Carta à minha última avó

Vó,

Hoje acordei com uma dor nas costas impossível. Você viu o tamanho do inchaço na minha lombar. Perguntou se doía, disse que faria uma compressa de água quente pra ajudar a amenizar. Pus a água no fogo, esquentou, viemos pro meu quarto. Enquanto recebia seu minucioso carinho medicinal, coloquei música na televisão. “É Gal, né?”. E não é que era mesmo? “A voz é inconfundível, não tem como errar”. Uma, duas, três vezes a toalha quente nas costas. “Me avisa se a quentura ficar insuportável, ok?”.

Desde que me entendo por gente, vó, você esteve aqui pra cuidar de mim. Gradativamente, o papel vem se invertendo. As compressas são retribuídas por idas a médicos, passeios no Centro, conversas da sua difícil infância… Nos momentos de solidão profunda, penso em quando você não estiver mais aqui. Ainda bem que não sabemos ao certo quando isso vai acontecer, mas só de saber que vai acontecer, independente de qualquer coisa, faz doer mais que o inchaço na coluna… E como vou te avisar que a dor ficou insuportável, se você sequer vai estar aqui pra ouvir?

Miraculosamente, nos foi dada a mesma marca de nascença, no mesmo dedo. Estávamos predestinadas a esse encontro, vó. Retiraram-nos da posição de mãe e filha e nos colocaram na de vó e neta pra nos poupar dos conflitos. Pra nós, restou só a doçura e a ternura das relações entre os de cabelos brancos e os de cabelos negros, poupados pelo tempo.

As costas ainda doem. Você disse que mais tarde faria outra compressa. “De noite é melhor, aí você já deita e dorme”. Durmo sim, vó… Pra sonhar com um mundo em que tudo que há de mais breve na nossa existência se eternize. Ao menos em prosa, em poesia, em memória…

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