Dinheiro gasto com Fies daria para criar 118 mil vagas no ensino público

Texto: Lázaro Thor Borges

Foto: Francisco Alves

O dinheiro repassado às universidades particulares em Mato Grosso através do Programa de Financiamento Estudantil (Fies), entre 2010 e 2016, foi R$ 3,2 bilhões. Já a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) recebeu cerca de R$ 4 bilhões.

O levantamento foi feito pelo jornal Sô Foca e revela que com esse investimento em ensino privado seria possível criar 118.407 vagas para novos estudantes no ensino público.

A investigação também mostrou que o valor repassado às instituições privadas aumentou mais do que o dinheiro recebido pela UFMT nos últimos seis anos.

Desde 2010, quando o Fies começou, houve um acréscimo de R$ 745 milhões nos repasses. O valor é 32% maior do que o aumento concedido ao orçamento da UFMT, que cresceu no mesmo período o total de R$ 514 milhões.

O Fies é a grama do vizinho que está sempre mais verde. O programa costuma ser foco de debate dentro do movimento estudantil e dos sindicatos de professores e técnicos da UFMT, principalmente quando o assunto são os cortes orçamentários sofridos pelas universidades nos últimos anos. Há um certo remorso entre os representantes docentes e alunos contra o programa.

O professor Reginaldo Araújo, presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat), defende que o dinheiro gasto com o Fies faz parte de um processo político de transformar educação em mercadoria, engendrado há anos em Brasília.

“Não há o que se discutir em relação a qualidade, nós sabemos que as melhores universidades brasileiras são públicas. Por isso o nosso debate é não permitir que a universidade seja apropriada por empresários, transformada em mercadoria. Ao invés do governo fazer isso, seria muito mais interessante se fosse feito um investimento direto na UFMT”, comentou ele.

Baixa qualidade

Os mato-grossenses que vivem o cotidiano do ensino privado, afirmam que o dinheiro aplicado não tem o mesmo impacto que o do ensino público. A qualidade dessas universidades seria mais baixa.

O estudante Bruno Vicente, de 29 anos, conta que começou a cursar Engenharia Civil financiando todo o curso. Ele, que desistiu do programa por conta de entraves burocráticos, lamenta ter financiado a sua primeira faculdade.

“Sinceramente posso dizer que o Fies é um programa que não vale a pena. Eu entrei porque não tinha como estudar, é uma porta que se abre. Não temos muito como arcar com o valor de uma mensalidade, e existe uma vontade de crescer, de almejar outras coisas e para isso é preciso aprender. Eu sei que se alguém me falasse hoje que faria o Fies eu ia aconselhar a não fazer”, diz Vicente.

Entre aulas vagas, professores despreparados e pouco didáticos, Bruno acabou desistindo do financiamento e se afastou de vez da universidade no ano passado. Recentemente, no entanto, ele recebeu uma ligação da instituição onde estudou oferecendo desconto no curso. Aceitou e agora pretende terminar sem financiamento.

O volume de dinheiro recebido por universidades como a de Bruno demonstra que o nível de qualidade destas instituições está muito aquém do investimento que ela recebe. A Universidade de Cuiabá (Unic), mantida pelo grupo Kroton, é a campeã em repasses do Fies. No acumulado de seis anos, a Unic recebeu R$ 2,1 bilhões do programa. O curso de Vicente, por exemplo, Engenharia Civil, está na 210º posição no ranking nacional.

Em segundo lugar nos repasses do Fies fica o Univag, com R$ 495 milhões. As universidades do interior também ganham destaque pelos valores recebidos. A Faispe de Sinop está em terceiro lugar, com R$ 332 milhões seguido do Grupo Ananhanguera, com R$ 227 milhões.

Crise

Em 2016 ocorreu uma retomada de um investimento na rede privada que tinha decaído no ano anterior. No último ano em que os números foram computados, a Unic recebeu R$ 485 milhões do Governo Federal, contra R$147 milhões da Faispe, R$ 119 milhões do Univag e R$ 49 milhões da Anhanguera.

O valor total recebido pelas universidades particulares em 2016 chegou muito perto do montante pago à UFMT. As instituições privadas receberam só 13% a menos do que a Federal de Mato Grosso. No ano passado, portanto, o pagamento foi de R$ 865 milhões à UFMT contra R$ 756 milhões às particulares.

As universidades públicas enfrentam cada vez mais problemas para fechar as contas. Dados de uma pesquisa realizada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (Fnde) afirma que 49% dos contratos do Fies estão inadimplentes. Ao todo, 86 mil estudantes têm prestações atrasadas há mais de dois meses.

Em média, o Governo Federal gasta R$ 21 mil ao ano por aluno no ensino superior. A estudante Diva Gomes, de 19 anos, está entre os mais de 34 mil estudantes da UFMT. O valor gasto com ela já não é mais o suficiente para solucionar uma deficiência de ensino que vem desde antes da faculdade.

Ela explica que por ser de escola pública teve dificuldades de alcançar os colegas do curso de biologia e que, além disso, precisa conviver com os recursos escassos, a dificuldade de locomoção e a falta de auxílio financeira.

“Quem passa por essas dificuldades fica desolado e não tem muito com quem contar ou pedir ajuda, a universidade tem os auxílios, mas parece que é muito complicado conseguir, eu já tentei uma vez e estou tentando pela segunda vez agora. Esses últimos dois semestres foram bem complicados para me manter, eu precisava comprar um monte de material e não tinha dinheiro“, conta Diva.

No meio de tantas cifras e de tantos números a realidade foge aos dados oficiais. Os alunos das particulares também relatam dificuldades. Mônica Rodrigues, de 24 anos, terminou o curso de tecnólogo em Recursos Humanos e jamais conseguiu ser empregada na área em que se formou.

Há cinco meses ela começou a pagar as parcelas do financiamento e enfrenta a desilusão de pagar por uma qualificação que não mudou muito a sua renda final.

“O que me levou a fazer o Fies foi porque eu não consegui uma bolsa na particular, nem uma vaga na federal, não era o que eu queria, era a única opção que eu tinha, o ideal seria que eu conseguisse pagar, ou alcançasse uma vaga na universidade pública”, lamenta. Mônica explica que o medo de não conseguir um emprego na área acabou se concretizando e agora ela trabalha com vendedora para quitar as parcelas do Fies.

“Traz aquele desânimo de você pagar uma faculdade em que se formou e não conseguiu exercer a função. Até hoje eu não consegui nem entrevista nesta área. Hoje eu me arrependo de ter feito o Fies”, diz Mônica.

“Eu não aconselho as pessoas a fazerem, a não ser que você faça um curso com toda certeza de que vai ter retorno”, alerta.

Lobby privado

A Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes) e o Sindicato das Mantenedoras do Ensino Superior (Semesp) são dois fortes grupos responsáveis pela influência das instituições privadas sobre o Governo Federal. É através da Abmes que os grandes conglomerados educacionais brasileiros e estrangeiros conseguiram acréscimos consecutivos nos repasses do Fies.

O lobby desses grupos é fazer com que o Governo Federal crie menos vagas nas universidades públicas para privilegiar as instituições privadas. A tática tem funcionado.

O Brasil é um dos poucos locais do mundo que permite o lucro no ensino privado. Empresas como o Grupo Kroton estão, inclusive, na bolsa de valores.

O sociólogo Wilson Mesquita de Almeida, autor do livro “Prouni e o Ensino Superior Lucrativo em São Paulo”, explica que as empresas educacionais que atuam no Brasil funcionam como um modelo que surgiu no regime militar, no contexto da Reforma Universitária de 1968.

“Trata-se de um setor voltado para extrair lucros com a venda de serviços educacionais em nível superior, tocado por empresários e suas mantenedoras. Qualifico-o como ensino privado lucrativo para diferi-lo das instituições privadas comunitárias, confessionais, fundações de direito privado, autarquias municipais, dentre outras, que cobram mensalidades, mas cujo lucro não é revertido para os proprietários e seus herdeiros. Esse é o ponto essencial”, falou em entrevista por videoconferência.

O lobby para aumentar os lucros não é só político, é também midiático. Todo ano a Abmes pauta os grandes grupos de comunicação do país com pesquisas próprias que demonstram a necessidade do país investir em cursos nas universidades particulares para garantir o acesso a educação superior aos brasileiros.

Em um desses levantamentos, publicado em junho do ano passado, a Associação demonstrou que 92% dos brasileiros aprova o Fies. A mesma pesquisa, porém, informa que 40% dos entrevistados jamais financiaria um curso superior pelo programa.

“O lobby das universidades lucrativas, que possuem articulações políticas em todos os partidos, conseguiu o fôlego necessário para hoje se dar ao luxo de entrar na Bolsa de Valores. A conta, a imensa maioria dos brasileiros paga. Ou seja, a transferência de dinheiro público continua a pleno vapor, agora fazendo novos milionários que vendem seus grupos a investidores estrangeiros e nacionais.”, reitera o professor Wilson Almeida.