Daquilo que me escapa
Falar em voz alta é como ouvir de outro alguém
Sobre apostas - em si e no porvir
Talvez o que falte seja uma espécie de falta coragem — o que é no mínimo irônico pra alguém dessa geração Y, alardeada como a geração das mudanças, a geração inquieta, que busca mudanças, aventureira, comedora de paletas mexicanas e que abre uma start up a cada temporada.
O talvez é decorrente, claro, de um overthinking. Talvez seja falta de coragem minha de apostar no próprio coração e atravessar uma jornada pra encarar os próprios medos de rejeição e de eterna espera. Uma jornada regada com ansiedade e barrinhas de cereais. Uma jornada de heróis de brinquedo.
Talvez seja um olhar frio e crítico, que se lança sobre tudo com cuidado, de régua na mão e descrença absoluta na cabeça. Um pessimismo embasado. Um preciosismo nos detalhes da tragédia orquestrada. No medo, no mais absoluto medo de rever demônios que dormiram faz tempo em algum recanto da alma.
O overthinking
Hoje eu falei com um amigo justamente sobre como eu vejo minha vida estagnada. Por falta de palavra melhor. Na verdade é quase uma paisagem que se movimenta imperceptivelmente, a pequenos relances. Você só consegue entender que as coisas se movem porque o movimento é circular. “Eu já vi aquela palmeira antes”.” Aquele sentimento de culpa também”. Tudo com uma espécie de trilha vagarosa, que te enebria. Talvez seja o olhar analítico e confortavelmente passivo que me coloca nesse filme sem nexo e caleidoscópico. De repensar meus medos, meu corpo, minhas neuras, no outro, no outro, no outro. De tentar encaixar cada movimento visto como um clichê.
Seja como for, uma hora o overthinking consegue ser útil. Ele chega no resultado depois de milhares de cálculos, como aquelas máquinas de previsão do tempo que os japoneses exibem com orgulho em alguma matéria sobre tecnologia. Você chega a conclusões que são dolorosas. Aí entra num estado completamente paralisado, que te coloca entre a autopreservação racional e a covardia descarada.
Antiofídico é feito de veneno
Eu me pego pensando no que eu vou fazer com tudo isso. Com a carga pesada de uma vida que parece tão leve e firme. Com um sentimento que tem seu referencial um alguém longe e cheio de desafios, com meus medos. Com o sertão da minha solidão.
Talvez precise juntar tudo isso e ter coragem de pular do abismo. De encarar o dragão e mostrar que não vou me entregar sem uma boa luta. Lembrar do que me faz humano e me desvencilhar desse veneno que me paralisa — como um bom herói de brinquedo. De não seguir nem meu coração nem minha cabeça, só meus músculos, meu sangue, meu desejo mais profundo. Minha vontade de caminhar bastante, nem que seja pra cair de exaustão ou ser alvejado no final. A possibilidade pode ser mais letal que a negação.
Só me dê cinco minutos. Cinco minutinhos a mais de sono. Depois eu injeto o antídoto e vou a luta.