voltando ao normal*
Hoje decidi voltar a me medicar, ainda que tenha minhas sérias críticas quanto a essa normalização das pessoas — ler Foucault foi a viagem mais louca e importante da minha vida. Dois comprimidos de carbonato de lítio 450 mg. Se tudo der certo, repito a dose à noite, com mais um comprimido de lamotrigina 100 mg.
Tenho essa dificuldade com a constância. Não a Profª Constância Lima Duarte, da UFMG, porque essa é uma maravilhosa e jamais ousaria ter problemas com ela. Mas essa coisa de todo dia a mesma coisa. Tomar todo dia os mesmos remédios. Comer todo dia as mesmas comidas. Executar todo dia as mesmas atividades. A vida adulta é tão maçante.
Tenho ânimo pra começar coisas, e até penso que vou conseguir manter um padrão e fazer todo dia igual, mas nunca consigo. Esqueço, e esse esquecimento é como se fosse algo dentro de mim pedindo socorro da mesmice. Pouco tempo depois estou novamente prometendo a mim mesma que vou voltar aos trilhos. Foucault de novo. Não é muito diferente com as relações. Amo profundamente muitas pessoas, mas não é todo dia que tenho ânimo pra lidar com todas elas e isso não tem nada a ver com os meus desgraçamentos mentais, acho. Eu só não consigo mesmo fazer sempre as mesmas coisas, por mais que a rotina seja um alívio pra uma alma inquieta como a minha. Dá a certeza do que vai acontecer nos dias.
Minhas produções, por exemplo, nunca foram consistentes ou consistentemente distribuídas ao longo do tempo. Eu tenho picos de produtividade. E picos de socialidade. E picos de alegria. Tá, talvez dê pra relacionar com meus desgraçamentos mentais, mas não é a mesma coisa. Mesmo estando numa mesma fase depressiva, por exemplo, que é o que tenho enfrentado nos últimos tempos, ainda tenho picos de produtividade e socialidade dentro dessa mesma fase. Ontem foram tantas postagens, hoje eu quase tive de me forçar pra escrever aqui. E só vim porque sabia que precisava, que seria bom para o futuro, que eu gostaria desse registro. Mesmo coisas pequenas e que julgo agora irrelevantes podem ter um grande valor no futuro, em retrospecto.
Esta página é bem isso. Um livro de memórias. Vou colocando aqui o que for acontecendo em mim, ao redor de mim, e o que já está dentro de mim na lembrança, sem o menor rigor cronológico ou temático. Minha vida já tem regras demais, já tenho arestas demais a serem aparadas em nome da normalização.
A propósito, o título da página e os títulos das postagens em minúsculas é pra combinar com a pequenez da minha existência. Só não continuo isso no texto porque dificultaria a leitura.
Ontem acabei fazendo umas contas e percebi que não conseguiria mesmo defender a dissertação este ano, então conversei com meu orientador a possibilidade de deixar a defesa para janeiro. Ele disse que teria então de ser no final de fevereiro, quando os professores retornam de férias. Por outro lado, minha qualificação vai ser durante um evento científico, com bastante gente pra assistir, aparentemente. E aumentou minha pressão para ser aprovada no processo seletivo para o doutorado. Sim. Logo eu. Bom, ninguém mandou ser trouxa assim. A propósito, tenho 10 dias para escrever um capítulo e meio. Delícia.
Esta postagem tem até aqui 13 “mesm_”.
Vai ficar assim mesmo.
15.
*Originalmente postado em 13/07/2017 no Blogspot.
