Moonlight e o que é de fato ser negro

Pensei muito sobre como deveria começar esse post. Esse filme talvez é um dos mais ricos em emoções que vi nesses últimos tempos. Queria escolher uma imagem que captasse perfeitamente a essência do que me tocou e cheguei nessa.

A cena acima é uma das mais bonitas que me recordo. Por quê? Porque confere humanidade a pessoas que sempre foram bestializadas, animalizadas, tratadas como violentas e brutas. Desde a época da escravidão, ser negro está associado à violência, armas de calibre altíssimo, drogas e cadeias. Moonlight não foge dessa realidade, porque não tem como. A nossa identidade foi forjada a partir desses elementos, mas não somente.

Chiron, o personagem principal do filme, é um menino que, como outro qualquer, tem vários dilemas. Sexualidade, raça, drogas, tudo o atinge com uma força visceral. Filho de uma viciada em drogas de comportamento incerto, Little se vê o tempo todo escarnecido, sacaneado, menosprezado por não ser como os demais. Não é um menino violento, não fala de sexo como seus colegas, não é atraído pelas bocas de fumo. Em suma, é discriminado por estar fora do esteriótipo criado para o homem negro, de força, vitalidade, violência e sexualidade aflorada.

Ultimamente tenho refletido muito sobre como o fator racial afeta a minha vida. Dia desses escrevi no Facebook sobre como aparentemente fui blindada do racismo muitas vezes, mas era uma doce ilusão infantil. Fato é que a sociedade é racista. E esse racismo pode chegar a um máximo quando um negro ou uma negra se comporta fora do “habitual” de sua comunidade. Quando foge dos padrões extremamente racistas que foram estipulados.

Nossa existência nunca foi poética. Para os brancos, o negro bom é aquele que sofre, que persevera, que luta, que é pobre, mas resiliente. A luta faz parte do nosso DNA, mas nunca deve nos definir. Moonlight deu poesia ao negro. Ainda bem. Quando comecei a escrever, achei que ser poeta era pra qualquer um. Quando comecei a ler, vi quase que era privilégio branco. Agora, enquanto tento esboçar meus próprios versos, vejo que a poesia vem pra qualquer um. O que não a deixa vir à tona é sempre o racismo.

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