Onde está o (meu) Wally?

A menos que ele esteja usando óculos redondos e um conjunto de touca e camisa com listras vermelhas e brancas, pode ser um pouco difícil identificá-lo.

Essa semana assisti Medianeras pela quarta ou quinta vez. O efeito, no entanto, permanece o mesmo da primeira vez que assisti. Mais do que um soco no estômago, o filme nos coloca frente a frente com um espelho que reflete a sociedade na qual vivemos com um compromisso tão grande com a realidade que chega a nos assustar de alguma forma. E, é claro, uma obra com um potencial tão elevado quanto essa desencadeia diversas reflexões.

A verdade é que a gente vive meio perdido. Todos parecem querer muitas coisas, mas, ao mesmo tempo, ostentam um olhar vago, vazio, assustado, como o de quem procura algo ou alguém, mas sem sucesso. Na verdade, acredito eu, estamos constantemente procurando nosso Wally em meio à multidão.

Nem sempre o Wally que buscamos tem a ver com o amor romântico, embora esteja diretamente relacionado à lacuna vazia que permeia nossas relações pessoais, cada vez mais frouxas, desconectadas e decadentes. Seja no campo da família, do amor, da amizade ou em todos eles ao mesmo tempo, não é raro sentirmos que falta algo. Não importa se é uma pitada, três colheres de sopa ou duas xícaras, a sensação que fica é que sem aquilo o nosso bolo não cresce. E ninguém gosta de bolo quando sola.

Por vezes, nos sentimos anestesiados: não ficamos verdadeiramente tristes, mas também não sentimos a alegria propriamente dita. O dia se esvai com a mesma facilidade com a qual surge e nós mal percebemos. Vivemos no piloto automático, tentando a todo custo manter a nossa rotina minimamente organizada e contando as horas, mas… para que, ou melhor, para quem?

É que com tanta conectividade fica difícil não nos dispersarmos do que realmente importa e, como não poderia deixar de ser, essa inversão de valores sempre vem à tona. Tendo o emprego dos sonhos ou estando desempregado, possuindo ou não dinheiro, sendo próximos ou distantes de nossas famílias, lá está o sentimento de vazio. No fim, estamos todos sozinhos. Não só eu. Não só você. Tudo é individualizado, dividido, segregado. A coletividade é testada a todo tempo e, como bem sabemos, sempre apresenta falhas.

E aí, como quem não quer nada, a gente relaciona a nossa felicidade à algum outro alguém, que imediatamente se torna nosso escape e preenche o vazio anteriormente instalado. Nosso mundo cinza ganha cores. Arrumamos um motivo para contar as horas. Toda dor fica menos intensa, já que agora temos um propósito, um impulso, um objetivo.

Mas é momentâneo. É momentâneo porque tudo no mundo é momentâneo, finito e instável, mesmo que seja ‘eterno enquanto dure’. É dessa forma porque a vida é feita de encontros e desencontros, de chegadas e partidas, de gente que vai e de gente que vem. Fim.

E assim, gradativamente, a rotina nos mostra que aquele ali não é o nosso Wally. Ele até foi, mas já não pode mais ocupar esse lugar, porque não se banha duas vezes no mesmo rio e porque todo mundo mudou e porque o relacionamento simplesmente não funciona mais. A culpa não é minha, nem sua, nem de ninguém.

A gente chora, o vazio reina, a nossa vida parece poder acabar a qualquer momento, mas depois tudo se acalma e volta ao eixo. Com o tempo, talvez após a terceira ou quarta vez que passamos por esse ciclo, as nossas reações às despedidas já não são mais assim tão intensas.

Mesmo que relutantemente, a gente se acostuma com o nosso vazio, com o nosso silêncio interior, com as nossas lacunas desfalcadas. Prometemos para nós mesmos que não vamos nos envolver tão cedo, porque simplesmente não vale a pena e porque agora vivemos bem sozinhos. Começamos a aceitar as coisas como elas são e movimentamos apenas pequenas mudanças para melhor nos habituarmos.

Mas, quando menos esperamos, estamos sorrindo para o mundo. E, consequentemente, o mundo começa a ser recíproco.

Aí, nos esbarramos em outro alguém. Assim, do nada. E o vazio não some instantaneamente, até mesmo porque ele já nem nos incomoda tanto assim. Só que a presença dessa pessoa nos faz bem, nos transborda e nos faz querer mais. E pasmem: é recíproco.

Nesse momento, quando o universo conspira a nosso favor, é que nós mais nos autossabotamos. Acostumados com tantos desencontros, tentamos desfazer os poucos encontros que nos ocorrem. Fazemos de tudo para não nos entregarmos demais, para não nos expressarmos, para não nos envolvermos como gostaríamos.

Mas não conseguimos, porque ali, naquele momento, achamos o nosso Wally em meio à multidão. Ele não usa óculos redondos, nem touca e camisa listradas, mas de cara sabemos que é ele. Simplesmente é. E a gente deixa ser.

Então, na era das relações virtuais, descobrimos que fortalecer verdadeiramente um laço afetivo é o melhor caminho para a resistência. Deixar ser, deixar estar, deixar acontecer. Abraçar, sentir, beijar, rir, chorar, brincar, correr, cozinhar, comer, dormir, acordar, brigar, reconciliar, viver. Tudo só faz sentido se for compartilhado, por mais clichê e meloso que possa parecer.

Quando finalmente encontramos o nosso Wally, nunca sabemos explicar muito bem o que aconteceu, embora de alguma forma consigamos sentir com clareza. A ocorrência do encontro significa que, naquele momento, aquelas pessoas se sentiram unidas de alguma forma. E se sentiram mais felizes juntas do que separadas. Enquanto esse sentimento continuar existindo, aquele vai ser o seu Wally em meio à multidão. Quando não mais o for, não mais será.

Simples assim.