Conta-me Histórias: Talvez

Deambulo pelos corredores do supermercado até encontrar aquele que pretendo. Há tanta escolha e quase me sinto desencorajado. Procuro as minhas opções preferidas nas prateleiras. Percebo que não poderei optar apenas por uma. Escolho três e nem me preocupo com o preço. Dirijo-me à caixa, onde uma rapariga sorri.
— Alguma data especial? — pergunta.
Aceno que sim. Mas não é uma data especial. É só mais um dia. Mais um dia. Mais um dia.
Arrasto-me até casa. A meio do caminho lembro-me de que devia ter comprado comida. Encolho os ombros a mim mesmo. Não importa. Nada importa.
A casa parece vazia. Nunca sei o que esperar quando chego. Tanto posso encontrá-la vazia como cheia. Ambas as opções me deixam ansioso. Não consigo lidar com o vazio, não sei o que fazer quando está cheia.
Dirijo-me à cozinha, procuro um saca-rolhas e abro a primeira garrafa. Não procuro copos. Não preciso deles. O primeiro trago faz com que sinta ardor na garganta, mas ignoro e continuo. Sinto que já não estou sozinho e sento-me no chão da sala, tentando escapar aos bocados de guitarra partida que deixei pelo chão há duas noites. Não sei se vou comprar outra. Fecho os olhos. Não quero ver a minha companhia, mesmo que saiba que está ali.
Não sei quanto tempo passa antes de conseguir abrir os olhos. A sala está cheia. Desvio o olhar. Não tenho coragem de confrontar ninguém. Sei o que todos têm a dizer. Gostava de ouvir o que o meu avô teria para dizer. Diria algo positivo, tenho a certeza. Vai e luta. Vai e acredita. Não és rapaz de desistir. Mas ele já não está cá para me fazer acreditar.
Pego na garrafa e bebo outro trago. É difícil saber o que esperar da bebida. Umas vezes enche-me a casa, outras vezes consegue sossegá-la. Fecho os olhos e espero que todos saiam, que me deixem realmente sozinho.
Abro e fecho os olhos várias vezes, mas eles continuam ali.
O meu telemóvel toca para me lembrar de que devia ir jantar com os meus pais e a minha avó. Ainda penso telefonar e cancelar, mas sei que nenhum deles permitiria. Arrasto-me para o duche, lavo os dentes e visto uma camisa lavada. Não os vejo há mais de um mês. Primeiro a Mariana terminou o namoro, depois fui para Berlim visitar o meu irmão e desde que voltei tenho estado a evitar ir lá a casa. Mas já não há por onde escapar.
Quando chego, a minha mãe quase me sufoca com um abraço.
— Pensava que não te voltávamos a pôr a vista em cima! — diz-me.
Ignoro o comentário e abraço a minha avó.
— Fiz o teu prato preferido! — comunica.
Agradeço, mas não tenho coragem de lhe dizer que, por mim, saltava o jantar e ia dormir.
O meu pai não é tão conversador quanto elas e pergunta apenas como foi a viagem a Berlim. Tento recordar o que fiz, mas ou estava a dormir ou estava ébrio e talvez não seja o tipo de informação que ele procura.
— Foi boa. — acabo por responder. Vejo-os trocar olhares, mas ignoro o motivo.
O jantar é silencioso, embora note que a minha mãe parece querer dizer algo. Quando todos terminamos, o meu pai anuncia que tem trabalho para fazer e deixa-me com a minha avó e a minha mãe. Demoro uns segundos a compreender que isto é algo planeado.
— Ajudas-me a levar a loiça para a cozinha? — pede a minha mãe. Ela é advogada, mas agora está a ser transparente e adivinho a intenção dela.
— Claro, mas depois tenho de ir.
— Ainda nem conversámos! — protesta a minha avó.
Adoro a minha avó, tal como adorava o meu avô, mas neste momento só consigo sentir-me vítima de uma emboscada.
— Não há nada para conversar. — digo, de uma forma brusca.
A minha mãe olha para a minha avó e depois para mim.
— Bebeste? — pergunta.
Não compreendo o que ela quer dizer.
— Bebemos todos, ao jantar… — respondo, confuso.
— Antes. — explica, num tom sério. — Conduziste até aqui bêbedo?
— Oh, mãe…
A minha avó abana a cabeça, negativamente, e a minha mãe olha para mim de uma forma familiar. Sei que ela já olhou para mim assim, uma vez, há muito tempo. Debato-me para não recordar essa época. É como se não me reconhecesse.
— Está tudo bem… — murmuro.
— Não, não está!
Olho para a minha avó. Ela nunca se chateia. Nunca. Nem quando eu e o Zé, o meu irmão, partimos o conjunto de pratos mais valioso de casa ela discutiu connosco. Honestamente, não vejo motivo para ela estar tão chateada. O que importa se bebi? Não é como se não tivesse idade para o fazer.
— Quando estavas em Berlim não quisemos intervir porque juraste que estava tudo bem, mas o Zé contou-nos. Duas semanas de saídas, abuso de álcool… dias inteiros a dormir, noites inteiras em festas…
— E depois? — pergunto. — Qual é problema disso?
A minha mãe suspira.
— Eu sei que estas semanas não têm sido fáceis. — diz, num tom calmo. — Deixares de sair com os teus amigos, mudares de banda, a Mariana…
Estremeço ao ouvir o nome dela. Claro que tinham de falar dela. Claro que não podiam ignorar a presença dela, como eu tento fazer sempre que a sinto junto a mim. Não é real, eu sei, mas sinto-a aqui.
— Da última vez as coisas resolveram-se mais facilmente, mas agora parece diferente, pior… — continua a minha mãe. — Se calhar devias voltar às consultas… — diz, reticente. — Eu sei que a Mariana era especial, mas o que quer que tenha acontecido… tens de ultrapassar, filho.
— Mas eu não sei o que aconteceu! — acabo por explodir. — Eu não sei o que aconteceu, porra! Não sei o que fiz, ou o que não fiz, e ela não fala comigo e eu não sei como ultrapassar!
Como se tudo isto não fosse humilhante o suficiente, algo em mim quebra e começo a chorar. Exactamente aquilo de que precisava agora.
A minha avó abraça-me e a minha mãe imita o gesto. Quero explicar-lhes que estar sem a Mariana não é só ficar sem namorada. Quero explicar-lhes que a Mariana me devolveu o equilíbrio que não sentia há anos, que não saber o que aconteceu me impede de dormir à noite, que aquilo que julgam curado continua aqui a dizer-me que nunca serei suficiente. Quero dizer-lhes que já não consigo controlar todos os pensamentos negativos e que às vezes preciso de beber para os tentar calar. Quero dizer-lhes que o meu avô era o único que conseguia compreender-me, que estes anos sem ele têm sido os piores da minha vida e que a Mariana conseguiu melhorar tudo. Quero dizer-lhes tanto, mas não consigo. Limito-me a chorar agarrado a elas.
Acabo por dormir no sofá. É a minha avó quem me acorda, ainda não são sete da manhã. Oferece-me um café e senta-se à minha beira.
— O teu avô adorava-te, sabes? Ele negava, mas eu sabia que eras o neto preferido. — diz-me. — Em parte, porque tens o nome dele. Mas acho que o grande motivo era o teu talento. Ele tinha jeito para decifrar talentos. Viu logo que tinhas qualidade para o ténis e insistiu em levar-te a jogar. Depois percebeu o quanto eras bom com a música e deixou-te experimentar todos os instrumentos que ele tanto estimava. E não foi fácil para ele deixar que os desafinasses vezes e vezes sem conta. Sabes o que ele me dizia sempre?
Aceno negativamente.
— Temos de proteger aquele rapaz, Margarida. Quando ele se perder, temos de o ajudar a encontrar o caminho de volta para a música. A música vai salvá-lo. Para ser sincera, nunca percebi o que ele queria dizer com aquilo. Mas agora percebo.
Olho para ela, expectante.
— Eu não posso responder às tuas dúvidas, não posso fazer com que a Mariana volte para ti, mas sei que aquilo que precisas de fazer neste momento é ir ao teu quarto, tirar o pó ao piano e pensar na música. — afirma. — A música vai ajudar-te. O teu avô sempre o soube e eu sei-o também. A música vai salvar-te.
Fico alguns minutos a pensar nas palavras da minha avó. A música vai salvar-te. Mas será que a música ainda o consegue fazer? Será que ainda tenho salvação? Às vezes penso que não, que a solução mais simples seria desistir. Mas o meu avô nunca deixaria.
Levanto-me e vou ao meu antigo quarto. O piano ainda está no mesmo sítio, como se me esperasse. A última vez em que toquei aqui foi há uns meses. A Mariana estava comigo e surpreendi-a com uma versão da música preferida dela. Os meus dedos ainda tentam um dó-sol-fá, mas não consigo continuar. É como se aquelas notas estivessem bloqueadas. Tenho algumas partituras ali e procuro uma que consiga acompanhar. Sento-me, respiro fundo e começo.
Love of my life, you’ve hurt me…
Só consigo pensar nas notas certas e na letra, não há espaço para mais.
Quando termino, a minha mãe entra.
— Tinha saudades de te ouvir. — diz. Depois coloca o telemóvel em cima do piano. — Devias publicar na internet.
Pego no telemóvel e percebo que ela filmou tudo.
— Como se chama aquela banda que passavas a vida a ouvir em altos berros?
— Linkin Park. — respondo.
— De certeza que os Linkin Park não ficaram famosos de um dia para o outro. Tiveram de trabalhar muito para chegar onde estão. Tu também tens trabalhado muito. — afirma. — Esta pode não ser uma música tua, mas cantaste-a como se fosse. Devias partilhar com o mundo.
Ainda com o telemóvel dela na minha mão, envio o vídeo para o meu e-mail, mas não lhe prometo que o partilhe. Não sei se vale a pena, mas passo o dia a pensar nele. Ninguém no trabalho parece reparar que estou usar roupa mais informal e passo o dia fechado no escritório.
Quero que o meu avô tenha razão e que a música me salve. Mas não consigo deixar de pensar que não sei quanto mais tempo vou aguentar. Quando eu tinha 5 anos, o meu avô levou-me a jogar ténis. Estava convencido de que eu me safava bem. O professor da academia concordou. O meu avô ficou orgulhoso e, a partir daí, acompanhou-me sempre aos treinos e, depois, aos jogos. Só falhou um jogo, nos dez anos em que joguei. Quando percebi que ele não estava nas bancadas fiquei distraído. Perdi o set. No início do set seguinte lesionei-me no joelho. Não me consegui levantar. Soube depois que, naquele momento, o meu avô estava no hospital. Não o voltei a ver vivo. Não voltei a jogar ténis com o propósito de me profissionalizar. Não voltei a sentir-me apoiado incondicionalmente até chegar a Mariana.
A Mariana via o que eu podia ser, via uma versão de mim que eu achava não existir e fazia-me acreditar. Em mim, na música, na vida. Com ela queria ser melhor. Sem ela não sei o que quero ser, se quero ser…
Em casa, pego na garrafa que abri ontem e decido que é uma boa ideia partilhar o vídeo. Não verifico se errei em algum ponto da música, se estava afinado ou se a qualidade do vídeo é boa para publicar. Que se lixe. Partilho nas redes sociais e, sem me debater sobre o assunto, envio-o à Mariana.

“Sei que não queres falar comigo. Acredito que, se quisesses, já terias respondido às mensagens que te enviei nos últimos dois meses. Não vou enviar-te mais mensagens. Continuo a ter saudades tuas, continuo a não perceber o que fiz, mas não aguento mais. Não posso esperar para sempre.”

É dia 21 de Julho. Que merda. Acabo o conteúdo da garrafa e, irritado com a falta de resposta, atiro-a contra a parede. Os vidros espalhados pelo chão têm sido algo comum nesta casa. Passaram dois meses, mas parece ter passado uma vida. Talvez um dia ela volte e continue a cantar comigo no carro. Talvez um dia ela volte e eu consiga reparar o que quer que tenha estragado. Talvez um dia ela volte e eu a convença a nunca mais partir. Talvez a música me salve. Talvez um dia ela volte e eu ainda esteja aqui.

Disclaimer: A saúde mental é tão importante como a saúde física. Se te sentes sem esperança, em baixo, sem energia, desmotivado, se estás a passar por um mau bocado, procura ajuda. Linhas de apoio/prevenção de suicídio (Portugal): aqui.

O projecto Conta-me Histórias é um projecto original de Sofia Costa Lima que consiste em publicar 12 contos em 12 meses durante o ano de 2019. Todas as informações relativas ao projecto podem ser lidas aqui. A autora segue o Antigo Acordo Ortográfico.