desculpe o transtorno, preciso falar de disforia

Minha mãe me perseguiu pelo apartamento. Em punho, a máquina de depilar. Parece uma floresta, parece uma floresta, ela dizia sobre as minhas pernas. Não é depilar, explicava, é só raspar. Não quero, eu respondi. E fugia.

Estávamos no carro. Ela viu muito rápido uma tirinha de meu tornozelo pela calça curta demais. Quis me depilar. Tinha argumentos para isso. Pelo apartamento me perseguia com a máquina. Aquela que faz um barulho estridente contínuo insuportável enquanto risca a pele arrancando pelos pela raiz. Eu me encolho, como sempre me encolhi, diante da máquina de raspar.

Então teve o dia que uma amiga me mostrou a foto de um moço andrógino. Lindo. Colocou a foto em tamanho gigante na televisão gigante para dividir comigo o tamanho daquele seu tesão. E o moço era tão lindo. Muito mesmo, entendi porque a amiga e as redes sociais gostam dele. E eu quis arrancar minhas bochechas com a faca de cortar pão. Elas não tem barba. E são como maçãs, me dizem. Eu emagreço, as frutas não. Estão sempre lá. Contravivendo-me. Você não é o moço andrógino lindo. Mãos no colo. Um belisco aqui e ali para na pele criar um eufemismo. Encare o famoso andrógino lindo na televisão gigante. Não pense. Nada.

Em uma madrugada qualquer, perguntei para uma pessoa enrolada em meu corpo se ela gostava de usar vibradores dildos cinta-caralha. Não. Para isso, assegurou, não precisava de mim, transaria com um homem de verdade. Então, sentou na minha cara. Não pense. Nada.

Antes de dormir um dia, eu pensei, se fizesse uma cirurgia, quando despertasse da anestesia, se ouvisse Natalia?, o nome nada diria e minha resposta seria algo como natalia eu não conheço não. Lembrei logo que se morresse na SO, morreria natalia e minha mãe provavelmente depilaria meu corpo. Não dormi. Morrer natalia se tornou um pavor real e insone.

O dia que meu pai foi me buscar na festinha. E eu estava de calças largas e meu tênis azul berrante de skatista santista cosmonauta. Usava a camiseta que roubei dele. Uma prancha estampada. Disse adeus às saias e vestidos e saltos e maquiagens e blusas de alça que sempre pareciam tão maravilhosas nos corpos das amigas, das meninas, mas em mim adquiriam o tom triste do descompasso. A vida inteira, todo mundo tão mais bonito, tão mais bem arrumado do que eu, tão mais estiloso do que eu. Fui na festinha com meu jeans largo. A camiseta de meu pai. O tênis parecido com aquele que os meninos da escola ostentavam. O que é? Agora você tem saco?! ele bradou enfático. Apertou com as mãos enormes as sobras da calça no meio das pernas. Não pense. Não pense em nada. Passa nos olhos o delineador.

Passa batom para tirar a foto! Passa o batom vermelho! Até os meninos vão passar o batom vermelho. Eu não quero. Eu não quero o batom vermelho. Desculpe. Eu não quero. Eu sei, é uma brincadeira. É para homenagear a youtuber muito legal. Eu não quero o batom vermelho. A questão não é se os cismeninos vão passar batom também. Vai lá. Eu tiro a foto. Eu tiro a foto, me deixa em paz.

Sua chupada foi uma delícia, mas não quero com a cinta-caralha. Tudo bem, sem problemas. Sorriso. É porque plástico pra mim é sempre falso. Falso. Falso. Falso. Meu prazer, falso. Meu sexo, falso. Meus pelos, falsos. Meu corpo: falso.

Não pense. Não pense em nada.