Quando começas a ver além do cinzento…

… descobres que há muito mais do que conheces. Mais do que uma cor. Mais do que uma possibilidade. Mais do que um caminho. Mais do que uma forma de pensar ou fazer. Vês que tudo é diferente depois de olhar além do cinzento e chegas à conclusão de que o cinzento não é impenetrável, ou imutável, ou tampouco eterno. O cinzento é simplesmente o cinzento. Eu sou simplesmente eu. O cinzento pode não ser para sempre da mesma cor. Eu posso não ser sempre a mesma. Certamente sou mais do que ontem, pois a cada milésimo de segundo o meu corpo, a minha mente e o meu espírito absorvem biliões de dados, sem que eu sequer me aperceba. Por vezes, a sua entrada é silenciosa. Por vezes, fomentada. E com isto deixei de ser o eu de há uns minutos atrás. Melhor ou pior ou simplesmente com mais memórias. O cinzento também já não é igual ao de ontem. Tem uma tonalidade diferente. Mais sujo. Mais apagado. Até que um dia olha para além de si mesmo e vê outras cores. Não consegue parar de pensar numa delas. Será na amarela? Na azul? Ou magenta? Tantas cores… mas naquela o cinzento não pára de pensar e procura aproximar-se. Está perto, mas não sabe o que dizer. Perto, mas não vê (ainda) como pode chegar lá. O cinzento põe-se mais cinzento, mais escuro, por um tempo. (Também já me senti assim). Olha à volta, nota as outras cores… “Talvez o amarelo seja mais fácil de atingir. O vermelho não me parece tão intimidante. Não… Eu quero aquela. Cheguei aqui. Estou perto”. O cinzento estuda a cor e dá o derradeiro passo. Não a quer mais largar. Mergulhou nela, debateu-se nela, não a largou. O cinzento não é mais o cinzento. Eu não serei mais o mesmo eu.