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Photo by Julian Lozano on Unsplash

Eu vejo essa garagem transformada em muquifo musico-cultural
e vejo nela todas as garagens já transformadas em muquifos musico-culturais do mundo,
a cena underground das cidades nunca para,
ela joga tinta preta por cima de paredes que eram de tons pastéis,
ela espalha obras de arte de artistas locais compradas por ninharias e exibidas como itens de colecionador nas paredes,
ela compra geladeiras velhas, enferrujadas, e as pinta com sprays, tinta acrílica, imitações de xilogravuras ou outra manifestação artística regional que a moda da valorização cultural resolveu considerar cult,
recicla caixotes como móveis,
entulha decorações vintages ou góticas numa mistura sem sentido que agrada os olhos principalmente através da névoa de cigarros, baseados, incensos e outras fumaças que meu olfato não consegue identificar.

Em pé aqui eu lembro de outras dezenas de vezes que fiquei em pé aqui em outros lugares,
também cercado por pessoas com visuais incomuns falando de coisas incomuns pra você como se te conhecessem e falassem coisas incomuns pra você o tempo todo quando na verdade você nunca as viu antes,
ou talvez tenha as visto em outros corpos,
e vem de novo aquela sensação de estar num lugar onde as pessoas que não pertencem a outros lugares vão pra pertencer a algum lugar e mesmo assim você sente não pertencer,
todos parecem se conhecer, se cumprimentam, sorriem, se abraçam, beijam, e você é só um estrangeiro, passageiro de algum trem, que não conhece ninguém, não cumprimenta, não sorri, não abraça, não beija,
você só dança, bebe uma cerveja, fuma uns cigarros, e tenta sorrir, e conta uma piada a um amigo, tentando disfarçar que fica olhando o jeito de dançar dos outros pra saber o que fazer, que até hoje não sabia quanto cobravam por uma cerveja aqui, não sabia se era permitido fumar, que a cara não formiga de leve quando você força um sorriso depois de um longo tempo sem rir ou falar ou expressar algo,
nisso a noite vai passando devagar, e você vai se cansando, ou se embriagando,
até a hora de ir embora.