Marquinhos Xipaya coleta e carrega castanhas em um paneiro na terra indígena. Foto: Lilo Clareto/ISA

Valorizando os velhos, inspirando os jovens

Semana do Extrativismo na Terra do Meio, no Pará, é marcada por forte presença indígena, safra recorde de castanha e fortalecimento da produção de borracha

Por Ariel Gajardo e Roberto Almeida, do ISA
Fotos: Lilo Clareto/ISA

Os povos Xipaya, Curuáya, Xikrin, Yudjá e Arara uniram-se aos beiradeiros das Reservas Extrativistas Rio Xingu, Rio Iriri e Riozinho do Anfrísio, no Pará, pela valorização do conhecimento tradicional, do extrativismo, da economia da diversidade socioambiental, da transparência e da autonomia.

Como disse Kwazady Xipaya, o caminho a ser seguido está desenhado. “A gente viu o exemplo dos extrativistas crescendo em uma atividade que a gente falou: está funcionando! Eles usam os recursos da floresta que estão garantindo a sustentabilidade daquele povo, garantindo a permanência dos jovens e velhos dentro da comunidade.”

E completou com um chamado às comunidades indígenas: “Bora fazer?”

O chamado de Kwazady foi presenciado por empresários e parceiros na V Semana do Extrativismo (SEMEX), evento anual que mantém firme a construção de pontes de acesso entre a produção das comunidades e mercados justos.

Realizada em maio deste ano, a quinta edição da SEMEX teve uma novidade. Pela primeira vez, foi realizada em terra indígena — a Terra Indígena Xipaya, às margens do rio Curuá. Nos últimos quatro anos, a reunião acontecera nas Reservas Extrativistas do Riozinho do Anfrísio, Iriri e Xingu.

Crianças e adultos participaram da V Semana do Extrativismo na aldeia Tukayá, seja com brincadeiras ou nas festas e danças ao final das oficinas e atividades. Fotos: Lilo Clareto/ISA

Mais de 150 participantes acompanharam as reuniões e oficinas que trouxeram mais para perto, em cinco dias, os horizontes comuns. Os laços entre indígenas e beiradeiros foram estreitados. Todos unidos por uma estratégia comum de produção e comercialização para seus territórios.

“Vimos que a demanda dos ribeirinhos [beiradeiros] é a mesma dos indígenas. Até porque vive das mesmas coisas e produz as mesmas coisas. A diferença é a cultura. Mas cultura você não vende”, afirmou João Carlos Xipaya, cantineiro da aldeia Tukayá.

Hoje, beiradeiros e indígenas são protagonistas da produção de uma cesta de mais de 10 produtos. Borracha, castanha, óleos, farinhas e sementes florestais que encontraram parceiros compradores que, por sua vez, prezam pela sensibilidade, pela transparência, pela garantia de origem e pela qualidade.

Saiba mais sobre essa história no vídeo sobre a V SEMEX abaixo.

Das distâncias, a confluência

Em um enorme mosaico de terras protegidas como a Terra do Meio (PA), com seus 8,5 milhões de hectares — quase o tamanho do estado de Santa Catarina –, a articulação entre povos da floresta que moram tão apartados entre si, a dias de distância em trajetos sinuosos pelos rios Xingu, Iriri, Curuá e tantos outros, parecia um pequeno ponto no horizonte.

Some-se a isso uma região repleta de solavancos e inseguranças. Os ribeirinhos, ou beiradeiros, como preferem ser chamados, passaram pela ascensão e o declínio da borracha, o sistema de patrões e regatões e a recente criação das Reservas Extrativistas, sempre sob ameaça. Povos indígenas passaram por crises profundas no contato com o não-indígena, lutaram pela demarcação de suas terras.

Sob o céu estrelado na aldeia Tukayá, na Terra Indígena Xipaya (PA), a tenda central de reuniões onde, às noites, aconteciam as danças Xipaya, na programação da V Semana do Extrativismo. Foto: Lilo Clareto/ISA

Todos, ainda hoje, sofrem com os impactos da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, com o garimpo, com a grilagem e com o roubo de madeira que botam pressão sobre seus territórios.

Se há distâncias, ameaças e pressões, há também um marco de união que acontece todos os anos, desde 2014, e que marca o calendário dos povos da Terra do Meio: a Semana do Extrativismo. Um evento único que olha estrategicamente para o futuro da região, com a participação das comunidades locais, parceiros e empresários.

Hoje, os indígenas reconhecem que sua luta é a mesma luta dos beiradeiros. Ambos desejam gerar renda em seus territórios e transmitir os ensinamentos dos mais antigos para as próximas gerações.

O fazer da Rede de Cantinas da Terra do Meio

Fazer, como diz Kwazady Xipaya, é dar continuidade a um modelo que vem dando certo: a Rede de Cantinas da Terra do Meio.

As cantinas são coletivos de beiradeiros, indígenas e pequenos agricultores organizados para a produção e comercialização de produtos dos povos da floresta.

Esses coletivos gerenciam capital de giro próprio que viabiliza essa produção e comercialização de forma transparente e autônoma. Estão espalhadas em toda a região da Terra do Meio e baixo Xingu. As miniusinas agregam mais valor aos produtos dos povos da floresta e aliam conhecimento tradicional e inovações tecnológicas.

Hoje, elas formam uma rede de 22 cantinas espalhadas pela Terra do Meio, tanto em Terras Indígenas como Reservas Extrativistas. São 8 miniusinas de processamento multiprodutos e 44 paióis de estocagem. Além disso, há 9 casas da borracha e 153 estradas de seringa reabertas. E mais cantinas estão por vir, a começar pelo interesse dos Yudjá da Volta Grande do Xingu.

Crianças brincam e paiol e trabalho de descasque da castanha: interesse ampliado nas soluções para agregar valor aos produtos que saem da Terra do Meio. Fotos: Lilo Clareto/ISA
Os irmãos Marlon Sandro Araújo Rodrigues (atrás) e José Andrade Araújo Rodrigues (na frente) chegam à comunidade Rio Novo, na RESEX Rio Iriri, trazendo sacos de castanha. Foto: Lilo Clareto/ISA

“A distância que a gente percorreu [para chegar à aldeia Tukayá] não é nada para o tamanho das coisas que a gente aprendeu. A gente quer se inserir na Rede de Cantinas, com certeza vai dar certo com a gente também!”, contou Bel Juruna, representante da Associação Yudja Mïratu da Volta Grande do Xingu (Aymix).

A Rede de Cantinas tem mostrado seu potencial como importante propulsor para alavancar a geração de renda para as comunidades e transformar as vidas nas Reservas Extrativistas e nas Terras Indígenas.

Além do salto nos valores negociados entre 2009 e 2018, que bate na casa de R$ 1,8 milhão, as cantinas já acumulam um capital de giro que hoje passa dos R$ 500 mil. Dos contratos assinados com grandes compradores da Rede, um total de 3,7 toneladas de farinha de babaçu foram vendidas para as merendas de escolas de municípios na região de Altamira; 1,5 tonelada de óleo de copaíba para a empresa de perfumaria Firmenich e mais de 8 toneladas de borracha para a empresa Mercur.

Além disso, em ano de safra recorde de castanhas, 330 toneladas do produto foram vendidas para a Wickbold, Fundação Somos Um e o mercado local.

Para Marcelo Salazar, do Instituto Socioambiental, a Rede de Cantinas tem o potencial de reinventar as cadeias produtivas da região, colocando os produtos da floresta, gerenciados por indígenas e extrativistas, em outro patamar de valor.

Quem coleta e beneficia o produto ganha mais, há mais transparência nas informações e os consumidores podem conhecer melhor de onde vem os produtos e o contexto dos povos que os produzem. Ampliar as opções de produtos comercializados e o valor desses produtos possibilita também ações de gestão do território e manutenção dos modos de vidas dos que ali vivem.

Transparência, sensibilidade e inovação

Para beiradeiros e indígenas, as Semanas do Extrativismo são oportunidades para apresentar a empresários e parceiros seu trabalho, o manejo dos produtos da floresta e seus modos de vidas.

Nesta quinta edição do evento além dos cantineiros e representantes das associações extrativistas e indígenas e suas organizações de apoio, estiveram presentes representantes da Mercur, Wickbold, Funai, ICMBio, Rainforest Noruega, Moore Foundation, do ISA, Fundação Viver Produzir e Preservar, e da Norte Energia, que tem a obrigação de executar uma série de programas de mitigação socioambiental por impactos causados por pela implantação da hidrelétrica de Belo Monte sobre indígenas e ribeirinhos.

Pedro Pereira de Castro (esq.), cantineiro da RESEX Riozinho do Anfrísio; Jorge Hoelzel Neto, facilitador da Mercur (centro); Thiago Valença, coordenador de suprimentos para a Wickbold (dir.). Fotos: Lilo Clareto/ISA

“Estamos explicando a realidade, o modelo de trabalho da gente. Eles [empresas e parceiros] acharam tão interessante que estão vendo como é [produzida] a copaíba, como é a borracha, como é a castanha”, disse Pedro Pereira de Castro, cantineiro da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio.

Empresários, por sua vez, validaram seus compromissos com as comunidades em um ambiente de debates intensos sobre as cadeias produtivas.

Parceira desde o início da Rede de Cantinas e presente desde a 1ª edição da Semana do Extrativismo, em 2014, a Mercur leva seu engajamento com o projeto para além dos simples contratos de comercialização de borracha. Nesta edição, dois químicos da Mercur chegaram com sete dias de antecedência à Semana do Extrativismo para aprimorar, junto com os seringueiros, o processamento da manta de borracha e de tecidos encauchados (emborrachados).

“Para comprar produtos da floresta, dos ribeirinhos, ou das aldeias indígenas, precisa ter um pouco de sensibilidade. Precisamos parar de falar do mundo industrial, empresarial, e entrar para a sensibilidade humana. Compreender um pouco como é o pensamento deles, que é completamente diferente do pensamento da cidade”, disse Jorge Hoelzel Neto, facilitador da Mercur.

Oficina para tecidos encauchados e para mantas de borracha durante a V SEMEX. Ao todo, 153 estradas de seringa foram reabertas na Terra do Meio (PA). Fotos: Lilo Clareto/ISA

A empresa de pães e bolos Wickbold, principal compradora da castanha produzida na Terra do Meio, também esteve presente avaliando o grande salto dado esse ano no volume de castanha do Pará comprada, o que exigiu um esforço de todos os lados: da empresa, dos cantineiros, Associações de moradores e parceiros locais.

“Não é o caminho mais fácil para comprar, sendo muito transparente. Negociar com empresas já estruturadas, cadeias logísticas já estruturadas, locais de mais fácil acesso é muito mais fácil e mais barato também. Mas a empresa realmente acredita em uma questão sustentável, de responsabilidade socioambiental”, diz Thiago Valença, coordenador de suprimentos da Wickbold.

“A Rede de Cantinas, as miniusinas, o Selo Origens Brasil e todo o arcabouço que eles estão criando aqui para geração de renda nesse território enorme que é o Xingu, eu nunca vi em nenhum outro lugar tão bem feito”, anotou Marina Tereza Campos, da Moore Foundation.

Passado, presente e futuro

Crianças e jovens fazem brincadeira de roda na comunidade Rio Novo, na Reserva Extrativista do Rio Iriri (PA). Foto: Lilo Clareto/ISA

O futuro, desenhado durante a Semana do Extrativismo, promete mais. Além de listadas uma série de ações, melhorias e aquisições — como a implementação de três novas miniusinas, a criação e impressão de novos rótulos para os produtos da marca coletiva Vem do Xingu, reformas em cantinas e barracões e compra de moedores, embaladoras e calandras para os seringueiros –, os principais desafios são os de integrar os investimentos na região e ampliar a capacidade de desenvolver novos produtos através das parcerias entre comunidades e empresas.

Raimundo Belmiro durante a V SEMEX. Foto: Lilo Clareto/ISA

Por isso, fez-se tão importante um olhar para o passado, a fim de entender os avanços conquistados ao longo do tempo. “Em 2002, a gente não tinha nem documento, dava para contar os poucos que tinham. A gente não sabia o que era uma Reserva Extrativista. As pessoas não liam e nem escreviam”, relembra Raimundo Belmiro, da Resex Riozinho do Anfrísio.

Raimundo também relembrou da época em que foi ameaçado de morte por grileiros, logo no início da criação da Resex: “Eu arrisquei minha vida por toda a comunidade do Riozinho do Anfrísio. O mais grave que eu passei foi andar com 5 ou 6 seguranças nas minhas costas, só porque eu estava defendendo os meus direitos”.

Para ele, os mais velhos devem incentivar os mais novos a manterem o trabalho de extração da borracha, dacoleta de castanha, babaçu e outros produtos, que não podem apenas pensar no presente, mas sim em como será o futuro da região. Raimunda Rodrigues, cantineira da Resex do Rio Iriri, complementa: “Nós temos que ficar aqui, na floresta. Meu recado é para que o pessoal não se mude e saia buscando algo que não é seu, que as pessoas fiquem trabalhando nas suas comunidades e preservando a floresta.”

Menino xipaya carrega irmão nos ombros em caminhada pela aldeia Tukayá. Foto: Lilo Clareto/ISA
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