer da cooperativa.

Se cada comunidade ofereceu alguma coisa, Leonila Priscila da Costa Pontes, do quilombo Abobral Margem Esquerda, tinha na manga um poema para recitar.

O texto é inspirado em setembro de 2018, mês importante na história dos quilombos do Vale do Ribeira. Ele marca a data em que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola como patrimônio imaterial do Brasil.

Leonila faz a leitura de seu poema sobre o Sistema Agrícola Quilombola e o Iphan em uma casa de farinha no quilombo São Pedro.

O título?

“Reconhecido pelo IPHAN como patrimônio cultural brasileiro, a roça de coivara”.

Pelo IPHAN reconhecido
alegres vamos festejar
a roça de coivara quilombola
não podemos descansar.

Não ficar adormecido
a voz de Zumbi diz
que não podemos parar
muitas vezes amedrontado e esquecido
mas não se pode desanimar.

Com fé, força e ardor,
com muita união,
por isso é que eu digo:
lutar sempre em mutirão.

Quilombola sempre foi soldado
que cedo ao trabalho sai
cuida pelo seu roçado
não pode descuidar
tudo tem tempo marcado
na hora de plantar.

Se não fossem esses abnegados
o povo da cidade não iria se alimentar
se ele planta atrasado
a vaca vai pro brejo
porque arroz e feijão
ainda não vi fabricar.

Olha firme o infinito
acredita no Deus pai
pede a ele proteção
que nunca falte o pão
em cada mesa de um lar
para que cada família
possa a fome saciar.

Cuidar do patrimônio
Para que cada família a fome possa saciar, a festa quilombola continuou noite adentro e Deyvesson Gusmão, coordenador-geral de Patrimônio Imaterial do IPHAN, entregou a representantes de 10 comunidades do Vale do Ribeira um certificado confirmando o registro do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola como patrimônio imaterial.

Deyvesson Gusmão (esq.), do Iphan, entrega certificado a João Fortes, do quilombo Bombas. Foto: Raquel Pasinato/ISA

O desafio, agora, é salvaguardar esse patrimônio. Isto é, mantê-lo vivo. Um trabalho permanente para garantir o território e transmitir o conhecimento para as novas gerações, sempre tentadas a buscar a vida nas cidades próximas. Reverter o êxodo é possível por meio do orgulho e da ancestralidade. Assim acreditam os quilombolas.

Em dezembro de 2018, os quilombolas entregaram 7,5 mil assinaturas da campanha #TáNaHoradaRoça ao governo de SP para garantir o direito de fazer suas roças tradicionais.

“Em casa de pai e mãe sempre se encontra o que o comer”, resume Antonio Jorge, do quilombo Pedro Cubas. “As crianças não devem ficar longe desse conhecimento, vamos lutar por ele”, acrescenta João Fortes, do quilombo Bombas. “As crianças devem estar juntos dos pais para comer e beber, sentir o sabor dos alimentos, malhar arroz, ouvir histórias de escravidão, de caça, de pescaria, noites de contação de histórias em família.”

Oportunidades de troca entre avós, pais e filhos serão criadas. Estão no calendário deste ano a 12ª Feira de Troca de Sementes e Mudas dos Quilombos do Vale do Ribeira, que reúne comunidades quilombolas, indígenas e caiçaras do Vale do Ribeira (saiba mais), e a realização de mais puxirões em diversas comunidades.

Quanto mais gente junta, trabalhando junto, mais história para contar.

“A gente fica aqui relembrando como se fazia roça, como se comia o alimento, como se estocava o alimento, como se vendia o alimento, como se engordava porco, como se usava a banha. Eu queria que as crianças acompanhassem mais nosso trabalho. Aqui, de fome, ninguém nunca morreu. E nem vai morrer”, afirma João Morato, do Quilombo São Pedro.

Maria Morato (esq.) e Cristina Américo, do Quilombo São Pedro, dançam ao som do Grupo Cultural Puxirão Bernardo Furquim.