Sobre a Maria, desvios e outras coisas

Escrever é como respirar.

É frio, esquecimento e demora.

Abrigo, colo, companhia, aurora.

A gente sai por ai se enchendo de tudo o que nos chega. Olhares, brisas, receios. Os cheiros, os amores, a mulher que carrega o carrinho cheio de papelão, a história das caixas, da figura que agora se desloca atrapalhando o transito da Avenida Paulista e dos motoristas indignados. Todos os encontros. Tudo se esvazia aqui. A fala nem sempre alcança, desorganiza. Talvez escrever seja mais um suspiro…Aquilo que transborda por nossos sentidos, escorre pelos dedos quando não se sabe ao certo o que fazer com o que nos preenche. O expirar que esvazia nossos pulmões pra que possamos continuar nos vendo no outro.

Maria José passa mais um dia sentada em frente ao escritório, com suas duas malinhas, sua garrafinha e um cigarro que as vezes arranja com o manobrista da doceria ao lado.

A fala incessante com o vazio, dá lugar ao silêncio. Os olhos atravessam a rua e vão de encontro direto aos meus. Nos reconhecemos. Ela deixou algo em mim. Assim, como quem tem muito pra dizer, mas com a sabedoria de que não vai ser entendida. A conexão é de outra ordem, outro nível. Exige estar presente. Sorrimos e ela volta a dar seu sermão no pobre invisível, que parece, por vezes, retrucar.

Os dias passam, mas eu ainda tenho seu olhar comigo, seu sorriso manso e um pouco da tal lucidez que tanto te pedem Maria.

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