Aldeia Piyulaga do povo Wauja, no Alto Xingu, recebeu placas solares na casa da bomba d'água, posto de saúde e casa de sementes. Foto: Todd Southgatte / ISA

Xingu Solar

Casa de mais de 6 mil índios, terra indígena enfrenta o desafio que é o do Brasil: investir em energia limpa

Por Letícia Leite, jornalista do ISA

Primeiramente, já não é mais "parque". O nome Parque Indígena do Xingu (PIX), no Mato Grosso, que remonta à saga dos irmãos Villas-Bôas na primeira metade do século XX, já é passado. As 16 etnias xinguanas decidiram, recentemente, que vivem no Território Indígena do Xingu (TIX). Atendendo às recomendações dos xinguanos, chamaremos o PIX de TIX de agora em diante.

O TIX tem muitas novidades sobre seu passado recente, mas os mitos ainda orientam a vida presente de seus moradores.

Na mitologia xinguana, Taũgi (Sol) e Aulukumã (Lua) são os gêmeos criadores da humanidade. Eles fizeram os primeiros chefes do Alto Xingu a partir de arcos de madeira, enquanto as pessoas comuns teriam sido feitas de bambu de flecha. “O sol criou tudo”, resume o cacique Awaulukumá Waujá, da aldeia Piyulaga, onde vivem 411 Waujá, ou Waurá. A comunidade é a maior do TIX.

Os povos descendentes do sol escolheram os sistemas fotovoltaicos para reduzir a dependência do óleo diesel — caro e poluente— e construir um futuro diferente para as próximas gerações. Para o resto do Brasil, a solução xinguana pode apontar um caminho para a promoção de fontes energéticas realmente limpas.

Cacique Awaulukumá Waujá. Foto: Todd Southgatte / ISA
“É um sonho gerar energia em silêncio. O gerador dá muito trabalho, gasta muito diesel. A placa fica em silêncio e não dá trabalho”, disse o cacique Awaulukumá Waujá.

Até 2019, o ISA e a Associação Terra Indígena Xingu — Atix, em parceria com o Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE-USP) vão levar a várias aldeias do Xingu, sistemas de geração de energia solar para 55 escolas, 22 postos de saúde e mais uma dezena de pontos comunitários de apoio às atividades produtivas no TIX. O projeto Energia Limpa no Xingu pretende se tornar uma referência em soluções de energia renovável, descentralizada e fácil de operar em comunidades isoladas, em especial na Amazônia.

Os profissionais do sonho

A aldeia Piyulaga foi escolhida para ser a sede da formação de 32 novos profissionais, que farão a instalação e manutenção das placas solares. Durante cinco dias, em outubro, os alunos de 10 etnias receberam aulas dos engenheiros do IEE. Essa foi a segunda turma. Mais de 100 xinguanos vão receber o treinamento até o primeiro semestre de 2017.

Alunos de 10 etnias foram capacitados para instalar e fazer a manutenção dos paineis solares nas aldeias do Xingu. Entre 80 e 90 aldeias serão beneficiadas pelo projeto. Foto: Todd Southgatte / ISA
Parceria levou engenheiros do IEE-USP para dar aulas aos indígenas. Foto: Todd Southgatte / ISA

“Quando você traz energia solar, você traz uma soberania energética”, diz André Mocelin, do IEE-USP. Em sala de aula, ele usa material didático simples com os indígenas: caderno e canetas coloridas. Cada aluno desenha o conteúdo da apostila que servirá como guia na hora de montar e cuidar da manutenção dos sistemas fotovoltaicos nas aldeias em que vivem.

O IEE tem experiência no assunto: já implantou esses sistemas em comunidades indígenas do Médio e Alto Solimões (AM) e quilombolas do Vale do Ribeira (SP). Também inventou uma máquina de “gelo solar que conserva alimentos para comunidades extrativistas no Amazonas.

Revolução energética

A formação dos eletricistas e a instalação das placas solares são parte de uma meta ambiciosa, verdadeira revolução energética: reduzir o consumo do diesel em 75% nos quatro “pólos” do TIX, centros comunitários com instalações de saúde, educação e comunicação. Mais de 80 aldeias com escolas e postos de saúde também serão beneficiadas.

O diesel é necessário para fazer funcionar todas essas instalações, além de uma série de atividades produtivas e de lazer cotidianas. O tamanho da conta depende da população de cada aldeia. Os recursos do governo para compra do combustível, porém, são insuficientes.

Aldeia Piyulaga queima 200 litros de óleo diesel por mês. O projeto Energia Limpa no Xingu pretende reduzir em 75% o consumo do combustível fóssil nos polos da TI. Foto: Todd Southgatte/ISA

“A gente recebe aqui uma cota de 200 litros [de diesel] por mês, mas gasta 20 litros por dia. A conta não fecha. Todo mês acaba”, explica Apayupi Waujá, presidente da associação do povo Waujá.

O combustível viaja por até 24 horas para chegar à aldeia Piyulaga. Em geral, sai da cidade de Canarana (MT) e segue por uma estrada de 120 km até a beira do Rio Culuene, já na fronteira do TIX. A partir dali, os tambores são colocados em “voadeiras” (barcos rápidos) até chegar ao porto da comunidade. Uma caminhonete leva a carga por mais 40 km de estrada de terra. — Já as placas solares, uma vez transportadas e instaladas, podem durar até 25 anos.

A bomba d’água, o posto de saúde e a casa de sementes (onde a comunidade armazena e beneficia a pimenta e sementes florestais) foram os locais escolhidos para abrigar as placas solares. “A gente tem que consultar nossos caciques, esse é o jeito certo de fazer”, explica o aluno Marcelo Kamaiurá.

Quando acaba o diesel, acaba a água limpa. A bomba d’água que abastece as 33 casas também precisa do combustível. Precisava. Após o curso, a instalação foi revitalizada e um sistema com placas solares agora puxa a água do poço artesiano e leva-a ao reservatório. A bomba pode ser ligada tanto ao sistema fotovoltaico como ao sistema a diesel, essencial ainda em dias chuvosos ou nublados.

Assim, 2016 entra na história da aldeia Piyulaga como o ano em que os índios deram um passo essencial para terem acesso a água limpa de forma autônoma. É um avanço importante já que o desmatamento, a erosão do solo e o uso intensivo de agrotóxicos nas fazendas que cercam o TIX têm comprometido o uso dos rios como fontes de água potável.

Sociedades em movimento

As sociedades xinguanas mudaram muito nas últimas décadas. E vão continuar mudando. A população cresceu e é majoritariamente jovem. Segundo a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), 6.307 índios vivem no TIX hoje e 60% dessa população tem menos de 15 anos. A última década também marcou o crescimento das cidades no entorno, a consolidação do agronegócio na região e a melhoria das estradas.

Novas formas de renda e trabalho surgiram. Os jovens querem estudar. Muitos estão nas universidades. São 210 professores indígenas contratados pela Secretaria de Educação do Mato Grosso e dos 10 municípios que abrigam a TI.

Criança Waujá brinca com o ipad do pai. Fotos: Todd Southgate

Tudo isso deixou os índios num contato ainda mais intenso, muito diferente da situação vivida pelos anciães, como o cacique Awaulukumá. As mudanças trouxeram mais consumo, aumentaram a demanda por comunicação e energia. Os índios do Xingu estão conectados. O futebol na aldeia, ao fim do dia, é povoado por jovens que exibem orgulhosos o cabelo igual ao do ídolo Neymar e de outros jogadores.

“Hoje em dia, a gente usa os equipamentos pra trabalhar. Não é aquele tempo que a gente trabalha só no machado. A evolução tá chegando e nós estamos acompanhando. A rapaziada tem celular, tem suas coisas. Quando alguém fala isso [que índio não precisa de energia], eu respondo que a gente não vai voltar naquele tempo, vamos avançar junto com a tecnologia”, diz Kyua.

Amanhecer na aldeia Piyulaga. Foto: Todd Southgatte/ISA

Canibalismo tecnológico

Quando o sol começa a nascer na aldeia Piyulaga, é hora de Kuyakuyali e Yakalo Waujá pularem da rede. Desde que se casaram, há 16 anos, eles seguem juntos para a roça todas as manhãs. Vão colher a mandioca que, junto com o peixe, é a base da alimentação dos 20 familiares que moram na casa liderada por Kuya, assim como de toda a população do TIX.

Pontualmente às 8h, Yakalo e outras mulheres da aldeia começam a ralar a mandioca. Muitas usam o ralador tradicional, que lembra um ralador de queijo. A maioria já tem ralador elétrico, movido à gasolina ou ligado no sistema a diesel.

Interior de casa na aldeia Piyulaga. As mulheres trabalham próximas a porta em busca de iluminação. Foto: Todd Southgatte/ISA

Pela manhã, o gerador é ligado por duas horas para o bombeamento da água do poço artesiano que abastece as casas. É quando as mulheres aproveitam para usar o ralador elétrico. À noite, o gerador é ligado, por mais duas horas, para iluminação nas casas, refrigeração de alimentos e fazer funcionar as televisões, ligadas a antenas parabólicas.

As casas do Alto Xingu — com mais de 7 metros de altura, feitas à mão, com fibra, palha e madeira — não têm janelas. Durante o dia, as mulheres confeccionam a tradicional cerâmica Wauja próximas à porta, onde há mais luz. Na casa de Kuya, uma cena chama atenção: a esposa, Yakalo, trança uma rede, às 15h, com uma lâmpada ao fundo. A energia vem de uma placa solar.

Feita pelas mulheres, a cerâmica Waujá é o mais elaborado artefato do complexo sistema de objetos da cultura do Alto Xingu. Seus tipos variam desde minúsculas panelinhas até enormes panelas com 115 cm de diâmetro. Foto: Todd Soughtgatte/ISA

Há três anos, numa passagem por Canarana, Kuya ficou impressionado ao notar que a geladeira, ar condicionado e chuveiro da casa de um amigo funcionavam com a energia gerada por placas solares. A família mobilizou esforços e, com as economias do salário de diretor da escola, ele encomendou a placa pela internet. Três meses depois, Kuya montou o sistema na sua casa.

Luz que ilumina trabalho de tecelagem de rede de Yakalo Waujá vem da placa instalada em sua casa. Foto: Todd Southgate / ISA

Foi assim que a esposa ganhou luz para trabalhar e ele para carregar o computador, lanterna e celular, instrumentos essenciais ao trabalho como diretor da escola.

“Já há famílias que têm optado por comprar sistemas fotovoltaicos ao invés de pequenos geradores. Eles têm esta visão do que é mais sustentável. Eles buscam as coisas mais simples e adequadas. Das soluções tecnológicas que aparecem, eles sempre procuram as melhores. De tudo o que eles viram, esta foi a escolha deles”, diz Marcelo Martins, do ISA, um dos idealizadores do projeto.

A placa erguida em 2013 na casa de Kuya foi a segunda a chegar na Piyulaga. Ainda na década de 1990, todas as aldeias receberam uma placa solar implantada pelo projeto Xingu, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que faz o atendimento de saúde diferenciado para esses povos indígenas desde 1965.

Na casa de sementes, a nova fonte de energia instalada pelos alunos já está alimentando a máquina envasadora de pimenta e a balança digital. A edificação foi instalada pela Rede de Sementes do Xingu, que articula coletores de sementes florestais — indígenas e agricultores familiares da Bacia do Xingu no Mato Grosso — vendidas para iniciativas de reflorestamento em todo país. Foto: Todd Southgatte/ISA

A placa instalada nas unidades básicas de saúde, por exemplo, pode alimentar um sistema de refrigeração. “Não há soro antiofídico na TI porque não há energia constante para mantê-lo conservado”, explica Martins. Inaladores também são frequentemente usados em crianças com insuficiência respiratória, agravada em épocas de queimadas.

Crianças brincam na lagoa da aldeia Piyulaga. A nova geração xinguana poderá ser abastecida com energia solar. Foto: Letícia Leite/ISA

O desafio do Xingu é o do Brasil

Experiências como a dos índios do Xingu mostram que é viável mudar o paradigma da matriz elétrica brasileira na direção de alternativas sustentáveis. Historicamente, o planejamento dessa matriz foi pautado por altos investimentos em grandes hidrelétricas, como Belo Monte, que destruiu paisagens, formas de vida e culturas dos parentes xinguanos na região de Altamira (PA).

Hoje, a energia solar corresponde a apenas 0,02% da matriz elétrica nacional. Linhas de crédito e incentivos para as energias sustentáveis alternativas (solar, eólica, biomassa) são recentes. O desenvolvimento tecnológico também vem barateando rapidamente essas fontes.

Marcelo Kamaiurá: “energia limpa é a solar”. Foto: Todd Southgate / ISA

O governo deveria aproveitar o sol e não acabar com o rio. O governo fala que energia hidrelétrica é limpa, mas não é. Hidrelétrica acaba com tudo. Energia limpa é solar”, diz Marcelo Kamaiurá. “A gente vai mostrar não só para as comunidades indígenas, mas para os meios urbanos que isso é possível.”

Cerca de 55% do território brasileiro está coberto pelo Sistema Interligado Nacional (SIN). A parte que está de fora, principalmente as áreas mais isoladas da Amazônia, demanda energia.

“Está na hora da sociedade fazer o lobby e isso a gente só faz disseminando o conhecimento. A gente não pode ficar só apontando o problema. É preciso propor soluções e não ficar repetindo problemas. Está na hora de prognóstico, de saber o que fazer, de mudar, de quebrar o paradigma”, destaca André Mocelin.

*O projeto energia limpa na Terra Indígena do Xingu é financiado pela Fundação C.S Mott.

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