Conta-me Histórias: Banco de Jardim

Sofia Costa Lima
Aug 10 · 3 min read

= baseado numa história verídica =

Lembrar-me-ei sempre daquele banco de jardim. Para todas as outras pessoas que ali passavam podia ser apenas um banco — até havia ali três. No entanto, para mim, era mais do que isso. Nunca me sentei nele, nem em nenhum dos outros, é certo, mas reparar nele uma vez foi o suficiente para o passar a observar sempre que por ali passava, o que acontecia todos os dias.

Se não tivesse reparado especialmente naquele banco de jardim talvez não tivesse ficado com ele marcado em mim, mas reparei e, a partir daí, não havia mais volta a dar: não mais esquecerei aquele banco.

Deixem-me falar melhor deste banco. É um banco de jardim igual a tantos outros espalhados por Lisboa, por Portugal, pelo mundo. Se o tirassem dali e o colocassem noutro sítio eu não o reconheceria. Até podia pensar que era um banco parecido, mas nunca teria certezas. Não há nada, à primeira vista, que o distinga de outros bancos.

Este banco fica num jardim onde há mais dois bancos iguais a ele. É um jardim com algumas árvores — podia dizer-vos quais, mas não faço ideia — e duas partes relvadas onde é comum ver cães brincar. O banco fica de frente para as tais zonas relvadas onde se vêem cães brincar. Foi assim que reparei no banco.

Como já vos disse, passo diariamente neste jardim. Como há sempre cães a brincar ali acabo por perder alguns minutos a vê-los ser felizes. Aqui há dias… quando? Não sei quando, não ando propriamente a marcar estas coisas na agenda. Como eu estava a dizer: aqui há dias, quando estava a passar por lá, vi um cão mesmo bonito correr em direcção aos donos, que estavam sentados no tal banco.

Até àquele momento nunca tinha realmente tomado consciência da existência daquele banco. No entanto, com esta cena, reparei nele. Lá está, é um banco igual a tantos outros. Achei o cão bonito, vi a disposição daqueles três bancos e pensei que a história ficava por ali.

Uns dias depois, estou novamente a passar pelo jardim, reparo num casal aos beijos naquele banco. Honestamente, não era preciso tanta intensidade em beijos em público, pois não? Enfim. Deixá-los estar. Ou nunca tiveram o coração partido ou já partiram tanto o coração que já nem sentem. Continuo a minha vida.

Até que chegamos há uns dias. Era noite. Raramente ali passo à noite. Àquela hora não havia ninguém a passear o cão ali. É pena. Estou a subir a rua, quase distraída pelo cansaço, mas, inconscientemente, desvio o olhar para o banco.

É aí que o vejo pela primeira vez.

Deitado, pés descobertos e cara tapada.

Pergunto-me se mais alguém reparou nele.

Quantas vezes já terá ele dormido ali? Não sei responder. Não me lembro de alguma vez o ter visto ali, mas, honestamente, como saber se o vi ali? Nunca tinha reparado realmente naquele banco.

Abrando o passo. Na minha cabeça formam-se dezenas de filmes que explicam o porquê de ele estar ali a dormir. Também na minha cabeça surgem várias hipóteses de agir. Não tenho coragem de ir lá.

Será que as pessoas que vão passando por aqui reparam nele? Ou estarão tão habituadas a tê-lo a dormir ali que já nem reparam?

Decido que, quando a temperatura baixar, se ele ainda se mantiver ali, vou deixar-lhe um cobertor. Depois hesito. Será que me levaria a mal?

Percebo que estou parada no meio do passeio. Na minha cabeça ele está ali de livre vontade. É a minha forma de fingir que está tudo bem, que não há problema por não o conseguir ajudar, por não ter dinheiro ou comida, por não saber como agir.

Suspiro.

Talvez este seja o mal das pessoas: desistem sem tentar. Mas não sei como tentar. Olho mais uma vez para o banco. Ele continua deitado, imóvel. Está na hora de seguir a minha vida.

Todos os dias passo por aquele jardim e o meu olhar demora-se naquele banco. Não voltei a vê-lo dormir ali. Na minha cabeça insisto que isso é positivo. Talvez tenha regressado a casa.

Sofia Costa Lima

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