Por um uso ético, seguro e construtivo da Internet

As crianças e adolescentes de 50 anos atrás passavam seu tempo livre muitas vezes na rua: brincando, subindo em árvores, jogando bola ou empinando pipas. Ficavam “sem paradeiro” até anoitecer, quando chegava a hora de voltar para casa. Entre banho, jantar e a hora de dormir havia muita conversa em família, já que a televisão e era eletrônica não faziam parte do cotidiano daquela época.

As crianças dessa época, no processo de crescer e experimentar as possibilidades que a vida oferece, corriam alguns riscos: de cair de uma árvore ou de se envolver em uma briga no jogo de futebol do campinho da esquina. Já os pais, muito presentes na maioria das vezes, acompanhavam de perto o crescimento de seus filhos e nas constantes conversas, orientavam e norteavam seus caminhos.

A grande diferença entre a geração de jovens da década de 1960 e a atual geração, é que o tempo destinado para as conversas em família foram substituídas pelo uso da televisão, dos computadores e da Internet.

Gostaria de deixar claro que não sou contra o uso da Internet, e nem poderia ser, como professora e pesquisadora que sou. Porém, a grande questão que pretendo trazer à reflexão é: vocês, pais, sabem por onde andam seus filhos no mundo virtual? Será que eles têm maturidade para ter acesso a tudo àquilo que a Internet oferece? A família conhece os principais riscos e perigos associados ao uso indiscriminado da Internet? Vocês conversam com seus filhos sobre estes assuntos?

Este tem sido o tema de muitas pesquisas e estudos que tenho realizado há algum tempo no Laboratório de Estudos em Ética nos Meios Eletrônicos (LEEME) da Universidade Presbiteriana Mackenzie e o que tenho constatado é que além de ter liberdade total de acesso à Internet desde muito cedo, as crianças têm passado cada vez mais tempo conectadas e muitas vezes sem a presença de um adulto responsável. Qual é qualidade destes acessos? Quantas atividades vêm deixando de ser realizadas por essas crianças, já que passam, em média, mais de 4 horas conectados?

Eu nem precisaria realizar uma pesquisa para saber o que fazem essas crianças em seus acessos à Internet. A pesquisa só comprova o que se imagina: os acessos das crianças se resumem basicamente às redes sociais, ao download de músicas e ao acesso aos canais de vídeo disponíveis.

E eu posso garantir que estes três ambientes podem ser perniciosos, dependendo da postura ou da ingenuidade do usuário. Da violação do direito autoral (no caso do download de músicas) até o uso ilegal da imagem e exposição de dados pessoais, estes ambientes são exemplos clássicos dos problemas que podem acontecer quando a Internet é usada por uma criança sem nenhum tipo de supervisão ou orientação.

Mudar a rotina de uma criança ou adolescente é muito difícil. Não dá, de uma hora para outra, querer que um filho mude o comportamento quanto ao uso da Internet. Nem pensar em proibir! Estaríamos tirando um peixe da água. Nesses casos, é melhor que os pais passem a “habitar” um pouco mais o universo de seus filhos. Estejam mais presentes, conversem, informem-se para poder conversar de “igual para igual” com seus filhos.

Já com os menores, fica mais fácil criar regras e rotinas de uso. Senhas, horários e tempos de acesso são muito importantes. As crianças precisam crescer dedicando seu tempo livre para diversas atividades — existe vida além da Internet. É muito triste ver crianças que passam horas tendo a televisão e a Internet como suas babás.

Encerro esta reflexão com uma comparação que costumo fazer em minhas conversas com pais e educadores: a mesma mão que segura com firmeza a mão de um filho quando ele entra no mar pelas primeiras vezes, deve ser a mão que deve segurar firme a mão de um filho ao navegar na Internet nos primeiros acessos. Ensinamos e repetimos frases como: “o mar é traiçoeiro” e “água no umbigo é sinal de perigo” na tentativa de mostrar-lhes os possíveis perigos que vêm da natureza. E quando um filho começa ir para a água, sozinho, não tiramos os olhos dele, acompanhamos seu movimento à distância e se percebemos algo de errado, nos aproximamos para orientar e ajudar. Façam dos acessos de seus filhos à Internet o mesmo que fizeram quando os levaram à praia pelas primeiras vezes e tenho certeza: fazem até hoje.

A Internet oferece um universo gigantesco de informações e entretenimento — é uma das maiores criações da humanidade! Ela pode enriquecer o conhecimento, ensinar, estimular a criatividade e pode nos levar a lugares incríveis. Mas o que constatamos é que poucas são as crianças e adolescentes que fazem esse uso. Pais e educadores são convidados a semear esta idéia: por um uso ético, seguro e construtivo da Internet!

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