A esperança de uma morte feliz

Acabei de fazer a releitura do livro e confesso que foi difícil termina-la. “A peste” foi o primeiro livro que li do Camus. Na primeira vez que o livro chegou até mim fiz uma leitura rápida e superficial. Só consegui chegar a essa conclusão após terminar a segunda leitura que acabou sendo extremamente prazerosa e desafiadora. Ocorreu algo especial: dessa vez foi o livro que me leu. Quem já passou por isso pode compreender como isso é mágico, ter a oportunidade de ser lido pelo livro e vice-versa.

Acredito que o momento que passo na minha vida contribui para isso fosse possível. Um momento de questionamentos e incertezas em relação futuro tal como os habitantes da cidade de Orã contaminada por uma epidemia que faz com sejam isolados do mundo, e passam a confrontar o anjo da peste que abençoa com a mão direita e amaldiçoa com a mão esquerda fazendo aumentar o número de mortos semana após semana de contaminação.

Colocando a cidade num estado de urgência.

“A Peste” é um livro que fala de uma sociedade que vai aos poucos perdendo a sua humanidade já que durante o momento de isolamento, ela passa a ter a sua história suspensa temporariamente, e sem história as pessoas também deixam de construir e compartilhar memórias e o mais difícil acontece, elas deixam de amar. Uma vez que a esperança de viver está ameaçada pelo flagelo da peste. Por outro lado, essa desgraça narrada por Camus é um convite a autoanalise da sua existência, obrigando você a olhar internamente, o colocando diante da sua própria “peste”. Isso é uma experiência prazerosamente lamentável porque você terá que lutar contra seus demônios.

E não necessariamente você tem a obrigação de vencê-los. Albert Camus ensina que antes disso é preciso compreendê-los. E compreender de forma alguma é aceitar. É preciso vencer a peste? Sem dúvida! Mas a peste tem cura? Acredito que não.

Antes de ser uma praga, a peste é um estado de espírito que circula pela história. Ela vem e vai embora. Volta para aterrorizar e para não deixar as pessoas esqueceram a sua humanidade, isto é, a sua capacidade de amar e ter esperança de que a morte pode ser feliz.

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