O não-lugar

Há algum tempo atrás, a Netflix lançou um filme chamado Barry, que conta a história do ex-presidente Barack Obama muito antes dele sequer sonhar com a presidência. Ninguém falou desse filme. Passou totalmente despercebido pelo público em geral, mas resolvi assistir porque, apesar de tudo, Obama virou um símbolo por ter se tornando o 1º presidente negro de uma nação tradicionalmente racista e segregacionista como os EUA. Pra mim era extremamente importante saber mais a história desse personagem que, mesmo homem, ou seja, um passo acima de mim na “escala da opressão”, provavelmente compartilharia comigo muitas angústias. Obama é fruto de miscigenação: mãe branca, americana, e pai negro, africano. Eu sou filha de mãe branca e pai negro. Do lado da minha mãe, a família brasileira nasceu toda de minha bisavó portuguesa que veio pra cá. Do lado de meu pai, mal sabemos de onde viemos. Não há registros. Uma família repleta de analfabetos que viu em meu pai a primeira geração letrada e universitária.

Dou esse panorama porque ele me assombra desde criança, assim como assombrou Obama também desde pequeno. A mistura em países como os nossos, no caso dos EUA e do Brasil, que têm reconhecidamente dificuldade de entender sua história leva a seus frutos uma sensação de não pertencimento que perpassa por todas as situações cotidianas de nossas vidas. Há sempre uma necessidade do mundo em ressaltar as descendências europeias. “Tenho bisavós italianos”. “Meus ascendentes são franceses”. “Tenho sangue alemão na família”. Quantas vezes já não ouvi isso? Quando digo que provavelmente há sangue escravo em minhas veias causo desconforto, até nos mais próximos. Uns pelo constrangimento histórico que provavelmente seus tataravós expuseram aos meus, mas outros porque sabem que podem usar de informações como esta como arma em momentos em que for conveniente ressaltar a negritude escusa de seu passado. Entendia esse conflito na minha própria árvore genealógica, mas nunca aceitei bem minha ascendência portuguesa. Sabia que ela não me livraria nem um pouco das diversas situações racistas em que me encontro desde que entendo por gente (e que sei que ocorrem muito antes do meu despertar para a consciência). Estamos sempre andando na corda bamba, mas os pés parecem pender muito mais pra cair.

No filme, aparece uma namorada branca que Obama teve na época da faculdade, muito antes de conhecer a Michelle. Ela não entende o porquê dele parecer distante, alheio e pensativo a maior parte do tempo. Os dois, por causa da universidade, frequentam ambientes majoritariamente brancos (que surpresa!). Ela o leva a uma festa de família que TODOS os familiares são brancos. Ele, mais uma vez, parece figurante entre todas aquelas figuras de primeira linha. O próprio Obama também tenta se envolver com a comunidade negra em um certo ponto. Sem sucesso. Também não se vê lá representado. Fica, como sempre, no impasse. O que sou eu? Não sabemos… Nem nunca saberemos.

Escrevi isso porque reconheço minha posição de privilégio em relação a diversas pessoas negras inclusive que conheço. Sinto uma gratidão triste por isso. Tento sempre arrombar portas pra que esses companheiros não se sintam acanhados e possam também entrar, mas não é simples assim. Sábado passado fui numa festa que só toca MPB e vi no máximo 4 pessoas negras num ambiente que devia ter mais de 200. Tocaram “Canto das três raças”, aquela música emblemática que Clara Nunes gravou, e vi uma imensidão de brancos cantando cada palavra daqueles versos com um tom de verdade assustador. Provavelmente se conversasse com qualquer um deles depois alegariam o que disse lá em cima: “Também corre sangue negro nas minhas veias”. Corre, mas não escorre. Do meu corpo parece cair uma gota impura cada vez que pego o 485 na UFRJ e sinto os olhares de desprezo daqueles que acreditam que eu não mereço estar na mesma universidade e sentando no mesmo ônibus que eles pra voltar pra casa. Sou mulher, negra, mas tenho casa pra morar numa mesma rua que assassinaram uma menina com a mesma cor que a minha por morar num trecho de subida que chamam de favela. Não sei muito bem onde estou. Talvez saiba mais pra onde quero ir. Aos meus amigos e paixões peço somente a compreensão. Sei que vocês têm sangue negro. Mas eu tenho pele. E nem sempre o mundo vai ser confortável pra mim como é pra vocês. Perdoem a cara emburrada. Não é por mal. É só mais um ato político que deve atingir não a vocês diretamente, mas a uma sociedade que postula lugares a partir de raça. Quem sabe um dia não viro Obama. Até lá, sigo batendo cabeça pelo mundo como ele…

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Sofia Alves’s story.