Outros jeitos de sentir a dor

Acho que comecei a escrever pra valer quando fiz uns 15 anos. Pra mim o misticismo da nova idade se direcionou todo pra escrita ao invés de festas grandiosas e viagens exorbitantes pro exterior. Eu ia pra escola e às vezes não prestava atenção em nada que acontecia perto de mim. Gastava os rodapés dos meus cadernos de Química com letras que, combinadas, não formavam moléculas, mas sim pseudo poemas. Não gosto de chamar o que fazia naquela época e o que faço hoje de poesia. Não sei se devo conferir a escritos de tom tão convencional um estatuto de literatura que provavelmente me faria responder, pro bem e pro mal, por coisas que não gostaria de me responsabilizar. São espasmos que saem do meu corpo e que me vem em forma de palavra como pra uns vêm em jato de tinta. Pra ser extremamente sincera: é um descarrego. Um vômito que vem e alivia e que, de repente, pode ser apagado com o amassar do papel que vai direto pra lata de lixo mais próxima que eu encontrar.

Nunca dei muita importância pro que faço tanto por duvidar um pouco do valor da minha escrita quanto pelo tom extremamente confessional do que escrevo. Quem me conhece mais (e me lê) sempre sabe exatamente da ferida que trato. Vira terapia, não literatura. Mas, nos últimos momentos, especialmente do início do ano pra cá, comecei a refletir sobre o que é ser mulher e escolher a escrita como forma de expressão. Nós, que historicamente sempre fomos distanciadas da Academia e da cultura letrada, que tivemos produtos especificamente produzidos no mercado literário para o público feminino (e escrito por homens), precisamos SEMPRE afirmar que a escrita feminina é um ato político. E eu provavelmente só percebi isso quando fui ler o livro Outros jeitos de usar a boca, da Rupi Kaur.

Eu nem lembro mais quando comprei esse livro. Só sei que um belo dia recebo uma notificação do YouTube falando do novo vídeo da Jout Jout. Deixei pra lá. Fazia tempo que o canal dela só postava coisa desinteressante pro meu gosto. No mesmo dia, horas depois, abri o YouTube pra ver o trailer de um filme e me deparei, de novo, com o vídeo. Ignorei, de novo. Alguns dias depois fui a um shopping, entrei numa livraria e vi o livro na prateleira dos mais vendidos. Dei uma breve folheada em busca de algo que me interessava e fui me surpreendendo, surpreendendo a ponto de perder a respiração. Nunca tinha lido nada daquilo. Parecia que, de alguma maneira, aquele menina indiana estava ali do meu lado, conversando comigo, compartilhando dores, tentando ser minha amiga. Comprei o livro pela internet. Hoje meu exemplar já é todo marcado. Basicamente todo dia leio algo nele. Vou e volto em busca de algum sentimento compartilhado que nunca tenha encontrado em um livro. É reconfortante saber que a dor e o amor cortam alguém pelo meio. Traz o sentimento de identificação que nós, mulheres, deveríamos nutrir mais em relação uma a outra que se embaça pelo cotidiano machismo que nos coloca em lados opostos de uma mesma luta.

Rupi não é Cecília Meireles e nem pretende ser. Se eu perguntar pra grande maioria dos meus professores, especialmente pros homens, o que eles acham dos poemas desse livro, todos vão falar horrores e desconsiderar o valor literário que há sim na sua escrita. Mas sinceramente? Esse pouco me importa. Gostaria que minha versão dos 15 anos pudesse ter lido esse livro. Gostaria que todos os homens que me cercam lessem esse livro numa tentativa de serem mais compreensivos com as mulheres que os cercam e com sua própria sensibilidade.

Esse é um livro sobre o ser humano e todos os sentimentos mais violentos que nos assolam. É um livro pra poetas e não poetas. Claro que os poetas de coração vão gostar mais. A gente acaba vestindo a carapuça de poemas como esse que iniciam o post e entende que nossa poesia nasce, na maioria das vezes, da necessidade de eternizar um amor ou um momento que já acabou ou vai se acabar em breve. Mas óbvio, esse é um livro para as mulheres. Escrito por uma mulher. Fala de estupro, sexismo, estrias, menstruação e todos os assuntos censurados no mundo dos homens e que aparecem sem rodeios e romances. A realidade é dura, mas ainda oferece um quê poético de quem vê o mundo de forma privilegiadamente linda.

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