Você

Querido T,

Antes de tudo gostaria de dizer que eu não tenho nenhum motivo para estar escrevendo essa carta, mas achei que eu deveria para me livrar dessa história o quanto antes.

Quando te conheci eu estava num momento difícil da minha vida. Eu estava até pensando em desistir. Você apareceu. Deu-me a atenção que eu precisava. Você me elogiava, chegou até a dizer que meu sorriso era como palha italiana (porque era “delicioso” — confesso que sorri ao escrever essa parte). Para você abri minhas feridas, minhas inseguranças e meus segredos mais profundos, e você ouviu, olhando nos meus olhos, enquanto eu preferia desviar para o mar. Em você eu achei que tinha encontrado também um amigo.

E assim começou. Eu parecia mais feliz (ou talvez fosse apenas ilusão), mais leve. A vida começou a fazer sentido, as letras das músicas passaram a ter um significado, o que me fazia cantá-las em voz alta sozinha no meu quarto com meu sorriso tão delicioso estampado no rosto. Eu falava sobre você com meus amigos e não conseguia conter a felicidade: eu estava flutuando. É claro que um dia um “relacionamento” (se é que podemos chamar assim uma coisa que durou tão pouco, né?) em que um dos lados que estava completamente infeliz se torna dependente dele para ser feliz não daria certo. Relacionamentos funcionam quando os dois estão psicologicamente dispostos, acho.

Só que isso não quer dizer que tenha sido culpa minha, porque não foi, apesar de meu histórico amoroso ruim. O que aconteceu foi que, assim que você curou minhas feridas e me tornou numa pessoa melhor, você desistiu. Você virou uma pessoa completamente diferente. Eu comecei a ficar chateada, decepcionada. Eu me senti enganada. Eu estava enjoando de você. E eu sei que você fez de propósito. Se não foi, pareceu muito. Então eu larguei de mão, não valia a pena insistir pela milésima vez. Depois de tomar essa decisão, deitei na minha cama esperando que lágrimas caíssem dos meus olhos. Mas não aconteceu. Isso me deixou um pouco frustrada e surpresa.

Você voltou. Mais diferente do que antes. Porém eu também estava diferente: não estava presa a ilusões. Eu já tinha um novo objetivo na vida. Eu estava decidida a dizer adeus, só não sabia como.

Algumas coisas eu sei. Eu vou sentir falta dos seus beijos, do seu abraço, do seu jeito de segurar minha cintura, do seu cheiro… Muitas coisas. Eu aprendi bastante nesse curto período que passei com você e agradeço. Quero que você siga em frente assim como estou fazendo, pois você é um ser humano maravilhoso e merece tudo de bom no mundo, e, talvez, quem sabe ao lado de outra pessoa?

Uma pena essa pessoa não ser eu.

Uma pena não ter dado certo. Talvez a gente ainda se esbarre por aí, caso estejamos destinados a ficar juntos (você acredita em destino? Nunca tive a oportunidade de perguntar). Parece besteira, eu sei. Juro que não sou essa boba romântica que se mostrou na carta. E também se eu for não tem problema.

Acho que isso já está ficando grande demais. É aqui que me despeço.

Abraços,

A garota do sorriso de palha italiana (e então sorri de novo ao escrever isso).

P.S.: Procure pela música desse trecho a seguir.

“Encontrei descanso em você
Me arquitetei, me desmontei
Enxerguei verdade em você
Me encaixei, verdade eu dei
Fui inteira e só pra você
Eu confiei, nem despertei
Silenciei meus olhos por você
Me atirei, precipitei
Agora
Agora eu quero ir
Pra me reconhecer de volta
Pra me reaprender e me apreender de novo
Quero não desmanchar com teu sorriso bobo
Quero me refazer longe de você”

P.S.2.: Eu estava quase gostando de você de verdade. Conhece a palavra amor?