Atenção! A todas as pessoas que apoiam o debate de que crianças trans não existem e que acompanhamento psicológico com crianças que se identificam trans, não bináries e adjacentes. O debate não é somente sobre a extinção do gênero.

Gostaria de ressaltar que é muito difícil a uma pessoa cis entender o que se passa pela nossa cabeça, o que pensamos, como reagimos a nossa condição de estarmos indo contra a um dos estereótipos mais antigos e enraizados na nossa sociedade. A condição de gênero sobre masculino e feminino sendo definida pelo sexo biológico. E por este motivo, várias pessoas (inclusive vertentes da militância LGBT e Feminista) parecem que não conseguem entender que a nossa luta é muito mais do que só assumir nossa condição de gênero, é assumir também nossa orientação sexual que também não é considerada, é assumir a nossa aparência, nosso modo de viver, e ainda tentar sobreviver depois disto. Porque nem dentro de casa com as portas trancadas estamos seguras, e muito menos na rua (Salomé, Dandara, Heryca e outras milhares) e ainda cometemos suicídio. Em fim, todo mundo entendeu e já percebeu o quanto a gente é fudido mesmo.

Porque defendo o acompanhamento psicológico a crianças que estão nesta condição? Algumas pessoas acham que acredito num mundo maravilhoso onde as pessoas vão levar seus guris a um psicólogo toda vez que eles disserem que querem um nome diferente, ou que se comportem de maneira diferente, e que isso é problemático a educação e formação da criança porque futuramente ela pode se ver de outra forma. Massa! 
Mas quando falam isso, se esquecem do fato de que apenas uma pequena porcentagem da população entende o que é transexualidade, só uma porcentagem da população entende o que é orientação sexual, e que a maioria das pessoas do planeta nos vêem como aberrações por não terem acesso ao mínimo de educação e formação. Nossa infância já é difícil por natureza, e só de pensar na tamanha violência que várias crianças sofrem no mundo todo a partir do momento que começam a apresentar os sinais da nossa condição, eu tenho vontade de chorar. Mas e aí? O que podemos oferecer a elas? Um oi, bom dia, espere apanhar a vida toda na escola, na rua, dentro de casa, (se ainda tiver casa) espere sofrer toda a opressão de papel de gênero, aos vários casos de pedofilia, a opressão familiar e ainda o risco de morrer diariamente pra poder ter direito a falar com um profissional (em maioria claro, pessoas cis porque a gente geralmente se encontra no meio do caminho da clínica do psicólogo, nas avenidas e nas casas de prostituição) sobre como a gente se sente em relação a nossa condição de GÊNERO. 
Repito GÊNERO, GÊNERO e GÊNERO, três vezes que nem o Collor quando foi acusado de envolvimento com a máfia italiana pela receita federal (alguns conhecem esse meme, amo) pra que fique bem claro que amiges, não é fácil. É um pênis, é uma vagina, pensar todo dia em arrancar uma parte do seu corpo fora, ou pensar todo dia em arrancar todo o seu corpo fora. Porque tu não se encaixa nele, é DIFÍCIL. 
DIFÍCIL, DIFÍCIL E DIFÍCIL. 
Até o momento em que todas as pessoas possam entender as nossas várias necessidades, como a transformação dos corpos e a cirurgia de resignação sexual, e entender também que isso não é generalizado, que existem pessoas que não se sentem bem com a transição e não mudam sua aparência, eu vou defender pra sempre o mínimo de diálogo que nós podemos ter com uma pessoa que mesmo que não possa entender de todo o nosso processo, ao menos pode dar uma orientação e não falar que nós somos doentes ou que estamos possuídas pelo capeta.

Pra concluir, resumindo tudo isso pra vocês, já que não estamos seguras em nenhum local, pelo menos na minha cabeça eu quero tentar estar segura. Só eu sei o quanto foi difícil pra mim entender o porquê que eu nunca me encaixei direito em nenhum espaço, e sei que não sou a única.